domingo, 9 de agosto de 2009

Música para os meus ouvidos

"Wild horses couldn't drag me away"
(Rolling Stones, Wild Horses)

Confesso que não me lembro, mas dizem que umas das primeiras coisas que aprendi a falar foi "Freddie", "Brian", "John" e "Roger Taylor". Culpa de uma camisa com os rostos dos quatro integrantes do Queen que minha mãe tinha. Dizem que ela ficava brincando comigo, apontando um ou outro e eu ia dizendo o nome. Bem, quem conhece o gosto musical de minha mãe sabe que não poderia ter sido diferente.

No Natal de 1988, minha mãe me fez a seguinte pergunta: "o que você prefere ganhar de Natal: uma bateria ou um Ferrorama?". Sabia perfeitamente bem o que era uma bateria: nessa idade, já flertava com o instrumento, em constante exposição numa loja de instrumentos musicais pela qual passava com frequência. Mas o que diabos era o tal de Ferrorama?! "É um trenzinho que anda sozinho", explicou-me minha mãe. A escolha acabou sendo um divisor de águas em minha vida. Lembro que fiquei em dúvida por alguns minutos antes de responder. De um lado, era a bateria, o instrumento musical que me chamava mais a atenção que as comentadas guitarras. Do outro, um brinquedo desconhecido, mas que parecia fazer coisas maravilhosas. A única certeza é que eu ia ganhar um deles. Os Beatles e os Rolling Stones não foram fortes (ou selvagens) o suficiente para me arrastar: escolhi o Ferrorama.

A partir daí, o ferromodelismo foi meu sonho de infância. Quando saía com minha mãe, o andar de brinquedos da DelCenter (hoje, Magazine Luiza) era parada obrigatória para admirar as maquetes de trens elétricos. Não tinha espaço para aquilo em casa. Os encaixes dos trilhos do Ferrorama logo foram quebrando devido ao frenético "monta, desmonta". E em meio a isso, o desejo de ter uma bateria desapareceu.

A música, no entanto, não. Cresci ouvindo Beatles, dividindo espaço com Titãs e Cazuza. Mas se o futuro promissor na música já tinha começado a desaparecer com o Ferrorama, o golpe fatal veio em 1995, com o CMJF. De alguma forma, simplesmente parei de ouvir música. Desconfio que fui a única criança de 12 anos de idade que não deu a mínima para os Mamonas Assassinas... E depois disso, para Legião Urbana, Skank, Jota Quest... Só bem lá no final do Ensino Médio, comprei um CD: o acústico do Capital Inicial. Aí, então, comecei até a ouvir rádio - decepção foi o dia em que, inocentemente, sintonizei 93,5MHz e descobri que a Transamérica tinha virado rádio evangélica. Até achei que era rádio pirata! Conheci Nirvana, Pearl Jam, Foo Fighters, Guns N' Roses, Red Hot Chili Peppers, Iron Maiden, Linkin Park...

Um belo dia, estava eu a passear com minha família no Carrefour. Então, deparei-me com este CD. O nome "Dire Straits" não me era estranho... Sabia estar associado a música de alta qualidade. E também a um cara que alguns de meus colegas tinham como um "deus" da guitarra: um tal de Mark Knopfler... Não conhecia nenhuma música. Ao fim de Sultans of Swing (aliás, Paula, por que não tem essa música no DVD, hein?), o presidente vitalício do limbo da moda tinha ganho mais um fã. Daí para Eric Clapton e Pink Floyd foi um pulo. Tinha encontrado o tipo de música que mais me agradava.

De lá para cá, o que fiz foi escavar o eMule atrás de coisas "do tempo da minha mãe": Simon & Garfunkel, Bob Dylan, Led Zeppelin, U2, The Police etc. Também recuperei os elos perdidos da Legião Urbana e outras bandas nacionais. Ultimamente, no entanto, tenho descaradamente fechado meus ouvidos para o que aparece no cenário musical. Por quê? Falta de expectativa, descrença mesmo. As músicas que ouvi na minha infância tinham quase trinta anos de idade e ainda soavam atuais. Faz dezoito anos que escutei Revolution pela primeira vez. Nunca enjoei, nunca senti vontade de passar para a próxima faixa. Mas o sucesso de hoje é quase completamente esquecido dentro de um ou dois anos. Música parece ter virado coisa descartável. Qual será a próxima "melhor banda de todos os tempos da última semana"?

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Paraquedismo

"Caí de um avião sem paraquedas"
(James Bond, 007 contra o foguete da morte)

A 3500m de altitude, seus únicos companheiros de verdade eram o frio, o medo e um bom paraquedas. Chegou à porta do avião e olhou para fora: nuvens e um profundo céu azul. Jogou-se, partiu rumo ao inevitável. Não porque um cara chamado Isaac Newton estava certo ao dizer que "tudo que sobe, desce", mas porque a descida era o necessário. Não estava voltando; somente indo.

No início, só conseguia pensar na coragem que teve em dar o impulso inicial. As memórias relativas aos primeiros segundos do salto jamais lhe voltariam - dir-se-ia que nem vieram. Aos poucos, porém, foi dando conta da realidade da queda e da liberdade que ela significava. Podia fazer praticamente o que quisesse - menos voltar atrás. Surgiu-lhe a primeira questão: o que fazer com tamanha liberdade?

Lá de cima, fixou um alvo no solo e se movimentou de acordo a atingi-lo. Abriu o paraquedas. Continuou com uma movimentação calculada em busca do alvo. Agora, porém, conseguia distinguir a paisagem abaixo de si com muito mais clareza - que aumentava conforme descia. Surgiu-lhe a segunda questão: por que aquele alvo?

Pela necessidade de arrumar uma utilidade para a liberdade, definiu um alvo, uma meta. E agora se perguntava por que aquele alvo era melhor que qualquer outro... Analisando friamente, percebeu que, de fato, não havia nada que qualificasse o alvo escolhido como mais ou menos meritório que outro. Outra pessoa que tivesse saltado antes, depois, ou até ao mesmo tempo, poderia, sem perda de generalidade, escolher outro objetivo... Tudo parecia depender bastante das inclinações particulares desenvolvidas no tempo do gozo da liberdade. Tinha escolhido aquele alvo porque, por alguma razão que não tinha se preocupado em achar, lhe pareceu óbvio, plausível, factível e até fácil. Ou mais fácil, pois certo é que se deu conta da variedade de alvos que desde sempre lhe foi apresentada. O mundo inteiro funcionaria assim também, sempre seguindo o caminho que melhor se enquadrava em alguma lógica? É, parecia mesmo ser assim. Mas... E se essa lógica, de repente, mudasse? E se decidisse mudar o alvo para outro lugar? Concluiu que aquele alvo era, sim, melhor que qualquer outro. E o era porque tinha-o escolhido sem influências de outras pessoas. Se tivesse de mudar o alvo, talvez alguém lhe censurasse. Mas no fundo, tudo que lhe importava era sua própria opinião...

O solo se aproximava e era cada vez mais curto o tempo para tomar uma decisão. Se atingisse o alvo, poderia considerar seu objetivo cumprido? E se não o atingisse: haveria frustração? Subitamente, a resposta lhe veio: não, não haveria frustração. Porque, na vida, tudo tem o exato valor que lhe atribuímos. Nem mais, nem menos. Aterrisar aqui ou lá pouco importava. O salto como um todo tinha dado ao pouso seu devido tamanho: o de mero detalhe. "Conosci te stesso".

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O Penico das Lembranças

"Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram o melhor de seus equívocos"
(Nietzsche, Além do Bem e do Mal)

Outro dia, ao comentar com meu amigo e "leitor padrão" deste blog, Fábio Fortes, que, num espaço chamado "Jarro de Memórias", todo texto deve conter uma lembrança, me dei conta de que nunca antes tinha explicado isso a qualquer pessoa. O que é curioso, pois noto que a primeira publicação de vários dos blogs que acompanho tiveram por finalidade explicar o porquê da criação do mesmo. Mas não este. Antes de, finalmente, prover tal justificativa, devo dizer que relutei muito em criar um blog. Isso porque, desde agosto de 2000, mantenho um "diário". E isso já supre minha necessidade de fazer download de meus pensamentos para algum lugar - conceito semelhante me foi apresentado, anos depois, por J. K. Rowling, na forma da maravilhosa penseira de Dumbledore. Assim, criei o blog para dividir algumas de minhas lembranças com meus amigos e leitores ocasionais, para que tomassem contato com alguma experiência que achei válida, refletissem sobre ela e formassem uma (ou reformassem sua) opinião sobre o assunto. O nome "Jarro de Memórias" veio de uma carta do card game Magic: the Gathering: Jarro de Memória - que não é só uma das minhas cartas favoritas, como também uma das mais poderosas (e poéticas!) do jogo. Mas talvez nada disso tivesse realmente acontecido se não fosse o sonho que tive na noite de 14-15/03/05. O que farei nos próximos parágrafos é tentar descrevê-lo, simplesmente. Então, paciência: é um sonho!

Ao som de Brain Damage - Pink Floyd

Não sei bem como o sonho começou, mas lembro que, em algum momento, eu estava, com meu pai, na esquina da rua Américo Luz com a avenida Governador Valadares (bairro Manoel Honório). Na verdade, não cheguei a ver meu pai em momento algum... Bem, fato é que, de alguma forma, soube que meu inimigo nos sonhos de infância estava de volta e tinha sequestrado meu pai. Como eu sabia se tratar do Penico das Lembranças - de quem nutria imenso e verdadeiro ódio -, logo fiquei preocupado. Sabia que meu inimigo era uma planta carnívora gigante, mutante, que tinha crescido em um vaso sanitário e se alimentava de pessoas. Ou melhor: conforme refleti depois de acordar, se alimentava de minhas lembranças. Tendo eu percebido que meu pai havia sido arrastado para um beco na rua Américo Luz próximo ao cruzamento onde estava, tratei de correr para lá a fim de salvá-lo. Mas foi em vão: tão logo a fantástica planta mutante percebeu minha intenção, parei de ouvir os gritos de meu pai. E logo as partes que mostravam que meu inimigo era uma planta gigante sumiram, ficando apenas o sinistro vaso sanitário branco, que desceu do alto de um prédio e me encarou. Detalhe: o vaso falava! E ameaçou me devorar também. Agindo meramente por defesa, apontei meu dedo indicador em direção ao vaso e fiz o movimento como se estivesse disparando uma arma. Ouviu-se o barulho de um tiro e uma bala "saiu" de meu dedo, atingindo o chão bem no lugar onde o Penico das Lembranças estava - estava, pois o bendito "pulou", esquivando-se do tiro. Em momento algum pensei em vingar meu pai ou que, destruindo o Penico, poderia trazê-lo de volta - agia num misto de ódio e defesa.

Então, começou a batalha entre eu e o Penico das Lembranças, que saltava de prédio em prédio, esquivando-se de meus tiros de uma forma que faria inveja até ao Neo, de Matrix. Persegui-o ferozmente até perdê-lo de vista. Mas não por muito tempo, pois logo o cenário mudou e me vi no terraço de casa. Até então, a batalha só tinha servido para provar que o Penico era muito resistente e ágil - principalmente por ser mutante e poder assumir diversos tamanhos, do microscópico ao gigantesco. No terraço de minha casa, fui avisado por minha mãe que o Penico estava, em tamanho microscópico, num tapete verde que estava dependurado na janela. Logo gritei: "então incinere esse tapete!". Sim, nesses termos! E quando minha mãe chegou com o fósforo acesso, disse-me que o Penico já tinha saído do tapete. Então, ele pulou no terraço e assumiu a forma que tinha quando lhe dei o primeiro tiro. Estava tão ameaçador e bem disposto a me devorar como da outra vez. Disse-me ele que já tinha dentro de si mais de oitocentas pessoas. Por alguma razão, ao ouvir isso, pensei no Orkut. O Penico agora tentava me convencer a me juntar àqueles que já estavam em seu interior. Dizia-me que eu seria apenas mais um. Rebati dizendo que ele dava muita importância a mim. De fato, naquele momento me dei conta que o Penico não estava atrás de minha mãe (poderia tê-la devorado enquanto estava no tapete, mas não o fez), mas de mim em especial. E isso só podia ser porque eu tinha alguma importância para ele. Tentei destruir o Penico das Lembranças de todas as formas imagináveis. Dei tiros e até tentei segurá-lo e batê-lo contra o muro do terraço na esperança de quebrá-lo. No fim, o jeito que encontrei para me ver livre do sinistro Penico foi acordar do sonho - que não tinha sido nada engraçado.

Foi aí que, num repente, dei nome ao sonho: "Penico das Lembranças". A primeira pergunta que me fiz depois foi: por que "Penico" se era um vaso? Realmente, deveria ser "Vaso das Lembranças"... Mas decidi manter Penico, pois era incrivelmente inusitado e irônico. Afinal, o que é um vaso sanitário se não um penico superdesenvolvido com alguns adicionais? Depois de refletir se o fato de o devorador de minhas lembranças ser um monstro conhecido como "Penico" era uma espécie de autocrítica super-ácida, fiquei pensando em formas de derrotá-lo e que consequências isso teria.

A conclusão é que foi interessante. Minha batalha era por salvar minhas lembranças. E a isso o diário servia bem: a menos que o Penico se transformasse em vírus de computador, minhas memórias estavam salvas! No entanto, nessa tentativa desesperada, passei por cima do valor inestimável do esquecimento de algumas coisas. A ideia é bem Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças: o poder de editar a memória. Daí me veio a pergunta: como seria se pudéssemos nos lembrar apenas do que nos agradasse? Creio que chato. Tão ruim quanto se lembrar de tudo em detalhes. A meu ver, todo tipo de experiência é válida e melhor fazemos em tentar nos entender com nossos "traumas". Claro que fazer um mapa de como a memória se organiza seria maravilhoso para tratar vícios e doenças como a esquizofrenia. Mas daí a selecionar lembranças para ficar guardadas e outras a serem excluídas... Acho que perderia a graça: o bom da nossa memória é que a gente ainda não descobriu onde fica o delete - ou a cordinha da descarga...

sábado, 11 de abril de 2009

Silêncio

"Quando dizem meu nome, não sou mais. Quem sou eu?"

Quando eu era criança e até nos tempos de adolescência, falava pouco. Não tinha sequer o charme de uma voz rouca ou palavras sábias para compensar isso. Em geral, quando reflito sobre o que falei naquela época, percebo que falei para preencher lacunas - e que nada disse que fizesse alguma diferença. No entanto, a despeito da desconfiança velada de que meu silêncio significava falta de opinião, e talvez até de forma meio irônica, fato é que as pessoas me consideravam "gente fina", no sentido de tranquilo, bacana. Mas não exatamente interessante. Era o tipo de cara bom para completar time em peladas, mas não para formar "time" em baladas. Talvez percebendo isso, talvez só incomodados com minha mudez, o povo do Colégio me aconselhava a falar mais, a expor minhas opiniões.

Lembro-me de ter feito isso uma vez. Foi em 1996, na 6ª série, durante uma sessão da S.O.E. (Serviço de Orientação Educacional). Sabe-se lá porque, as psicólogas da futura "Sessão Psicopedagógica" (e sabe-se lá que nome tem hoje) acharam interessante pedir para aquelas crianças de 12-13 anos de idade escreverem em um pedaço de papel uma pergunta no seguinte formato: "você tira o chapéu para 'insira aqui seu assunto polêmico' ?". Quando abri o papelzinho e li "virgindade antes do casamento", fui acometido por uma vontade quase incontrolável de sair correndo da sala. Lembro que as perguntas anteriores tinham sido sobre coisas bem mais simples, que eu me sentiria bem mais à vontade de responder. Por que o Neves tinha que escrever aquela pergunta e por que o papel acabou vindo parar na minha mão após o sorteio, são questões que talvez se encontrem além de qualquer conjectura. Só de ler a pergunta para a turma, sorrisos de excitação e olhos faiscantes se abriram à minha frente: o cara mais fechado do mundo ia dar sua opinião num assunto que envolvia uma coisa misteriosa chamada "sexo" e outra ainda mais misteriosa chamada "casamento". O Rafael de 12 anos de idade disse em alto e bom tom, para quem quisesse ouvir, que até achava bacana "se guardar" para alguém que considerava especial, mas que caso se sentisse confiante para perder a virgindade antes do casamento, que mal haveria? Cabelos se arrepiaram, um autêntico urro de satisfação e incredulidade ecoou por toda a sala. Quem apostaria que aquele garoto caladão - numa época em que ser assim era meio démodée - simplesmente ia dizer, nas entrelinhas, que o casamento (subentendido como uma cerimônia oficial, geradora de um papel em que vem escritas as palavras "certidão de casamento") era uma prova que o amor verdadeiro torna desnecessária? Não me coloquei contra o casamento, no entanto. Acho a cerimônia muito bonita, mas não é - ou não deveria ser - ela que aumenta ou diminui o amor que uma pessoa sente por outra. Só bem depois é que percebi que minha sincera opinião era, por coincidência, justamente o que a turma dos descolados queria ouvir. A psicóloga me lançou um olhar esquisito enquanto eu ria da vibração da turma. Decidi ser mais prudente e conservador ao expor minhas opiniões. Mantive a boca fechada pelos cinco anos seguintes.

Nos tempos de graduação, fui me soltando aos poucos. De toda forma, continuei com a imagem do sujeito caladão, até misterioso. Mas é que aí comecei a adotar uma tática levemente diferente. Comecei a tentar conversar sem falar e ouvir sem escutar - a ideia de perturbar o som do silêncio nunca me agradou muito. O resultado foi desastroso. A dita "percepção feminina" deu mostras seguidas de não passar de uma lenda. Em certo sentido, posso mesmo dizer que meus amigos homens me compreendiam melhor que as minhas amigas.

Já no doutorado, decidi mudar de tática novamente. Comecei a falar, mas não a me explicar. Queria ver se as pessoas faziam como eu e tentavam ver cada situação sob todos os ângulos possíveis antes de formar uma opinião. Não fazem. Ou melhor: poucas fazem. Muito poucas mesmo. O resultado foi catastrófico: as pessoas passaram a formar opiniões quase maldosas de minha pessoa. Boa parte disso se deve, é claro, a estratégia que usei para expor minhas opiniões. Mas acabou-se por formar um maldito rótulo, que levou a preconceitos, desconfianças e conclusões precipitadas - além de revelar orgulhos insuspeitos. Eu podia ter a melhor das intenções que era visto como esnobe e coisas ainda menos nobres.

Estimulado a falar, o sempre quieto e bem quisto Rafael se transformou num desagradável orador. As pessoas reclamavam de eu não falar. E agora reclamavam de como eu falava! A meu ver, aquilo era querer demais. Era como ser "preso por ter cão" e "preso por não ter cão". Ou de forma ainda mais precisa, a situação me lembrava o mito do nó górdio: Alexandre da Macedônia resolveu o intratável problema do nó que ninguém conseguia desatar com o nada convencional expediente de parti-lo ao meio com sua espada.

Enquanto torrava os miolos pensando num meio de desatar o bendito nó que me era apresentado, uma estranha solução preparava sua aparição. Sorrateira, a doença que corroeu meus dias de 2005 a 2007 voltava: o silêncio crescia como um câncer... E agora, à mera menção de um problema tratável, mas potencialmente doloroso, tudo se ajusta novamente. No hay banda!

domingo, 15 de março de 2009

"Who watchs the Watchmen?"

"À meia-noite, os agentes e super-humanos saem
pra prender todos que sabem mais do que eles"
(Bob Dylan, Desolation Row)

No último dia 6, chegou aos cinemas a adaptação da graphic novel tida como a obra-prima do roteirista Alan Moore: Watchmen. A despeito do fato de que aguardava ansiosamente o lançamento desde outubro do ano passado, pus-me a pensar: como tem aparecido filmes baseados em quadrinhos ultimamente! Três filmes do Homem Aranha, dois do Batman (sem contar os quatro "antigos"), dois do Quarteto Fantástico (com direito ao Surfista Prateado pegando uma onda no segundo), um "revival" do Superman, Homem de Ferro, três X-Men e vindo um contando a origem do Wolverine... Nesse meio, como imaginação pouca é bobagem, o Hulk veio parar em plena Favela da Rocinha com direito ao FBI subindo o morro - inveja do BOPE? Claro que isso não podia dar certo: o verdão "Dr. Jekyll and Mr. Hyde" moderno conseguiu a façanha de, duma cena pra outra, saltar do Rio de Janeiro direto pra Guatemala! Não fosse uma tremenda burrada, seria tão genial quanto o famoso corte de Kubrick em 2001: Uma Odisseia no Espaço! Mas o que me chamava a atenção é que eu, em minha quase total ignorância do universo (ou, em alguns casos, multiverso) das HQ, já tinha ouvido falar em praticamente todos esses citados aí em cima. Watchmen, junto com Constantine, A Liga Extraordinária, V de Vingança, Sin City e 300, entra num outro grupo: os menos conhecidos. Ou melhor: conhecidos pelos "iniciados", pelos frequentadores de lojas especializadas.

Quando criança, me deleitava com os gibis da Turma da Mônica e Duck Tales. Na adolescência, escolhi não partir para as óbvias HQ de super-heróis ao recusar solenemente o conselho do jornaleiro para comprar "A Morte do Superman". Então, aceitei que meus heróis ou morreriam de overdose, ou seriam ganhadores do Nobel. Um cara que se veste como morcego? Outro que usa a cueca por cima da calça? Eles não fariam parte da minha vida. Seriam apenas um capítulo vago, uma visão distante. Mas eis que, de repente, surge uma oportunidade de "tirar o atraso": depois de anos de conversa, finalmente ia sair um filme do Homem Aranha... Beleza! Pra que ler aquele montão de revistinhas? Se esse filme desse certo, lançariam mais um monte de filmes de super-herói. E aí, Saga do Clone, A Piada Mortal, Crise nas Infinitas Terras, Marvel vs DC, hã? Fui ao cinema feliz da vida: toda a adolescência que eu teria passado em cima daquelas revistinhas ia ser comprimida em duas horas de ação hollywoodiana!

Só que eu não contava com um detalhe. Meu futuro reservava uma amizade com uma pessoa "do outro lado", alguém que adora HQ, mangás, animê etc: a Fernanda. Depois de não conseguirmos ir ver Homem de Ferro juntos, fomos a'O Incrível Hulk e Batman - O Cavaleiro das Trevas. O escorregão bizarro do Hulk acabou com qualquer chance de uma análise séria do filme. Mas o que me chamava a atenção era a análise que Fernanda fez do Cavaleiro das Trevas: sabe a aclamadíssima atuação de Heath Ledger? Fez muito o gosto dela não... "Funcionou dentro do filme", disse ela, da mesma forma como eu tinha achado que a de Jack Nicholson tinha funcionado no filme de Tim Burton. "É porque você não leu A Piada Mortal. Aí você ia entender o Coringa...". Percebendo o vazio que era meu suposto conhecimento sobre super-heróis, ela decidiu me emprestar um verdadeiro tesouro: todos os doze capítulos da série Watchmen - que, até então, eu simplesmente nem tinha ouvido falar! Li a graphic novel, achei-a brilhante em roteiro e desenho (melhor que muito livro!), mas não sabia que o filme estava sendo preparado. Ela já. E assim, no último dia 12, fui ao cinema para, pela primeira vez, ver um filme de super-herói com conhecimento da história original. Faltou a Fernanda ir junto... Mas isso até teve um lado interessante: não me concentrando tanto no filme, olhei para as pessoas.

E foi aí que eu entendi porque tinha gostado dos outros filmes desse tipo que já tinha visto. Porque quem vai assistir aos filmes de super-herói não é só quem já leu as histórias, mas principalmente quem nunca as leu. É por isso que acontecem mudanças que, muitas vezes, os fãs de HQ consideram imperdoáveis. Às vezes, como no caso de Watchmen, a mudança cria buracos no roteiro e prejudica o filme - a meu ver, o filme não é autocontido, o que eu acho primordial em qualquer obra cinematográfica. Em outros casos, a saída é diferente: trabalhar não a história, mas o personagem, como foi muito bem feito em Homem Aranha 2. O problema é que quem não leu as histórias originais não se dá conta disso. E sai do cinema achando que sabe tanto quanto o "esquisitão" que as lê há anos... Daí, quando pessoas desses dois "mundos" se encontram para discutir o filme, às vezes acontece uma situação parecida com a sugerida pelo Coringa de Heath Ledger: o encontro de uma força que não pode ser parada com um objeto que não pode ser movido. Alguém que usa argumentos de autoridade e alguém que usa argumentos como autoridade... Problema? Bem, se quem já conhecia as histórias assumir que a mera transposição dos quadrinhos para as telas não seria tão interessante quanto algo novo, um problema resolvido. E se quem não conhecia as histórias originais se animar a conhecê-las, então tudo bem. Bom senso, humildade e...

Cada macaco no seu galho
Chô, chuá
Eu não me canso de falar
Chô, chuá
O meu galho é na Bahia
Chô, chuá
O seu é em outro lugar...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Educação Má

Não fiz Licenciatura em Química apenas como salvaguarda para o caso de não conseguir algo interessante com o Bacharelado - coisa que muita gente fez. Porque desde o dia em que Fábio e Márcio me flagraram com um giz na mão "dando aula" em uma das salas do ICE (isso em dezembro de 2002, pouco antes do recesso/férias, eu estava estudando com colegas da turma de Laboratório de Inorgânica I), comecei a cogitar a possibilidade de exercer aquele ofício profissionalmente. Nunca tive, é verdade, a intenção de dar aulas para Ensino Médio, nunca tive paciência com bebês, crianças e adolescentes. No entanto, sempre considerei a falta de didática de vários professores do curso de Química da UFJF um dos pontos chave para a explicação do desempenho dos alunos nas avaliações das diversas disciplinas - e por fim, no ENADE. Por isso, para ser um professor melhor que aqueles com quem tive contato, decidi mergulhar de cabeça nas disciplinas da Licenciatura - foi uma decepção. Na teoria, o behaviorismo é horrível; na prática, é, talvez, o único que funciona! Em tempo: no Brasil.

Sempre me perguntei por que uma teoria tão batida, tão criticada, ainda era amplamente aplicada nas salas de aula brasileiras. A resposta era aquela que explica porque as coisas duram: "porque funciona". Mas... por que funciona? Numa sociedade consciente, uma abordagem puramente comportamental, que coloca alunos em posição semelhante a ratinhos que aceitam levar choques em troca de comida, deveria gerar grande indignação, repúdio - vide o clipe de "The Happiest Days Of Our Lives+Another Brick In The Wall - Part II" e/ou Laranja Mecânica. Tudo, menos funcionar!

A razão de funcionar é porque o Brasil sofre, desde sempre, de um enorme problema educacional. Não, o problema não está só nas escolas! Ele vem de dentro das casas, da educação que os pais dão aos filhos, da educação que a sociedade dá a seus membros. Funciona porque aprendemos desde cedo que a casca é mais importante que a polpa, que o comportamento é mais importante que o ser em si. Não é só um problema de má educação, mas de educação má, que valoriza o errado, o mal, o mau. Nessas condições, nem sei dizer o que aconteceu com a noção de civilidade: se foi a tal ponto deturpada, se nunca chegou a existir de fato, ou se só nunca foi interessante colocá-la em prática.

Lembro-me de um acontecimento do final de 2008. Resolvemos fazer a confraternização de final de ano na área de recreação do prédio de nosso orientador. O churrasco foi caminhando de tal forma que ninguém sentiu falta de música; sem ela, conversávamos mais e melhor. Por volta das quatro da tarde, a churrasqueira ao lado começou a ser ocupada. Os playboys de lá deram uma boa olhada para os nerds de cá e devem ter achado que o clima do nosso grupo estava pesadíssimo. Devem ter pensado que qualquer música iria alegrar o ambiente, que seria quase utilidade pública quebrar o "silêncio". Não demorou cinco minutos para nos levantarmos e irmos embora. O nosso churrasco já estava no final mesmo... O que nos "expulsou" de lá? Diria que nem foi a música (Asa de Águia no último volume), mas a falta de educação e empatia dos brasileiríssimos vizinhos.

De lá para cá, já consegui perceber os efeitos da educação maligna que impera nessas paragens dezenas de vezes, de taxistas cariocas a professores universiotários. E é por isso que gostaria de fechar o texto com uma frase que não é minha, mas que adoraria ter dito: "o pior do Brasil é o brasileiro".


*: Paula Espósito é co-autora deste texto.

domingo, 18 de janeiro de 2009

O doce veneno do... silogismo!

Segundo a Wikipedia, silogismo (do grego antigo, "conexão de ideias", "raciocínio") é um termo filosófico com o qual Aristóteles designou a argumentação lógica perfeita, constituída de três proposições declarativas que se conectam de tal modo que a partir das duas primeiras, chamadas premissas, é possível deduzir uma conclusão. Um exemplo clássico de silogismo é o seguinte:

Todo homem é mortal.
Sócrates é um homem.
Logo, Sócrates é mortal.

Quando Aristóteles apresentou a teoria do silogismo, já tinha previsto que, como a conclusão é claramente dependente das premissas, a coisa tinha vocação para boas piadas. Por isso, tratou logo de delimitar oito regras para que o silogismo seja válido. Uma delas é que "de duas premissas particulares, nada se conclui". Não observando as regras do silogismo (basta seguir o link e ter alguma paciência para ler boa parte do artigo), podemos chegar a conclusões visivelmente absurdas - e ocasionalmente engraçadas. Por exemplo:

O amor é cego.
Deus é amor.
Logo, Deus é cego.

Tomando essa conclusão como premissa de um novo silogismo:

Deus é cego.
Stevie Wonder é cego.
Logo, Stevie Wonder é Deus.

Em outras palavras, partindo-se de premissas inválidas pode-se concluir qualquer coisa. Mas, em geral, a conclusão será um equívoco. Por outro lado, se de duas observações particulares não pudesse surgir uma regra universal, não haveria ciência... Esse é o princípio da indução, também obra do criador do pensamento lógico - mas deixemos isso para uma outra oportunidade.

Milhares de anos depois das ideias de Aristóteles serem divulgadas, acessei, por influência de um amigo, um site que achei muito interessante: o Akinator, o Gênio da Internet. Esse sim é um silogismo melhor até que o agregado José Dias! A proposta do "gênio" é "adivinhar" em que pessoa você está pensando por meio de, no máximo, vinte perguntas. Pode até ser que o personagem no qual você esteja pensando nem exista de verdade. E o "cara" é bom: quando o personagem é famoso, coloca até a foto do sujeito! Algumas de suas vitórias sobre mim: Erwin Schrödinger (físico austríaco, um dos pais da Mecânica Quântica), Rubens Barrichello (a última pergunta foi: "o seu personagem fica sempre em 2º plano?"), Paris Hilton (bastaram 12 perguntas), Mark Knopfler (ex-"dono" do Dire Straits, famoso por seus solos de guitarra e suas roupas "limbo da moda"), Irineu Evangelista de Sousa (visconde de Mauá, provavelmente o maior empresário que o Brasil já conheceu), ninguém (respondi "não" para quase todas as perguntas), Honoré de Balzac (escritor francês, autor de A Comédia Humana), Bruna Surfistinha (não é a toa que este texto tem esse título...), Dodi (personagem de "A Favorita") e o que me deixou mais abismado: Carlos Alberto Bejani (com foto e tudo!). O segredo para vencê-lo é pensar em pessoas ou personagens pouco conhecidos. Por exemplo: ele quase sempre erra quando a personagem em questão é Hilda de Polaris (personagem da série Os Cavaleiros do Zodíaco) e praticamente desconhece Georgia "George" Lass, personagem principal do (extinto e bem pouco conhecido) seriado Dead Like Me - A morte lhe cai bem. A falha acontece porque o Akinator se baseia num enorme banco de dados. Ele faz uma comparação entre as suas respostas (formadoras de suas premissas) e as respostas que seriam esperadas para aquela pergunta. Tolera até uns três erros. E o que é pior para ele: ainda não sabe que resposta esperar para algumas perguntas. Por exemplo, no caso da Georgia Lass, ele errou porque ainda não constava em seu banco de dados a resposta para a pergunta "seu personagem tem pernas?". Com uma ou outra resposta diferente do esperado e algumas indecisões, ele não consegue levantar as premissas necessárias para descobrir seu personagem, leva o jogo até a vigésima pergunta e arrisca a pessoa que melhor se enquadrou naquele conjunto de características. Achei o site bem interessante. Bom para perder alguns minutos...

Ah, não adianta pensar em seus familiares, amigos, professores ou pessoas desconhecidas da mídia - ele acerta do mesmo jeito!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Dura lex, sed lex

"Quem quer casar com a Dona Baratinha,
que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?"

Em tempos de 13º salário, compras de Natal e crise econômica mundial, achei que cabia um texto sobre economia. Mas coisa simples.

Toda a Matemática que se precisa saber para lidar com bancos é: juros. Ou seja, porcentagem. Juro é o dinheiro que se cobra para emprestar dinheiro. Isso quer dizer, basicamente, que se você emprestar dinheiro a alguém à juros, receberá de volta todo o dinheiro emprestado mais os juros. Enfim, uma das lições mais importantes na vida é quando a mãe fala para o filho lavar as mãos toda vez que pega em dinheiro, pois este circula na mão de muita gente. Sim, dinheiro é coisa que troca de mão com enorme facilidade. Os juros são os responsáveis pela acumulação.

Se não houvesse juros - mas todo mundo pagasse as dívidas -, o sistema seria filantrópico. Mas como banco não é instituição de caridade, a tendência é fazer o fluxo de dinheiro sair dos correntistas para o banco. Para tanto, o que se faz é oferecer uma melhor segurança para guardar o dinheiro das pessoas comuns. Sim, isso é bom. Mesmo se levando em conta o fato de que agora a posse do dinheiro é do banco e ele não só pode como vai usá-lo em suas próprias operações, deixar dinheiro no banco vale a pena. Mas se você deixar o dinheiro na conta corrente, é virtualmente como deixá-lo embaixo do colchão - com a diferença que você ainda paga as despesas de manutenção da conta. Uma opção é deixá-lo na poupança. É claro que, para isso, você precisa ter um excedente - poupança é aquele dinheiro no qual você não vai ficar mexendo toda hora. Isso é porque, no fundo, são as contas poupança que garantem liquidez aos bancos, são o que atestam que eles têm dinheiro. Em outras palavras, deixar dinheiro na poupança é como emprestá-lo ao banco. Por isso, o banco te paga juros sobre ele. Funciona sempre assim: quem empresta o dinheiro, recebe os juros.

E assim, esse texto fica muito simples. Tudo o que se precisa fazer é analisar quem está emprestando o dinheiro e qual é a taxa de juros. Na poupança, você empresta o dinheiro. No cheque especial, você é que pega o empréstimo. Por isso, a primeira dica é: fuja do cheque especial. Não é só pelo fato de ter juros, mas principalmente porque a taxa de juros dele é sempre muito alta - algo em torno de 8% ao mês, se não me engano. Parece-me que existem pouquíssimos cenários em que compensa pegar dinheiro do cheque especial. Todos eles obviamente ligados a investimentos com rentabilidade maior que a taxa de juros do cheque especial - enfim, coisas que não fazem parte do cotidiano de um correntista comum. No entanto, discutirei brevemente um desses cenários no próximo parágrafo: as ações. Por enquanto, basta saber que o cheque especial deve ser encarado como terreno proibido: o valor R$0,00 da conta corrente pode ser comparado a uma cerca eletrificada - com areia movediça do outro lado.

Ultimamente, o mercado de ações não tem atraído muito os investidores por causa da crise econômica mundial. Porém, antes disso, certamente era uma maravilha pensar que, comprando ações que se valorizem com o tempo, se conseguiria mais dinheiro do que se tivesse investido o mesmo valor na caderneta de poupança. A diferença é o risco. A poupança é uma tartaruga, mas é garantida pelo governo. As ações são lebres que podem "se cansar", desvalorizar. O interessante nesse mercado é comprar ações a baixo custo e vendê-las a alto preço: o famoso "comprar na baixa e vender na alta". Ou então, comprar ações e "esquecer" que as comprou para receber dividendos por ocasião do balanço, fazendo assim uma caderneta de ações. Tudo depende do seu estilo. Particularmente, não por conta da atual crise, acho Bolsa de Valores uma coisa perigosa para a saúde. Toma tempo ficar investigando que ações estão subindo ou caindo e tomar decisões de compra e venda. E a susceptibilidade a crises pode levar a desesperos que não acontecem na poupança - a não ser que a economia do país comece a caminhar tão mal que, de repente, a Miriam Leitão comece a falar a palavra confisco.

Outra fonte muito comum de sumiço de dinheiro é o cartão de crédito. Embora, como explicado, seja fato que deve-se "gastar dinheiro para fazer dinheiro", o cartão de crédito pode vir a ser um risco. Porque crédito é um dinheiro que você ainda não tem, que ainda não é seu. Logo, você deve pagar por ele. E assim, todo mês aparece a pior coisa relacionada ao cartão de crédito: a fatura. É nela que surge a tentação: a cobrança mínima. Porque imagine que você está com dificuldades para pagar a fatura do cartão: não é tentador poder pagar apenas 10% do valor total e já impedir que seu nome vá parar no SPC e/ou Serasa? A princípio, sim. O problema é que o serviço não é filantrópico. Assim, deixar de pagar alguma coisa equivale a pedir emprestado exatamente aquela quantia. Essa quantia fica acumulada para o mês seguinte e lhe serão acrescidos juros. Ou seja: quanto menos você pagar da fatura do cartão neste mês, mais dinheiro perderá no mês seguinte. Via de regra, os juros do cartão de crédito nunca são tais que se torne interessante encará-los. Portanto, é importante ter dinheiro para quitar a fatura. Por isso, é conveniente que você escolha o dia do vencimento da fatura de forma que este seja próximo ao dia do seu pagamento - dia 9 é um ótimo dia. Só não digo que é aconselhável deixar a fatura em débito automático porque sempre há o risco de, com isso, entrar no cheque especial - e isso seria trocar um problema por outro. Porém, aí é uma situação que vale a pena analisar: qual dos dois tem a taxa de juros mais baixa? Se não há como fugir da dívida, ao menos deva somente a quem cobra a menor taxa de juros. Neste caso, segundo me informou uma amiga que estava estudando o assunto, sai mais em conta dever ao cheque especial - me parece que a taxa de juros mais baixa em cartão de crédito é de 14% ao mês.

Por fim, gostaria de, rapidamente, enunciar três "leis" que resumem tudo que falei aqui, que são um guia para quem deseja levar uma vida tranquila no tocante a dinheiro. Como diz meu orientador, "As Três Leis de Carlinhos" (o ex-orientador dele se chama Carlos Eduardo):

1ª lei: escolha bem com quem você vai se casar. Não precisa ser pessoa rica, mas alguém que também tem vontade de crescer, alguém que também queira trabalhar. Essa é a "lei" mais importante. Pois mais importante que trilhar o caminho é escolher quem vai te acompanhar nesse caminho.

2ª lei: tem que sobrar dinheiro no final do mês; não mês no final do dinheiro. Resumo da economia doméstica. Como fazer isso pode ser um desafio maior ou menor dependendo da personalidade de cada um. Mas, em geral, um bom jeito de ter controle sobre as contas é definir as prioridades. Tudo aquilo que puder se reverter em lucro para você, não é gasto; é investimento. Gasto mesmo é aquele dinheiro que você nunca vai conseguir recuperar. Aluguel, por exemplo, é investimento: se você não tem onde morar, vai ficar difícil conseguir um monte de coisas... Cursos de línguas (principalmente inglês, que já está absolutamente fundamental) e plano de saúde também. Se você não investe nessas coisas, um monte de portas te são fechadas. Todo tipo de diversão é, em essência, um gasto. Logo, só comece a gastar dinheiro depois que tiver cuidado de todos os investimentos. Em tempo: nenhum país do G8 fala espanhol, logo não invente um curso de espanhol "porque é fácil". Só faça se houver a possibilidade gritante de se mudar para a Espanha, porque se não for para lá, é preferível fazer francês, italiano ou alemão e tentar alguma coisa em algum outro país da Europa. Mandarim também é muito bacana, a China vai dominar o mundo, mas você não vai para lá - a lotação daquele país já está esgotada.

3ª lei: tente guardar 20% de tudo o que você ganha. Dá até para colocar isso como um dos investimentos acima. Independente de você ter uma caderneta de ações, aplique esses 20% num fundo de baixo risco, como a poupança. Garanta moradia, alimentação e educação, depois esses 20%. Aí gaste. Diversão também deve fazer parte da vida - cheque especial é que não.

Em adição a essas "leis", podemos falar algo sobre "o sonho da casa própria". Como dito, moradia é fundamental. Logo, é natural pensar que a casa própria é melhor que aluguel. Nem sempre. É bem verdade que uma hora a casa própria se paga pelos aluguéis que você deixou de precisar pagar. Mas até lá, o caminho é longo. De fato, a casa própria só vem depois do cumprimento das "Três Leis de Carlinhos". É muito comum precisar de um financiamento para a compra da casa própria. Nessa hora, compare o IGP-M (controla o reajuste dos aluguéis) com a taxa de juros do empréstimo. Se a taxa de juros do financiamento for menor que o IGP-M (inclusive o previsto para o prazo de pagamento), vale a pena. Nessa situação, é como se você pagasse aluguel para você mesmo. De toda forma, procure reduzir ao máximo o valor do financiamento: é a hora de empregar a poupança...

Não faça "economia de palito". Não vale a pena ficar economizando em coisas pequenas e perder rios de dinheiro na hora de comprar um carro ou uma casa.

sábado, 22 de novembro de 2008

Timetwister

Eu estou em 22 de novembro de 1983. É uma terça-feira, são dez para as cinco da tarde e venta forte na cidade. Um choro de criança corta o ar: garotos também choram.
Eu estou em 24 de fevereiro de 2002. Acabo de encontrar o valor 89/63 como resposta da segunda questão da prova de Matemática do PISM III. São dez horas da manhã e faz calor. Entrego a prova, a fiscal sorri para mim e vou-me embora com uma grande interrogação a me torturar.
Eu estou em algum dia de março de 2009. O rosto de todas as pessoas na sala de cinema fica azul pela fluorescência inventada do Dr. Manhattan. Poucos conseguem ver o tempo da mesma forma.
Eu estou em 1990. Caniggia faz o gol que elimina o Brasil da Copa. A Seleção não era tão boa assim, mas tenho apenas sete anos e não compreendo isso. Desgosto do futebol.
Eu estou em 2000. Num júri simulado, defendo Capitu. Lanço sombras sobre todas as evidências da acusação e reflito que o Direito é, na verdade, sinistro. Descubro-me perdidamente apaixonado pela Verdade.
Eu estou em 1984. Minha primeira experiência com eletricidade: sabe-se lá como, tiro a capinha da tomada e... Bem, meu primeiro contato com elétrons livres é chocante.
Eu estou em 1995, num dia qualquer. Desembarco do Xangai para um Colégio coberto por densa neblina.
Eu estou em 20 de dezembro de 2005. Acabo de ler, pela primeira vez, O Pequeno Príncipe. Corro ao computador e anoto várias passagens em um documento.
Eu estou em 1986. Rolo pelas escadas da casa nova. Paro no último degrau, que é mais largo. Aprendo que toda escada começa no primeiro degrau.
Eu estou em 28 de fevereiro de 2008. São cinco da tarde e meu orientador de mestrado lê a ata da sessão de arguição de minha Dissertação. Sinto-me mais leve ao ouvir as palavras "concluindo pela aprovação".
Eu estou em novembro de 1994. Mergulho na piscina de um hotel fazenda. O doce de leite depois do almoço adquire sabor transcendental.
Eu estou em 18 de agosto de 2000. Ao sair do teatro, decido que os acontecimentos daquela noite não poderiam ser esquecidos. Inicio um diário.
Eu estou em 1993. Aprendo que as pessoas não gostam de apelidos.
Eu estou em fevereiro de 1988. Sentado nos ombros de meu pai, descubro que carnaval é uma palhaçada.
Eu estou em 1º de março de 2006. Estudo Química Orgânica para a prova do mestrado. Nisso descubro que carnaval não é palhaçada.
Eu estou em dezembro de 1993. Assisto ao São Paulo ser campeão mundial pela segunda vez. Redescubro o futebol.
Eu estou em 5 de julho de 2007. Um profundo céu azul brilha atrás do vidro translúcido da única janela do quartinho verde onde estava. Sinto-me feliz por perceber o tempo de maneira desordenada.
Eu estou em 23 de maio de 2002. Patrícia e eu vamos ao cinema ver Homem-Aranha. Surge uma amizade enigmática, mutante e simbiótica.
Eu estou em 1998. Monto um grupo de estudos com dois dos melhores seres humanos que já conheci. São os irmãos que escolhi.
Eu estou em outubro de 2010. O relógio do Parque Halfeld marca 19:00hs. Ao meu lado, rostos conhecidos que não via há muito tempo. Alguns mudaram mais que outros.
Eu estou em 13 de dezembro de 2002. Jogo boliche pela primeira vez. Apaixono-me pelo som do strike (a jogada, não a banda) e vejo o esporte como uma terapia.
Eu estou em 1985. Mamãe me coloca sobre uma cadeira posicionada contra a janela da rua para ver os "meninos grandes" jogarem bola. O jogo acaba quando começa a chover.
Eu estou em 22 de dezembro de 2003. Com O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel, surge o "Cine Alameda VI".
Eu estou em 4 de junho de 1993. Pelo telefone, às nove e meia da noite, recebo a notícia de que tenho um irmão de sangue: seu nome é Lucas.
Eu estou em 22 de novembro de 2008. Estou postando este texto em meu blog. Esta é minha história.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Riddikulus!

*: espero, com este texto, desrespeitar apenas as novas regras gramaticais da Língua Portuguesa.

Escrevo este texto para as pessoas de Juiz de Fora (e aquelas que a vêem como sua casa) que, por uma ou outra razão, não tiveram oportunidade de acompanhar o 1º turno das eleições municipais.

Alguns textos atrás, previ um desastre eleitoral. Felizmente, errei. Contudo, não tão fortemente quanto gostaria. Mas até que isso teve suas compensações tragicômicas...

Depois da saudosa Operação Pasárgada (mais uma operação devastadora e de nome maneiro da Polícia Federal) o não-saudoso ex-prefeito ex-radialista sempre-polêmico Alberto Bejani acabou renunciando e - convenientemente - abrindo mão de concorrer ao cargo de prefeito dessa querida cidade. Isso foi o que aconteceu de melhor.

Mas embora Bejani - famoso por suas campanhas risíveis e incrivelmente bem-sucedidas - não tenha participado do processo, o eleitor juizdeforano não ficou desamparado no quesito "risadas". Entre os candidatos a vereador, tivemos gente quase-literalmente chorando a não-aprovação no "vestibular eleitoral" de quatro anos atrás ("Me ajude! Me ajude! Me ajude!" - detalhe: dessa vez, FOI ELEITO!), sambinhas ("Agora é... Mamão... quinze-meia-dois-zero, o candidato que eu quero... um amigo de bom coração"), "visões celestiais", "uhuhuh", sacudidas na cidade e outras piadas. Mas não consigo ver nada que encarne melhor o espírito tragicômico do processo eleitoral no Brasil que a propaganda do candidato Luiz Carlos Hort Frut. Único candidato de seu partido, mal se dava ao trabalho de falar sobre as suas propostas - usava o tempo para falar do programa de governo do candidato a prefeito que estava apoiando. Tudo bem que quase todo partido pede para o candidato a vereador, no final de sua fala, pedir um voto para o candidato a prefeito da coligação. Mas esse caso foi bizarro. Ficou entre o puxa-saquismo e a inocência. Por quê? Porque o candidato a prefeito em questão foi aquele que praticamente substituiu Bejani na questão da campanha risível com propostas absurdas: Omar Peres. "Sou pobre mas não sou burro! Só trabalho com o que faz bem para a saúde: verduras, frutas... E na câmara não serei diferente. Estarei junto com Omar..." etc.

Acho que agora, passada a eleição, podemos dizer com convicção que a aventura política do dono da TV Panorama acabou. Ou pelo menos deveria acabar - no lugar dele, eu é que não me candidataria novamente. Embora Omar tenha acabado sendo punido por tentar difamar a imagem de outro candidato, seu maior crime foi outro: tentar repetir na "microestrutura" juizdeforana o que Silvio Berlusconi fez na "macroestrutura" italiana, ou seja, eleger-se. Seu castigo foi se tornar motivo de riso para a cidade inteira. Para quem não teve a oportunidade de estar em JF para tomar contato com as propostas "salomônicas" de Omar, enumero algumas. A primeira foi o Cartão Saúde. De maneira geral, parece que o tal cartão funcionaria como qualquer cartão de plano de saúde por aí. Com o detalhe de que as consultas e exames seriam pagos pela Prefeitura... De onde viria o dinheiro, ninguém sabe. Mais que isso: na necessidade de algum medicamento, haveria um convênio entre Prefeitura e Correios para que os mesmos fôssem entregues nas residências dos pacientes. Ainda na área de saúde, ele prometeu o Hospital da Zona Norte. Mas isso é até lugar-comum, pois todos os candidatos fizeram essa promessa - possivelmente, cada um tentando polarizar os votos de uns 25% do eleitorado. E a última promessa realmente "de vulto" feita por Omar foi o trem de superfície. A idéia parecia simples: voltar com o Xangai. "Só que mais moderno", como ele dizia logo antes de entrar a animação tosca de um trem-bala passando em frente ao Parque Halfeld. Juro que nem em meus sonhos mais absurdos isso já havia passado pela minha cabeça! A imagem era tão inusitada que, penso, se Salvador Dalí morasse em JF, ficaria com inveja! Para completar, após essa promessa, Omar disse que, enquanto o trem de superfície não se tornasse uma realidade, a MRS Logística (empresa proprietária da malha ferroviária que passa por Juiz de Fora) teria de compensar a cidade pelos transtornos causados por seus trens. E que isso seria feito cobrando pedágio de cada vagão que cruzasse a cidade. Com esse dinheiro, construiria casas populares - melhor teria sido dizer que financiaria o Cartão Saúde, mas isso é o de menos. Sinceramente, não sei quem Omar quis enganar com a história do pedágio do trem. É óbvio que a malha ferroviária não pertence ao município. Como ele pode querer cobrar pelo uso de algo que não lhe diz respeito? Se Omar alguma vez teve alguma chance nesse pleito, perdeu depois dessa proposta.

Que o trem é um transtorno, isso é verdade. Qualquer um que tem de passar pela rua Benjamim Constant por volta de uma da tarde sabe disso - tão bem quanto aqueles que passam pelo Mariano Procópio à uma e quinze. Proposta interessante para isso veio de Custódio: construir mergulhões e viadutos. Seria uma solução quase tão "salomônica" quanto as de Omar se não fosse pelo fato de Aécio Neves ter aparecido em pessoa na cidade (no alto de um palanque tucano) para dizer que há 43 milhões de reais prontinhos para serem investidos nessas obras - recursos do Governo Estadual. Pessoalmente, acho a notícia ótima! Não me consta que Custódio, como deputado federal, já tenha conseguido verba tão vultosa assim de uma vez. Mas como candidato a prefeito, tem feito um uso desta proposta que não vejo com bons olhos. A todo momento apelando para o fato de que Aécio é seu companheiro de partido, fala do dinheiro como um grande cheque-caução. Isso é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que escapa da inocência de Omar (mostrando a origem dos fundos), passa a impressão de que existe uma panelinha: o dinheiro existe, mas só virá para Juiz de Fora se Custódio vencer a eleição... Que cada um dê o nome que preferir a essa prática!

Tarcísio Delgado deu claros sinais de cansaço ao fazer uma campanha excessivamente emocional. "Eu amo Juiz de Fora" e afins. Além disso, cometeu um erro gravíssimo: pôs em dúvida a capacidade de "novatos" governarem uma cidade como Juiz de Fora. Foi como comer uma banana, jogar a casca no chão e pisar em cima. Tarcísio não esqueceu que um dia também já foi um "novato" como prefeito - embora tenha cuidadosamente omitido que, naquela época, Margarida Salomão fazia parte de sua equipe de governo. O erro maior de Tarcísio foi levar o tema para o debate final, na TV Panorama. Lá, na primeira rodada de temas livres, perguntou a Custódio o que ele achava do "reducionismo" que tinha roubado a cena na campanha. Evidentemente, Tarcísio tinha em mira os slogans de Margarida ("a fila tem que andar"), Omar ("chega de ex, agora é 43") e Rafael Pimenta ("pimenta neles"). Custódio se juntou a Tarcísio como se fizessem parte de uma sociedade secreta. Na réplica, Tarcísio disse que nunca ninguém conseguiu levantar qualquer motivo realmente forte para que ele não voltasse a ser prefeito, que os adversários diziam que ele não podia ser prefeito "porque já tinha sido prefeito" - o que era, como ele mesmo disse, uma atitude "irracional". Na rodada de tema livre seguinte, Margarida fez uma pergunta extremamente capciosa a Omar: perguntou-lhe se a experiência de empresário o credenciaria para ser prefeito. Omar, é claro, disse que "sim" (quase agradeceu a pergunta!) e desfraldou boa parte de seus feitos passados. Margarida, então, concluiu que "toda experiência é válida" e que "tão irracional quanto dizer que alguém não pode ser prefeito por já ter sido prefeito, é dizer que alguém não pode ser prefeito por nunca ter sido prefeito antes". Tarcísio segurou lágrimas de sangue durante o resto do debate. Acabou derrotado nas urnas. No segundo turno, seu filho, Júlio Delgado, conhecido desafeto do PT de Margarida, apoiou Custódio. O PMDB, no entanto, apoiou Margarida. Tarcísio, na última semana de campanha, seguiu o partido e declarou apoio a Margarida - retirou-se da política de forma elegante, afinal.

Rafael Pimenta (do PCB) fez uma campanha discreta. Fez muito menos vista que Victor Pontes, candidato do PSTU. Este, do alto de seus 21 anos de idade, mostrou um talento nato com palavras. Não foram poucas as pessoas que me disseram que apenas não votaram nele por causa do partido - o que certamente é um perigo, sendo ele um sujeito tão jovem.

Segundo turno: Margarida e Custódio. Lula - até então se mantendo afastado por seu enorme respeito a Tarcísio - entra na campanha de Margarida. A opinião das pessoas com quem tenho conversado sobre o assunto é de que Custódio tem baixado muito o nível da campanha. Eu digo, então, que ele se tornou um "bicho papão". E contra "bichos papões", façamos como o Harry Potter: na cara dele, digamos riddikulus!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Momentos

"Lembro-me de levantar certa manhã ao amanhecer. Havia tamanha sensação de possibilidade, sabe essa sensação? Eu me lembro de ter pensado: Este é o início da felicidade. É aqui que começa. E, sem dúvida, sempre haverá mais. Nunca me ocorreu que não era o começo. Era felicidade. Era o momento. Naquele exato momento."
(
As Horas)


Há algum tempo, tenho esbarrado nessa passagem. O filme é bom, o livro que lhe deu origem é super-premiado, há zilhares de passagens memoráveis e tal. Mas essa daí em especial... Na voz de Clarissa Vaughan (personagem de Maryl Streep) assumiu um tom de axioma: felicidade é isso e pronto. No entanto, por mais bela e reconfortante que seja, nunca me senti perfeitamente à vontade com ela. E para explicar a razão disso, peço licença para parafrasear o trecho acima:

Eu me lembro de uma noite em que Fábio, Janaína e eu resolvemos lanchar na esquina da Santo Antônio com a Rei Alberto. A limonada suíça veio terrivelmente amarga. Sabe quando a limonada passa do ponto? E lembro que Fábio e Janaína reclamaram do refresco, pediram mais açúcar e até água para o diluírem. Eu estava conformado. Janaína, então, disse que minha postura era felicidade. Não era o momento, mas o conjunto. A felicidade, afinal, era algo sereno, constante.

Essa foi a primeira vez que pensei na felicidade dessa forma. A outra vez foi em uma conversa que tive com meu orientador de doutorado... Estava ele, basicamente, reclamando da não-constância na velocidade com que meus resultados aparecem. Segundo ele, isso passa a impressão de que há momentos em que eu trabalho mais e momentos em que eu diminuo o ritmo. Cansaço? Sim... Mas poderia ser um certo "marasmo" também, despreocupação. Até seria justificado pelo que passei ano passado. O que realmente, admito, gera uma sensação daquilo que chamo felicidade. "Essas coisas pequenas... Esses probleminhas que não farão grande diferença se forem resolvidos ou não... Nada disso me importa. Só me importo com aquilo que realmente ameaça meu objetivo de vida".

Um momento, por favor, porque apareceram várias palavras-chave no trechinho acima: diferença, importa, objetivo e vida. Tenho escutado, com freqüência, pessoas dizendo coisas como "eu nasci para ser feliz". Não sei se é porque, mesmo sem me considerar religioso, sempre levei o Eclesiastes muito a sério, mas jamais ousei dizer coisa semelhante. Conceitos de felicidade existem aos montes. Cada ser humano mais ou menos "define" suas condições para a felicidade. O que acho muito curioso é que nunca encontrei alguém que se considerasse feliz! Não sabemos o que queremos? Ou será que a felicidade não é mesmo desse mundo?

Entendo a felicidade como um estado de espírito no qual há perfeita harmonia entre o ser humano e o meio que o cerca. Mais uma vez, o problema é o tempo. Se a nossa vida durasse um período de tempo tal que não nos fôsse possível experimentar um infortúnio, um revés, uma tristeza, talvez chegássemos a ser felizes. Como isso não é coisa que se verifique cotidianamente, jamais somos felizes. O nosso riso é, antes, um momento de alegria - essa, sim, a palavra. A vida é, então, constituída de momentos de alegria e tristeza; jamais de felicidade. Felicidade não é um momento!

A princípio, uma solução trivial para viver na felicidade poderia ser pensada como uma seqüência ininterrupta de momentos de alegria. O resultado dificilmente passaria de um filme do tipo Curtindo a Vida Adoidado, algo bem Sessão da Tarde. A pessoa vive um dia de satisfação e depois amarga o famoso comentário: "teve bom". Apenas uma recordação...

Haveria, então, uma solução para essa busca pela felicidade? Bem, desde que querer nunca é poder (se você quer e pode, você faz/tem; se só fica querendo, é porque não pode fazer/ter), acho que não... Mas há, ao menos, uma boa receita para se viver bem, num estado de serenidade quase-perene que eu, particularmente, acho muito bacana. A receita é conhecida da humanidade desde o século IV a.C.: "O sábio procura a ausência da dor, e não o prazer" (Aristóteles). É bacana porque as alegrias não apenas aparecem naturalmente no caminho (sem serem o objeto da busca!) como ainda tendem a ser mais duradouras. E só metade da felicidade, mas já faz um bem...

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Produto do meio

"I don't want to be a product of my environment. I want my environment to be a product of me"

Assim começa Os Infiltrados, um dos melhores filmes de Martin Scorsese. O que Frank Costello (personagem de Jack Nicholson) não sabia era o efeito filosófico arrebatador que a frase teria em mim!

Já perdi a conta das vezes em que ouvi alguém falar que "o homem é produto do meio em que vive". E até ver Os Infiltrados pela primeira vez, nunca tinha questionado isso. Tudo bem: o filme também não questiona! A intenção é meramente mostrar poder e tal... Mas o mais interessante não é o poder; é a inversão dos papéis. Costello queria que o meio em que ele vivia fosse produto seu, de sua personalidade, de suas opiniões, de seus desígnios. E incutido nesse desejo do gângster, apareceu o erro fundamental do "produto do meio": o homem não é produto do meio; mas uma média do meio.

Oh!, meu Deus! Mais um texto chato do Rafael, à base de uma estatística maluca que só ele entende porque só existe na cabeça dele! Não. Realmente não resisti a fazer a ressalva da média, mas o tema de hoje é a inversão de papéis. E nada de matemática!

Bem, a idéia básica de "o homem como produto do meio" é que o meio modifica o homem. Óbvio, mas precisava ser dito. A proposta de Costello é fazer o contrário: o homem modificar o meio. É uma proposta ambiciosa, pois pode chegar a ser até perigoso existir um homem com poder de modificar um meio - quem já viu Cidadão Kane? Quem não viu pode tomar uma boa base pelo que certa emissora faz com a opinião pública de certo país... "Santa ironia, Batman!" "Oops, I did it again..."

Depois de uns dez minutos de filme pausado logo após as "first lines", cheguei a uma conclusão: evolução existe. Acontece de uma maneira muito, muito peculiar. Funciona assim: no começo, existia o Meio e a Vida como coisas distintas. E até hoje são coisas distintas, mas não tão independentes quanto na Criação. A Vida teve de se adaptar ao Meio Físico para se tornar viável. E as espécies foram evoluindo em busca de uma melhor adaptabilidade ao Meio por milênios - Charles Darwin e sua "seleção natural" explicam isso maravilhosamente bem. Até aí, é sempre o Meio que manda na história. Em algum momento da evolução, surgiu um ser capaz de transformar essa via de mão-única numa via de mão-dupla: o tal do ser humano... Quando eu estava na 1ª série do Ensino Fundamental, meu livro de Estudos Sociais dizia que "o homem modifica o meio". Pronto. Taí. Alguém disse. O homem pode modificar o Meio. Mas isso é só a princípio, porque, na prática, modificar o meio ambiente se tornou uma coisa tão corriqueira para o ser humano que, hoje em dia, é difícil fazer alguma coisa que não o modifique.

Mas o ser humano vai além! Sendo, na essência, um ser social, ele naturalmente modifica seu Meio Social. E isso não dá pra evitar! O muito que Os Infiltrados fez foi colocar uma frase de efeito no começo, porque a idéia de "poder supremo" para influir e modificar o Meio, isso todo ser humano tem como conseqüência do fato de existir. É sério: mesmo que você não faça nada (o que é impossível), o simples fato de você existir e não ser completamente isolado do mundo já modifica o meio em que você vive! As outras pessoas te julgam e isso as modifica. E como as opiniões das pessoas modificam o Meio Social, dá até pra inverter o paradigma: o meio é produto do homem!

Mas calma aí! Ainda não acabou. É fato que as opiniões difundidas no meio em que um homem está inserido o modificam. O homem é produto do meio e o meio é produto do homem, portanto. Que paradoxo! Não, não: é só o âmago do processo evolutivo. Que é um processo cíclico e dinâmico. O meio modifica os homens. Os homens reagem e modificam o meio. O meio modificado, por sua vez, modifica os homens... E assim se cria um ciclo. Talvez seja isso que Franz Kafka quis dizer em O Processo... Estaríamos convergindo para algum ponto? Não sei. A resposta dessa pergunta é literalmente uma questão de crença. Sei apenas que as modificações, de parte a parte, acontecem tão rápido que não nos damos conta de todas.

E sei de mais uma coisa também. A capacidade do ser humano de modificar o meio está atrelada a algo que lhe é característico: a consciência. É ela que nos define como humanos. É ela que controla nossos atos, que molda nossa personalidade. E assim, por mais que o meio nos modifique, sempre conservaremos algo essencialmente nosso, próprio, único, conceitual, diferencial, distintivo. Contudo, esse "algo próprio" não é imutável. A diferença é que somente a própria pessoa pode mudá-lo. Para tanto, é preciso conhecer-se e ter a consciência de que se é mutável e mutante. E é somente aí que se tem, de fato, o tal do livre-arbítrio. E com isso, compreende-se que ele só vem ao preço de uma grande responsabilidade. Mas isso é outra história...

Olha, até que, só por essa reflexão, posso dar uma nota 9,0 pr' Os Infiltrados!

domingo, 27 de julho de 2008

Explicando "Lei de Murphy"

Quando escrevi o texto Lei de Murphy, tinha uma intenção: fazer (mais uma) piada sobre a Lei de Murphy. E escrevi apostando que qualquer pessoa, já na primeira leitura, entenderia minha intenção. Evidentemente, havia a possibilidade (hehe) de que algum romântico/carente/apaixonado não entendesse e me atacasse com paus, pedras e, dependendo do estilo da pessoa, flores.

É para os meus queridos leitores que não entenderam minha intenção (ou minha piada) que escrevo este texto: a explicação da mesma. Farei isso através da mensagem que uma amiga me mandou ao lê-lo. Disse ela:

" Esse texto é seu né..... espero mto que vc viva um desastre probabilístico, que ainda te tire do eixo e te faça ver a contradição.... e te faça escrever exatamente o oposto do que disseste... Porque..... a grande magia da coisa está exatamente aí.... todos podem definí-lo, mas ninguem o definiu melhor até hj do q como sua própria contradição..... Desejo, que vc tenha a quem amar.... e qdo estiver bem cansado.... ainda exista amor pra recomeçar....."

Bem, a primeira frase me fez lembrar da razão fundamental pela qual a Lei de Murphy é tida como a perseguidora implacável das 283.545 pessoas participantes da comunidade homônima no orkut: a gente sempre tende a lembrar mais dos momentos que consideramos ruins para nós, aqueles em que nos sentimos ridículos ou coisa assim. Pois bem: eu, como todo mundo, já paguei um baita mico. Foi em 2001, em um horário de almoço no Colégio Militar. Estávamos na sala: eu, Fábio Fortes, Márcio Maffili, Juliana e alguém mais. De repente, Juliana catou um toco de giz e começou a escrever versos no quadro negro. No final, apareceu um soneto. Não colocou título nem nada - só o soneto mesmo. E eu, que, naquela época, também arriscava uns versos e estava até recebendo alguns elogios da profª de literatura (a "Tixa", para quem se lembra), arrisquei uma de crítico literário. E como crítico raramente diz alguma coisa que presta, logo fulminei dois versos: "esses aqui são vazios". Juliana deixou que fizesse minhas críticas, mas depois, com um sorriso malicioso, desenhou um parêntese abaixo do soneto e escreveu "Vinícius de Morais"... Logo ficaria sabendo que aquele soneto que tinha tomado como sendo dela era, na verdade, o Soneto do Amor Total, um dos melhores sonetos de Vinícius de Morais... Daquele dia em diante, nunca mais me atrevi a falar nada sobre qualquer coisa cuja origem eu desconhecesse. E jamais criticar algo que não pudesse fazer melhor. Daí a estranheza que a frase "esse texto é seu né..." me causou: então, se não fosse meu, minha amiga não diria nada?

Embora reconheça que, de longe, a frase que mais chama a atenção em Lei de Murphy é "o amor é um desastre probabilístico", esta não é a frase fundamental do texto - esta é só a piada. A frase fundamental é: "É somente à luz das probabilidades que o amor adquire seu significado sublime", bem no começo do parágrafo da análise. A idéia era mostrar que o amor verdadeiro é uma coisa rara, difícil de ser encontrada - e até por isso, digna de admiração. Como mostrei no decorrer do último parágrafo, os números não favorecem o encontro dos amantes - no fundo, há muito mais modos de um relacionamento dar errado do que dar certo! E é essa a maravilha do amor: ele é uma catástrofe para as probabilidades. Se eu tivesse que apostar se um relacionamento qualquer daria certo ou errado, à luz das probabilidades, logicamente apostaria que daria errado. A maravilha é quando, apesar dos números "jogarem contra", o relacionamento dá certo! Ao se dar conta disso, você provavelmente pára, olha para a pessoa amada, reflete que nunca houve, não há e jamais haverá outra como ela, dá o maior valor a ela e aos momentos que já passaram juntos e, provavelmente, lhe chapa um beijo na boca muito mais consciente da sorte que deu. É nesse momento - em que a razão finalmente dá as caras e não consegue causar destruição - que o amor fica completo.

Mas, afinal, o que é o amor? Pediram-me uma definição. Todo mundo já tentou e ninguém conseguiu definí-lo de forma satisfatória. São tantas as suas facetas que muita coisa acaba podendo ser chamada de amor. Confesso que, certa vez, tentando definir essa coisa indefinível, pensei que a humanidade tinha "convencionado" não saber definir o que é amor simplesmente para poder dizer que muita coisa o é... Definição de amor? Gosto da de Machado de Assis: "a melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada...". Assim como também tenho a maior estima pela que, anos atrás, fiz em pleno auge de uma paixão:

O Amor não é definível. O Amor é calor, é calafrio, é admiração, é medo, é insegurança, é timidez, é dúvida, é atrapalho, é vontade, é receio. Amor não se define, se sente. E se sabe quando se sente. "Ninguém lhe diz que está apaixonado, mas você sabe que está". Então, estar apaixonado deve ser algo como uma crença: eu acredito que estou apaixonado e pronto. Eu me convenço que amo alguém. O Amor preexiste ao Amor. Nunca nos damos conta do momento em que começamos a amar. É um momento tão sublime que desligamos do mundo, esquecemos do tempo e queremos simplesmente ver, ouvir, cheirar, tocar, falar... pensar não! Somente depois, relembrando o bom momento, pensamos e nos damos conta, por força do hábito, de que nos apaixonamos. O Amor é construção.

Convenhamos que só alguém que estava vivendo um "desastre probabilístico" de "tirar do eixo" poderia escrever uma coisa dessas! É óbvio que, nesse contexto, o correto seria definir o amor como um "milagre probabilístico", mas aí não tinha piada... A conta ia ser exatamente a mesma, mas ninguém ia abrir um sorrisinho sequer...

Moça-que-me-mandou-a-mensagem: lembre-se de Oswald de Andrade:


Amor

humor

terça-feira, 22 de julho de 2008

Lei de Murphy

Outro dia, estava vendo o episódio piloto do seriado Dead Like Me - A morte lhe cai bem e me deparei com uma passagem muito interessante, em perfeita harmonia com o que estava pensando desde que acordei. A personagem principal, Georgia, fazia uma reflexão: "A vida me ensinou que interesse gera expectativa, e que expectativa gera decepção. Então a chave para evitar a decepção é evitar o interesse. A é igual a B, que é igual a C, que é igual a A, sei lá... Também não tenho interesse em ser uma pessoa boa ou má. Pelo que eu vejo, de qualquer jeito, você está ferrado. As pessoas más são punidas pela Lei da sociedade (cena de um ladrão sendo fuzilado pela polícia). E as pessoas boas (cena de uma mulher caindo da cerca onde tinha subido para tirar um gato da árvore) são punidas pela Lei de Murphy".

Momentos antes, estava pensando em algo que achei curioso. A Teoria da Relatividade tem seus limites de validade. A Física Quântica também. Não são completamente compatíveis uma com a outra. Existem situações que devem ser tratadas sob o ponto de vista relativístico e existem situações que devem ser tratadas sob o ponto de vista quântico. O que se sabe é que nenhuma das duas descreve a natureza perfeitamente. Chega uma hora em que não dá mais para aceitar uma delas e deve-se partir para a outra. Bem, o ponto é: são teorias extremamente abrangentes, mas nem de longe são incontestáveis. Coisa que a Lei de Murphy parece ser... E talvez esse seja seu aspecto mais sinistro: pior que as máximas "se existe a possibilidade de algo dar errado, dará" e "nada está tão ruim que não possa ser piorado" é a noção de que isso vale sempre, independente das peculiaridades da situação, da casca de banana no chão às balas "perdidas" nas favelas cariocas.

A Lei de Murphy é, essencialmente, uma lei probabilística. Ou melhor: é a Lei das Probabilidades. É ela que determina a probabilidade de um evento ocorrer ou não. E como a natureza se comporta dessa forma - ponto comum entre Relatividade e Quântica - é, no fundo, a Lei de Murphy que melhor a descreve. As piadas relacionadas decorrem do egocentrismo humano. Infortúnios cotidianos normalmente atribuídos à ação nefasta da Lei de Murphy são facilmente explicados quando observados do ponto de vista das probabilidades. "Ah, entrei na fila lenta no supermercado". Bem, quantas filas existem em um supermercado? Normalmente, várias. E somente uma pode ser a mais rápida. Logo, todas as outras são, comparativamente, filas lentas... Azar mesmo seria entrar na fila mais lenta! Mas é claro que só um cego vai achar que a fila rápida será aquela em que o típico "tiozão do churrasco" - aquele senhor de cabelos grisalhos, com uns "quilinhos" a mais extremamente mal-distribuídos, que, especialmente às vésperas de feriado, enche o carrinho de picanha, cerveja e demais apetrechos para churrasco; e "x" vezes em dez, para a compra com várias notas de R$10,00, frutos óbvios do rateio dos custos com vários amigos, todos quase tão folclóricos quanto ele próprio - segue o jovem pai-de-família fazendo as compras do mês com a esposa e o filho pequeno.

Mas se o problema fosse apenas essas situações que a Matemática tão gentilmente estampa nos exercícios de seus livros ("se um hotel tem três portas de entrada e dois elevadores, de quantas formas diferentes um hóspede pode chegar a seu quarto?"), nem estaria tão ruim assim. O problema é que a Lei de Murphy consegue o quase impossível: atribuir números para coisas que, normalmente, não são quantificadas. Tomemos, por exemplo, o amor.

É somente à luz das probabilidades que o amor adquire seu significado sublime. Para começo de análise, deve-se focar em um indivíduo qualquer. Esse perfeito fulano tem seus gostos próprios, suas preferências. Assim, é natural que se sinta atraído por determinado tipo de pessoa. Ora: assim como ele, as outras pessoas também têm seus gostos. Há uma probabilidade - e apenas isso - de que, entre as pessoas que atraem nosso fulano, exista uma beltrana que se sente atraída pelo tipo de pessoa que ele é. Calcular isso é, a priori, muito simples: o universo é o conjunto das pessoas pelas quais ele se sente atraído e o numerador é o número de indivíduos desse conjunto que se sentem atraídas pelo tipo de pessoa que o fulano é. O problema, é claro, é saber o numerador e o denominador. Por dois motivos. Primeiro porque, para não usar nenhuma aproximação, o conjunto universo do problema deve contemplar todo e qualquer ser humano que reúne as características pré-definidas como atrativas ao nosso fulano - sim, a menos que você tenha algo contra as asiáticas, a China é um problema. Isso pode ser solucionado assumindo que, para efeitos práticos, pode-se simplesmente fazer uma amostragem séria - e não tendenciosa, como as pesquisas eleitorais divulgadas por alguns periódicos de qualidade duvidosa... O segundo problema é conhecer suficientemente bem os indivíduos da amostragem para saber que tipo de pessoa os atrai. Além disso tudo, há ainda o patente problema de duas pessoas com esses gostos em comum encontrarem um ao outro, se conhecerem melhor e não descobrirem nada que considerem repugnante no outro. Então, as probabilidades do problema são três: primeiro, a probabilidade de encontrar um ser humano que atraia o nosso fulano; depois, a probabilidade de, entre os seres humanos pelos quais ele se sente atraído, existir um que se sinta atraído por ele; e por fim, a probabilidade de esses dois sujeitos se encontrarem e etc. Como os eventos são dependentes um do outro, a probabilidade total é o produto das probabilidades individuais. Ou seja: encontrar o "amor da sua vida" é quase como ter a Lei de Murphy agindo sobre si mesma, provocando um desastre em suas próprias probabilidades. Meu Deus: o amor é um desastre probabilístico! É mais fácil topar com um raio que com sua alma-gêmea! "Jogue suas mãos para o céu/ Agradeça se acaso tiver/ Alguém que você gostaria que/ Estivesse sempre com você/ Na rua, na chuva, na fazenda/ Ou numa casinha de sapê"!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Síndromes curiosas

Há alguns anos, li no blog da Paulinha um interessante texto sobre o que ela chamou de Síndrome Nacional do "Menos Pior". Talvez seja a aproximação de uma nova eleição, ou o pressentimento de um novo desastre eleitoral, ou simplesmente um desejo irriquieto do meu gúliver, não sei, mas deu vontade de escrever sobre síndromes curiosas que acometem o ser humano e, em particular, os brasileiros.

  • Síndrome do segundo lugar

A melhor hora para se evidenciar essa síndrome é durante a apuração do desfile das escolas de samba.
Escola de samba é que nem time de futebol: tem torcida. Mas nem todo mundo torce para alguma escola em especial... Assim, quando a apuração vai ao ar na Quarta-Feira de Cinzas, um monte de gente liga casualmente a TV e desencadeia aquilo que chamo de síndrome do segundo lugar. Na indiferença sobre qual escola deve ganhar o carnaval, parece que tendemos a criar um enredo próprio para a apuração. A história do evento passa a ser mais importante que seu resultado. Queremos que ela seja a mais emocionante possível. E quem não se empolga diante da possibilidade de uma virada na classificação? Isso nos leva a "torcer" pela escola que, naquele momento, está em segundo lugar. É só pelo prazer de ver uma reviravolta, choro e ranger de dentes naqueles rostos que ainda há pouco cantavam vitória. Afinal de contas, pimenta, nos olhos dos outros, é colírio! Não se cria nenhuma simpatia pela escola "escolhida" e nem se dará alguma importância ao resultado depois, não importando qual seja.
Também é possível perceber tal síndrome em corridas de Fórmula 1 e praticamente qualquer outra disputa insossa que passe na TV em sábados, domingos e feriados.


  • Síndrome da festa infantil
É a síndrome que acomete a política brasileira. No Brasil, há três tipos de políticos: os que gostam de pizza, os que gostam de bolo e os que gostam de refrigerante. A associação é, respectivamente: governistas, oposição e resto. O curioso é que embora as pessoas e os partidos variem com o tempo, as posturas não. A oposição sempre vai fazer mil denúncias sobre pessoas ligadas ao governo, criando um "bolo" - curioso como é difícil ver o contrário... O governo, por sua vez, sempre vai querer defender sua própria imagem e levar o caso para a famosa "pizza". Nesse bolo, sempre há uma tendência ao exagero no fermento, com a instauração de CPIs e convocações de ministros da base governista. Se alguém cair, é vitória. E no meio dessa história, há aqueles que nunca são governistas e estão sempre dispostos a criar alguma efervecência em nome da ética: a turma do "refrigerante", que, hoje em dia, tem sua representação mais expressiva no PSOL. Sim, isso foi uma ironia: tanto governo quanto oposição desprezam a turma do refri. A criança mesmo não é importante - só a festa. E neste país em que se trabalha duro para que nada seja feito, reina uma democracia gorda, preguiçosa e desajeitada.


  • Síndrome do Salmo 91
Essa vale só para o Presidente da República e só quando a Globo gosta do sujeito: "mil cairão a tua esquerda e dez mil a tua direita, mas tu não serás atingido". Curioso é que a proporção é mais ou menos essa mesma... Lula tem demonstrado bem isso: divide um "mar vermelho" e é mais atingido nas peladinhas na Granja do Torto que na cena política.


Por hora, é isso. Se alguém souber ou detectar mais alguma síndrome curiosa, por favor, me comunique!

terça-feira, 8 de abril de 2008

O almoço

Há certas coisas que mudam a gente. Naquela manhã, acordei diferente e me comportei como de costume. Levantei, tomei um banho, desci as escadas, tomei o desjejum, voltei ao meu quarto e troquei de roupa. Até aí, tudo mecânico. Foi na hora de calçar o tênis que as mudanças começaram a se manisfestar. Olhei para a calça verde levemente desbotada (de propósito) e decidi que não usaria o tênis de sempre. Peguei emprestado o All-Star de meu pai: sim, meu pai tem um! E o clássico ainda por cima, preto! Camisa preta com detalhes verdes, um sujeito "fashion", só faltando óculos escuros e Sweet Child O' Mine nos fones de ouvido, lá fui eu pra universidade.

Na hora do almoço, indo para o RU, me vi diante de uma cena vivida dois anos e meio atrás. O mundo não era mais o mesmo porque eu, para variar, sabia o que não devia: os mistérios da vida e da morte. Novamente eu sabia que alguém tinha morrido. Dessa vez, porém, não era surpresa. Da outra vez, tinha sido absolutamente chocante constatar o fato porque nem de longe o esperava. Depois, acabou parecendo plausível... Como o de agora. Ninguém ligado à universidade, dessa vez. O nome dele é Felipe. Mas antes fosse aquele Felipe de alguns textos atrás. Esse é de carne e osso. Carne, osso e sangue. O ser cuja existência parecia ter como único propósito me dar um puxão-de-orelha. Rafael, é feio criar um alter-ego. As pessoas não aceitam bem isso... Deus o moldou à perfeição, como Lhe é peculiar. Começou pelo nome. Depois, o resto. Felipe tinha exatamente a mesma doença que eu. Tratava com a mesma médica, inclusive. Os pormenores do caso diferem muito pouco para serem apreciáveis. Como o Felipe detetive, convenientemente quatro anos mais velho, também... Em uma das consultas de controle, minha médica comentou sobre ele e pediu que minha mãe e eu "déssemos uma força" a ele. Fui à casa dele. Quando ele veio atender a porta, quase caí duro: Felipe era um homem! Tinha corpo, falava, andava, pensava... Felipe vivia! Quero dizer: o Felipe que eu criei! Estava ali, parado na minha frente, sem tirar nem pôr, e passando pelo mesmo problema que eu - com o mero atraso de alguns meses. Era como se a parte de mim a que chamo "Felipe" tivesse saído do meu corpo como um vapor, se condensado e virado outro ser humano. Obviamente, ao que pude constatar durante a conversa, a personalidade do personagem e do homem eram completamente diferentes. Enquanto um esbanjava uma auto-confiança até irritante (a famosa "marra"), o outro segurava a tensão como uma pessoa com Mal de Parkinson segura um copo d'água. Naquele momento, soube que Felipe tinha uma postura potencialmente perigosa para quem ia se submeter a um transplante de medula óssea. Duas semanas depois de sua internação, ele veio a falecer. Já tinha passado a fase da quimioterapia e até o transplante em si. Mas o perigo é constante naquele tratamento: mesmo uma semana depois, os quimioterápicos ainda estão lá, ativos e perigosos. Na verdade, eles ficam agindo por alguns meses, mas é melhor nem falar disso... Resultado: o coração de Felipe não agüentou.

Como da outra vez, minha tristeza fazia os sorrisos alheios parecerem insultos. Novamente pensei no jejum de carne. Entrei no RU. Havia outras quatro pessoas comigo e me sentia sozinho. Felipe não me saía da cabeça: como era possível? Um rapaz aparentemente tão forte... Seria assim tão decisivo o fator psicológico? Eu custava a acreditar...

Coloquei a bandeja sobre a mesa e me sentei. O mundo sumiu e apenas vi meu prato. Temperei a carne com pimenta vermelha e ataquei-a como um canibal. Quando por mim rezaram e me salvaram, quando alguém foi embora (mas não) para sempre, ou percebi o que de melhor me restava, ou quando soube que essa era a única forma de não morrer eu como. Não sou ainda esta potência, esta construção, esta ruína. Puxo o prato, aceito a carne e seu sangue.*

*: recomendo a leitura do conto "O jantar", de Clarice Lispector.

terça-feira, 11 de março de 2008

Leaving Neverland

Certa tarde eu estava no terraço de casa e vi uma pipa voando. O sol estava se pondo atrás de um morro em sua eterna rotina. A pipa era de um vermelho vivo feito sangue arterial e riscava o céu avermelhado de inverno em improváveis acrobacias. Olhei em volta: ninguém à vista. Nem em casa, nem em qualquer lugar das redondezas. Permiti-me deitar no chão e ficar observando a pipa.
Pensei na magia por trás daquele objeto tão simples e - paradoxalmente - tão complexo. Durante todo o período que, até então, tinha chamado de infância, nunca tive muita vontade de soltar pipa. Afinal de contas, que graça há? Foi somente aí, ao me fazer, pela primeira vez, essa pergunta de forma explícita, que percebi o que havia de tão mágico em uma pipa. A graça não está em soltar, em empinar a pipa; mas em fazer a pipa. A escolha do papel, a armação das varetas, a colagem, a rabiola... Só as crianças sabem fazer pipas de verdade. Porque uma pipa é, antes de tudo, o mais perfeito retrato da alma da criança que a fez. Talvez tenha sido por isso que nunca consegui ver graça na brincadeira: nunca tinha sido eu mesmo que tinha feito a pipa. Mas isso, por si só, não explicava minha comoção.
Aquela pipa não estava solta. Amarrado nela havia um cordão, uma linha. E na outra extremidade daquela linha, havia, certamente, a mão de uma criança. Essa era a mágica! Embora não pudesse ver a criança, percebi a linha como um prolongamento de seu braço. E sendo a pipa o retrato de sua alma, aquilo era voar. Naquele momento eu atinei para a verdadeira graça de soltar pipa. Até então, pensava que somente a pipa se divertia, pois somente ela voava. Mas não! Fazer a pipa dançar no céu era soltar a própria alma, era liberdade! As improváveis piruetas que a pipa descrevia não eram nada senão a própria imagem das revoluções da alma da criança que a segurava do outro lado da linha. E pensei que nunca tinha sido criança realmente.
Depois daquele dia, vieram primaveras e bichos de goiaba. Ambos me mostraram que ainda tenho muito em que pensar. E que, por sorte, de algum modo, ainda conservava algo de essencialmente infantil em mim. Um certo prazer por coisas que ninguém mais entendia, por assim dizer. Ainda conseguia me surpreender com o mundo à minha volta. Por alguns instantes, conseguia mesmo deixar de ser sério. Talvez seja por isso que todos me julguem esse "quadradão", "nerd" e o que mais se queira. Porque pouca gente ainda tem os ouvidos necessários para ouvir as gargalhadas de minha alma.
Mas tudo isso mudou. Depois de minha defesa de mestrado, não tive um único dia inocente mais. Se antes eu dormia às duas da manhã e levantava correndo no dia seguinte, hoje durmo cedo para acordar cedo, para não me atrasar para meu compromisso com a rotina. Ser adulto é saber não-viver e ter a consciência de que não se vive.
Outro dia estive vendo um trecho de Peter Pan. Sempre foi minha história infantil favorita - uma das poucas coisas que me fazem acreditar que fui criança quando deveria ter sido. Depois, como não consegui ver o filme todo, apelei para a melhor aproximação que dispunha: Em Busca da Terra do Nunca. Bem, falando como crítico de cinema, chega até ser melhor ver o filme do Johnny Depp. Parece ter sido o único filme que, de fato, captou a quintessência da história. Quando crianças, não queremos dormir com medo de ficarmos velhos. Mas o tempo, implacável, nos persegue. E quando ficamos velhos e podemos ficar acordados até tarde, sentimos vontade de dormir, na esperança de voltarmos a ser crianças por um piscar de olhos que chamamos sonho...