terça-feira, 22 de julho de 2008

Lei de Murphy

Outro dia, estava vendo o episódio piloto do seriado Dead Like Me - A morte lhe cai bem e me deparei com uma passagem muito interessante, em perfeita harmonia com o que estava pensando desde que acordei. A personagem principal, Georgia, fazia uma reflexão: "A vida me ensinou que interesse gera expectativa, e que expectativa gera decepção. Então a chave para evitar a decepção é evitar o interesse. A é igual a B, que é igual a C, que é igual a A, sei lá... Também não tenho interesse em ser uma pessoa boa ou má. Pelo que eu vejo, de qualquer jeito, você está ferrado. As pessoas más são punidas pela Lei da sociedade (cena de um ladrão sendo fuzilado pela polícia). E as pessoas boas (cena de uma mulher caindo da cerca onde tinha subido para tirar um gato da árvore) são punidas pela Lei de Murphy".

Momentos antes, estava pensando em algo que achei curioso. A Teoria da Relatividade tem seus limites de validade. A Física Quântica também. Não são completamente compatíveis uma com a outra. Existem situações que devem ser tratadas sob o ponto de vista relativístico e existem situações que devem ser tratadas sob o ponto de vista quântico. O que se sabe é que nenhuma das duas descreve a natureza perfeitamente. Chega uma hora em que não dá mais para aceitar uma delas e deve-se partir para a outra. Bem, o ponto é: são teorias extremamente abrangentes, mas nem de longe são incontestáveis. Coisa que a Lei de Murphy parece ser... E talvez esse seja seu aspecto mais sinistro: pior que as máximas "se existe a possibilidade de algo dar errado, dará" e "nada está tão ruim que não possa ser piorado" é a noção de que isso vale sempre, independente das peculiaridades da situação, da casca de banana no chão às balas "perdidas" nas favelas cariocas.

A Lei de Murphy é, essencialmente, uma lei probabilística. Ou melhor: é a Lei das Probabilidades. É ela que determina a probabilidade de um evento ocorrer ou não. E como a natureza se comporta dessa forma - ponto comum entre Relatividade e Quântica - é, no fundo, a Lei de Murphy que melhor a descreve. As piadas relacionadas decorrem do egocentrismo humano. Infortúnios cotidianos normalmente atribuídos à ação nefasta da Lei de Murphy são facilmente explicados quando observados do ponto de vista das probabilidades. "Ah, entrei na fila lenta no supermercado". Bem, quantas filas existem em um supermercado? Normalmente, várias. E somente uma pode ser a mais rápida. Logo, todas as outras são, comparativamente, filas lentas... Azar mesmo seria entrar na fila mais lenta! Mas é claro que só um cego vai achar que a fila rápida será aquela em que o típico "tiozão do churrasco" - aquele senhor de cabelos grisalhos, com uns "quilinhos" a mais extremamente mal-distribuídos, que, especialmente às vésperas de feriado, enche o carrinho de picanha, cerveja e demais apetrechos para churrasco; e "x" vezes em dez, para a compra com várias notas de R$10,00, frutos óbvios do rateio dos custos com vários amigos, todos quase tão folclóricos quanto ele próprio - segue o jovem pai-de-família fazendo as compras do mês com a esposa e o filho pequeno.

Mas se o problema fosse apenas essas situações que a Matemática tão gentilmente estampa nos exercícios de seus livros ("se um hotel tem três portas de entrada e dois elevadores, de quantas formas diferentes um hóspede pode chegar a seu quarto?"), nem estaria tão ruim assim. O problema é que a Lei de Murphy consegue o quase impossível: atribuir números para coisas que, normalmente, não são quantificadas. Tomemos, por exemplo, o amor.

É somente à luz das probabilidades que o amor adquire seu significado sublime. Para começo de análise, deve-se focar em um indivíduo qualquer. Esse perfeito fulano tem seus gostos próprios, suas preferências. Assim, é natural que se sinta atraído por determinado tipo de pessoa. Ora: assim como ele, as outras pessoas também têm seus gostos. Há uma probabilidade - e apenas isso - de que, entre as pessoas que atraem nosso fulano, exista uma beltrana que se sente atraída pelo tipo de pessoa que ele é. Calcular isso é, a priori, muito simples: o universo é o conjunto das pessoas pelas quais ele se sente atraído e o numerador é o número de indivíduos desse conjunto que se sentem atraídas pelo tipo de pessoa que o fulano é. O problema, é claro, é saber o numerador e o denominador. Por dois motivos. Primeiro porque, para não usar nenhuma aproximação, o conjunto universo do problema deve contemplar todo e qualquer ser humano que reúne as características pré-definidas como atrativas ao nosso fulano - sim, a menos que você tenha algo contra as asiáticas, a China é um problema. Isso pode ser solucionado assumindo que, para efeitos práticos, pode-se simplesmente fazer uma amostragem séria - e não tendenciosa, como as pesquisas eleitorais divulgadas por alguns periódicos de qualidade duvidosa... O segundo problema é conhecer suficientemente bem os indivíduos da amostragem para saber que tipo de pessoa os atrai. Além disso tudo, há ainda o patente problema de duas pessoas com esses gostos em comum encontrarem um ao outro, se conhecerem melhor e não descobrirem nada que considerem repugnante no outro. Então, as probabilidades do problema são três: primeiro, a probabilidade de encontrar um ser humano que atraia o nosso fulano; depois, a probabilidade de, entre os seres humanos pelos quais ele se sente atraído, existir um que se sinta atraído por ele; e por fim, a probabilidade de esses dois sujeitos se encontrarem e etc. Como os eventos são dependentes um do outro, a probabilidade total é o produto das probabilidades individuais. Ou seja: encontrar o "amor da sua vida" é quase como ter a Lei de Murphy agindo sobre si mesma, provocando um desastre em suas próprias probabilidades. Meu Deus: o amor é um desastre probabilístico! É mais fácil topar com um raio que com sua alma-gêmea! "Jogue suas mãos para o céu/ Agradeça se acaso tiver/ Alguém que você gostaria que/ Estivesse sempre com você/ Na rua, na chuva, na fazenda/ Ou numa casinha de sapê"!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Síndromes curiosas

Há alguns anos, li no blog da Paulinha um interessante texto sobre o que ela chamou de Síndrome Nacional do "Menos Pior". Talvez seja a aproximação de uma nova eleição, ou o pressentimento de um novo desastre eleitoral, ou simplesmente um desejo irriquieto do meu gúliver, não sei, mas deu vontade de escrever sobre síndromes curiosas que acometem o ser humano e, em particular, os brasileiros.

  • Síndrome do segundo lugar

A melhor hora para se evidenciar essa síndrome é durante a apuração do desfile das escolas de samba.
Escola de samba é que nem time de futebol: tem torcida. Mas nem todo mundo torce para alguma escola em especial... Assim, quando a apuração vai ao ar na Quarta-Feira de Cinzas, um monte de gente liga casualmente a TV e desencadeia aquilo que chamo de síndrome do segundo lugar. Na indiferença sobre qual escola deve ganhar o carnaval, parece que tendemos a criar um enredo próprio para a apuração. A história do evento passa a ser mais importante que seu resultado. Queremos que ela seja a mais emocionante possível. E quem não se empolga diante da possibilidade de uma virada na classificação? Isso nos leva a "torcer" pela escola que, naquele momento, está em segundo lugar. É só pelo prazer de ver uma reviravolta, choro e ranger de dentes naqueles rostos que ainda há pouco cantavam vitória. Afinal de contas, pimenta, nos olhos dos outros, é colírio! Não se cria nenhuma simpatia pela escola "escolhida" e nem se dará alguma importância ao resultado depois, não importando qual seja.
Também é possível perceber tal síndrome em corridas de Fórmula 1 e praticamente qualquer outra disputa insossa que passe na TV em sábados, domingos e feriados.


  • Síndrome da festa infantil
É a síndrome que acomete a política brasileira. No Brasil, há três tipos de políticos: os que gostam de pizza, os que gostam de bolo e os que gostam de refrigerante. A associação é, respectivamente: governistas, oposição e resto. O curioso é que embora as pessoas e os partidos variem com o tempo, as posturas não. A oposição sempre vai fazer mil denúncias sobre pessoas ligadas ao governo, criando um "bolo" - curioso como é difícil ver o contrário... O governo, por sua vez, sempre vai querer defender sua própria imagem e levar o caso para a famosa "pizza". Nesse bolo, sempre há uma tendência ao exagero no fermento, com a instauração de CPIs e convocações de ministros da base governista. Se alguém cair, é vitória. E no meio dessa história, há aqueles que nunca são governistas e estão sempre dispostos a criar alguma efervecência em nome da ética: a turma do "refrigerante", que, hoje em dia, tem sua representação mais expressiva no PSOL. Sim, isso foi uma ironia: tanto governo quanto oposição desprezam a turma do refri. A criança mesmo não é importante - só a festa. E neste país em que se trabalha duro para que nada seja feito, reina uma democracia gorda, preguiçosa e desajeitada.


  • Síndrome do Salmo 91
Essa vale só para o Presidente da República e só quando a Globo gosta do sujeito: "mil cairão a tua esquerda e dez mil a tua direita, mas tu não serás atingido". Curioso é que a proporção é mais ou menos essa mesma... Lula tem demonstrado bem isso: divide um "mar vermelho" e é mais atingido nas peladinhas na Granja do Torto que na cena política.


Por hora, é isso. Se alguém souber ou detectar mais alguma síndrome curiosa, por favor, me comunique!

terça-feira, 8 de abril de 2008

O almoço

Há certas coisas que mudam a gente. Naquela manhã, acordei diferente e me comportei como de costume. Levantei, tomei um banho, desci as escadas, tomei o desjejum, voltei ao meu quarto e troquei de roupa. Até aí, tudo mecânico. Foi na hora de calçar o tênis que as mudanças começaram a se manisfestar. Olhei para a calça verde levemente desbotada (de propósito) e decidi que não usaria o tênis de sempre. Peguei emprestado o All-Star de meu pai: sim, meu pai tem um! E o clássico ainda por cima, preto! Camisa preta com detalhes verdes, um sujeito "fashion", só faltando óculos escuros e Sweet Child O' Mine nos fones de ouvido, lá fui eu pra universidade.

Na hora do almoço, indo para o RU, me vi diante de uma cena vivida dois anos e meio atrás. O mundo não era mais o mesmo porque eu, para variar, sabia o que não devia: os mistérios da vida e da morte. Novamente eu sabia que alguém tinha morrido. Dessa vez, porém, não era surpresa. Da outra vez, tinha sido absolutamente chocante constatar o fato porque nem de longe o esperava. Depois, acabou parecendo plausível... Como o de agora. Ninguém ligado à universidade, dessa vez. O nome dele é Felipe. Mas antes fosse aquele Felipe de alguns textos atrás. Esse é de carne e osso. Carne, osso e sangue. O ser cuja existência parecia ter como único propósito me dar um puxão-de-orelha. Rafael, é feio criar um alter-ego. As pessoas não aceitam bem isso... Deus o moldou à perfeição, como Lhe é peculiar. Começou pelo nome. Depois, o resto. Felipe tinha exatamente a mesma doença que eu. Tratava com a mesma médica, inclusive. Os pormenores do caso diferem muito pouco para serem apreciáveis. Como o Felipe detetive, convenientemente quatro anos mais velho, também... Em uma das consultas de controle, minha médica comentou sobre ele e pediu que minha mãe e eu "déssemos uma força" a ele. Fui à casa dele. Quando ele veio atender a porta, quase caí duro: Felipe era um homem! Tinha corpo, falava, andava, pensava... Felipe vivia! Quero dizer: o Felipe que eu criei! Estava ali, parado na minha frente, sem tirar nem pôr, e passando pelo mesmo problema que eu - com o mero atraso de alguns meses. Era como se a parte de mim a que chamo "Felipe" tivesse saído do meu corpo como um vapor, se condensado e virado outro ser humano. Obviamente, ao que pude constatar durante a conversa, a personalidade do personagem e do homem eram completamente diferentes. Enquanto um esbanjava uma auto-confiança até irritante (a famosa "marra"), o outro segurava a tensão como uma pessoa com Mal de Parkinson segura um copo d'água. Naquele momento, soube que Felipe tinha uma postura potencialmente perigosa para quem ia se submeter a um transplante de medula óssea. Duas semanas depois de sua internação, ele veio a falecer. Já tinha passado a fase da quimioterapia e até o transplante em si. Mas o perigo é constante naquele tratamento: mesmo uma semana depois, os quimioterápicos ainda estão lá, ativos e perigosos. Na verdade, eles ficam agindo por alguns meses, mas é melhor nem falar disso... Resultado: o coração de Felipe não agüentou.

Como da outra vez, minha tristeza fazia os sorrisos alheios parecerem insultos. Novamente pensei no jejum de carne. Entrei no RU. Havia outras quatro pessoas comigo e me sentia sozinho. Felipe não me saía da cabeça: como era possível? Um rapaz aparentemente tão forte... Seria assim tão decisivo o fator psicológico? Eu custava a acreditar...

Coloquei a bandeja sobre a mesa e me sentei. O mundo sumiu e apenas vi meu prato. Temperei a carne com pimenta vermelha e ataquei-a como um canibal. Quando por mim rezaram e me salvaram, quando alguém foi embora (mas não) para sempre, ou percebi o que de melhor me restava, ou quando soube que essa era a única forma de não morrer eu como. Não sou ainda esta potência, esta construção, esta ruína. Puxo o prato, aceito a carne e seu sangue.*

*: recomendo a leitura do conto "O jantar", de Clarice Lispector.

terça-feira, 11 de março de 2008

Leaving Neverland

Certa tarde eu estava no terraço de casa e vi uma pipa voando. O sol estava se pondo atrás de um morro em sua eterna rotina. A pipa era de um vermelho vivo feito sangue arterial e riscava o céu avermelhado de inverno em improváveis acrobacias. Olhei em volta: ninguém à vista. Nem em casa, nem em qualquer lugar das redondezas. Permiti-me deitar no chão e ficar observando a pipa.
Pensei na magia por trás daquele objeto tão simples e - paradoxalmente - tão complexo. Durante todo o período que, até então, tinha chamado de infância, nunca tive muita vontade de soltar pipa. Afinal de contas, que graça há? Foi somente aí, ao me fazer, pela primeira vez, essa pergunta de forma explícita, que percebi o que havia de tão mágico em uma pipa. A graça não está em soltar, em empinar a pipa; mas em fazer a pipa. A escolha do papel, a armação das varetas, a colagem, a rabiola... Só as crianças sabem fazer pipas de verdade. Porque uma pipa é, antes de tudo, o mais perfeito retrato da alma da criança que a fez. Talvez tenha sido por isso que nunca consegui ver graça na brincadeira: nunca tinha sido eu mesmo que tinha feito a pipa. Mas isso, por si só, não explicava minha comoção.
Aquela pipa não estava solta. Amarrado nela havia um cordão, uma linha. E na outra extremidade daquela linha, havia, certamente, a mão de uma criança. Essa era a mágica! Embora não pudesse ver a criança, percebi a linha como um prolongamento de seu braço. E sendo a pipa o retrato de sua alma, aquilo era voar. Naquele momento eu atinei para a verdadeira graça de soltar pipa. Até então, pensava que somente a pipa se divertia, pois somente ela voava. Mas não! Fazer a pipa dançar no céu era soltar a própria alma, era liberdade! As improváveis piruetas que a pipa descrevia não eram nada senão a própria imagem das revoluções da alma da criança que a segurava do outro lado da linha. E pensei que nunca tinha sido criança realmente.
Depois daquele dia, vieram primaveras e bichos de goiaba. Ambos me mostraram que ainda tenho muito em que pensar. E que, por sorte, de algum modo, ainda conservava algo de essencialmente infantil em mim. Um certo prazer por coisas que ninguém mais entendia, por assim dizer. Ainda conseguia me surpreender com o mundo à minha volta. Por alguns instantes, conseguia mesmo deixar de ser sério. Talvez seja por isso que todos me julguem esse "quadradão", "nerd" e o que mais se queira. Porque pouca gente ainda tem os ouvidos necessários para ouvir as gargalhadas de minha alma.
Mas tudo isso mudou. Depois de minha defesa de mestrado, não tive um único dia inocente mais. Se antes eu dormia às duas da manhã e levantava correndo no dia seguinte, hoje durmo cedo para acordar cedo, para não me atrasar para meu compromisso com a rotina. Ser adulto é saber não-viver e ter a consciência de que não se vive.
Outro dia estive vendo um trecho de Peter Pan. Sempre foi minha história infantil favorita - uma das poucas coisas que me fazem acreditar que fui criança quando deveria ter sido. Depois, como não consegui ver o filme todo, apelei para a melhor aproximação que dispunha: Em Busca da Terra do Nunca. Bem, falando como crítico de cinema, chega até ser melhor ver o filme do Johnny Depp. Parece ter sido o único filme que, de fato, captou a quintessência da história. Quando crianças, não queremos dormir com medo de ficarmos velhos. Mas o tempo, implacável, nos persegue. E quando ficamos velhos e podemos ficar acordados até tarde, sentimos vontade de dormir, na esperança de voltarmos a ser crianças por um piscar de olhos que chamamos sonho...

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

"Quem não cola..." (21/12/04)

Eu não sei se deveria escrever este texto. Talvez não seja uma boa idéia... Talvez ele só desperte o interesse de fiéis (proprietários ou não) da Igreja Universal. Em todo caso...
Ontem, tive prova de Mineralogia. A terrível Mineralogia! De longe, a pior disciplina do curso de Química. Não há como ter algo pior que Mineralogia! Não há como existir um professor que se pareça mais com uma múmia do que o Sebastião! Absolutamente não há.
O problema da Mineralogia é as provas. Não há como um ser humano normal fazer as provas do Sebastião da maneira como elas deveriam ser feitas. Tirar cem? - impossível! Por quê? Simples: o Sebastião é irredutível, o tipo de professor que pede a definição de um conceito e não aceita uma resposta que não seja exatamente igual àquela dada em aula, sem tirar nem pôr. O que deixa os alunos com apenas duas maneiras de ir bem na prova: decorar ou colar. Como colar não é lícito, o aluno é obrigado a decorar todos os conceitos - que são muitos. Além disso, é uma disciplina oferecida para o curso de Química, no qual os alunos aprendem a entender o conteúdo, não decorá-lo. É uma questão do método do professor não estar em acordo com a filosofia do curso. Então, como explicar as notas maravilhosas que vários alunos obtiveram em períodos anteriores?
Certa vez, durante uma das aulas depois da primeira prova, uma de minhas colegas de sala acabou, sem querer, se entregando quanto à cola. Vítima da perversidade? Sim, um claro exemplo. Poderia mesmo dizer que idêntico ao narrado por Edgar Allan Poe em seu conto "O demônio da perversidade". E ontem, várias pessoas foram vítimas da perversidade do Sebastião...
Começa a prova. Alguns conceitos, algumas coisas que deviam ser decoradas, alguns exercícios de cálculo (poucos e idênticos aos de uma das listas) e um monte de gente com cola preparada. Antes da prova, pedimos para que a mesma fosse de consulta - há relatos que o Sebastião já deu provas assim. Pedido negado... No entanto, estava mais do que claro que a intenção da turma era fazer uma prova de consulta - ainda que não oficialmente...
Comecei minha prova por um exercício de cálculo. Simples, mas nem tanto. Depois, passei a uma questão de conceitos: as definições de intemperismo, diagênese e metamorfismo. Tinha comentado com uma amiga, instantes antes do início da prova, que era bastante provável que tais conceitos fossem cobrados. E assim, anotei-os nas costas de minha calculadora - a lápis! Como a calculadora era escura, mal dava para eu ler o que estava escrito - além de ser facílimo apagar... Pois bem, tinha apenas essa questão inteira na cola. Por sinal, era a primeira - e única - vez em que estava usando cola na universidade! E somente estava fazendo isso porque, com a louca decisão da UFJF de acabar com a prova final, estava seriamente ameaçado de ser reprovado em tão "ridícula" disciplina - imagine: passar com 89 em Quântica e ser reprovado em Mineralogia! Justo eu, que repudio quem se usa de método tão pouco honesto, estava colando na prova... Não estava sendo eu mesmo.
Mas acontece que eu não sei colar. E assim, me sentei de frente para o professor, só que na segunda fileira. Seria facílimo ele levantar os olhos dos papéis sobre a mesa e me pegar olhando muito sugestivamente para o verso de minha calculadora, que não devia ter nada de interessante. Estava acabando de escrever o último conceito. Sebastião se levantou com cara de desconfiado. Andou pela turma e parou ao meu lado, de onde começou a olhar minha prova, sem sequer se dar ao trabalho de despistar. A calculadora, prova cabal de minha culpa, no meu colo, ainda virada de costas, com a cola voltada para mim. O Sebastião olhando... Comecei a, lentamente, abrir as pernas e deixar a calculadora escorregar por entre elas, na tentativa desesperada de esconder o verso incriminador. E então, subitamente incomodado, olhei para Sebastião. Encarei-o de baixo para cima. Ele perguntou se estava tudo bem. O que dizer? Respondi na afirmativa. Ele começou a andar pela turma. Terminei de escrever o último conceito e logo passei a outra questão de cálculo, usando a capa da calculadora para esconder o verso da mesma. Não tive coragem de tentar apagar o que estava escrito lá. Alguma coisa me dizia que os olhos de Sebastião agora estavam pregados em minhas costas, atentos a qualquer movimento suspeito meu. Tive a nítida impressão de que ele nunca tinha ido com a minha cara, desde o primeiro dia de aula. E então, Sebastião volta à frente da sala e diz que sabia que algumas pessoas estavam de posse de material não permitido para a realização da prova (ou seja, cola); diz que isso o obrigará a corrigir certas provas com mais rigor, caso tais pessoas não entregassem o material a ele. Senti que ele estava falando aquilo para mim. Logicamente, eu sabia que muitas outras pessoas estavam com cola. Mas pela primeira vez, a conhecida frase - agora dita pelo improvável Sebastião - também se aplicava a mim. Era uma sensação horrível. Senti-me sujo, com nojo de mim mesmo. E na mesma hora tive o ímpeto de entregar a calculadora. Mas então me lembrei que ainda tinha mais uma questão de cálculo para fazer e que precisava dela, ainda que não do verso. Mas estava decidido: eu confessaria minha culpa.
Momentos depois, a colega que já tinha "se entregado" da outra vez se levantou com alguns papéis na mão e, com um sorriso insano e desesperado no rosto, os entregou a Sebastião. Ela tinha se entregado. Seguindo o exemplo da amiga, outra colega aproveitou a deixa e fez a mesma coisa - entregando uma tira de papel tão fina e pequena que eu nunca teria visto. E Sebastião, ao receber os papéis, diz ameaçadoramente: "E ainda tem mais gente...". Tive a impressão de que ele poderia estar "jogando verde", mas eu sabia que ele sabia que eu estava com cola. E também sabia que mais pessoas estavam com cola - ele deveria saber disso também.
Continuei fazendo minha prova. Estava na última questão de cálculo. O então presidente do DA resolveu se confessar também: entregou um maço de folhas dobradas ao Sebastião, que mais uma vez reforçou a lição de moral.
Terminei a última questão de cálculo. Nada mais me impedia de entregar a calculadora. Mas não a entreguei... Larguei-a, com nojo e medo, na cadeira vazia a meu lado. O verso incriminador, evidentemente, virado para baixo, escondido. Vivi momentos terríveis a partir de então. Sim, eu soube como o personagem de Poe se sentiu... Senti uma incontrolável vontade de me acusar, de acabar com aquilo de uma vez. Mas então tive a impressão de que, apesar de tudo, estava em segurança - quem sabe o Sebastião, no fim das contas, não tinha visto nada e tinha sido um mero acaso ele ter parado ao meu lado? Metade de mim achava que tinha sido um acaso, e a outra metade levantava provas e mais provas de que não tinha sido mero acaso. E assim, fui fazendo a prova. Pouco a pouco, fui me controlando melhor. Não que tenha ficado calmo, mas mais próximo do pleno autocontrole novamente. Vivendo esse conflito interior, respondi a algumas questões da prova. Nenhuma certeza. De nada. De nada.
E quando faltava apenas uma questão para responder, tomei uma decisão. Se eu terminasse a prova e mostrasse a calculadora para Sebastião, ele poderia pensar que eu teria feito toda a prova com ajuda da cola (o que não era verdade). Por outro lado, se eu a entregasse naquele momento, quando já não precisava mais dela, ele poderia analisar a cola e ver que só a poderia ter usado em uma questão e meia. Um colega o chamou para tirar uma dúvida. Então, enchendo-me de coragem (ou loucura, pois era um caso em que era difícil fazer a distinção), levantei o braço. Sebastião novamente parou ao meu lado, agora aparentemente esperando que eu lhe perguntasse algo sobre a prova. Mas o mal estava feito. Naquele instante, percebi que minha confissão, agora irremediável, era inútil! Ele nunca tinha percebido que eu estava colando! Talvez tivesse passado por sua cabeça, sim; mas ele não tinha visto nenhum papel comigo! Sem graça (e sem a malícia de inventar uma pergunta qualquer na hora), mostrei a calculadora a Sebastião, que perguntou se eu estava querendo emprestá-la a alguém. Neguei e me entreguei. Ele não ouviu e perguntou se eu estava dando a calculadora para ele. Nem me ocorreu que o tipo de cola que estava usando devia ser sofisticado demais para um sujeito que dava aulas com transparências "artesanais" (plástico transparente escrito à mão, com pedaços de papelão para fazer as bordas) e, eventualmente, um tripé! - tudo isso na era dos laptops, datashows e humildes pointers... Novamente vítima da perversidade, cuspi toda a história.
Para o ser humano, nada é mais autodestrutivo que a confissão. Nada. Porém, nada há que seja mais edificante também. No momento de minha confissão, me senti honesto novamente. Enfim tinha voltado a ser o homem que sempre fui.
Mas aí a situação tinha mudado. Antes eu tinha a (falsa) certeza de que teria minha prova corrigida com rigor porque Sebastião sabia que eu estava colando. Agora, então, eu tinha a certeza de que teria minha prova corrigida com mais rigor porque contei a Sebastião que estava colando. Tudo bem que agora eu tinha a honestidade a meu favor, mas, com certeza, não mais poderia tirar cem naquela prova. No muito, noventa. E eu precisava de nota. No dia seguinte, vi que tinha tirado 62 na prova e passei com 69 de média. Nunca mais quero (o tempo verbal aqui é um eterno presente mesmo) ver o Sebastião - ele é a imagem viva(?) da minha culpa.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Rafael x Felipe - num dia qualquer

- Todo mundo tem a capacidade de analisar coisas. "Vem de fábrica" no ser humano... Mas só vai aflorar e se transformar em algo realmente útil nas pessoas com propensão a exercitar o cérebro.
- Em outras palavras: só pode ser detetive quem estiver disposto a ser detetive. É isso?
- Exatamente isso, meu caro Rafael.
- Mas, de certo, você concorda que isso tem o seu preço. Não sei se o que vou falar é correto... Admito francamente que talvez não tenha essa "capacidade analítica" em nível elevado o suficiente para argumentar sobre o caso... Mas me parece, caro Felipe, que há um ônus em exercitar a mente. Você certamente conhece a famosa "lei do uso e do desuso", não conhece? Sinceramente, nunca vi razão alguma para essa lei não ser aplicável, também, ao cérebro. Notoriamente, quanto mais você se dedica a pensar, mais hábil fica nisso. Isso se chama experiência. Você já leu O retrato de Dorian Gray? Não? Pois deveria! É um livro assustadoramente bom! Bem, na verdade, o Dorian Gray é um mala-sem-alça e é um amigo dele que "salva" o livro, mas isso não importa. O que importa é a sagacidade de Oscar Wilde ao propor uma troca fantástica: logo no começo do livro, um amigo de Dorian Gray lhe pinta um retrato seu. Daí ser "o retrato de Dorian Gray"... Mas mais importante que isso é que Dorian Gray era um homem muito, muito bonito... Tá, eu sei que você acha tudo isso uma grande viadagem, mas ouça! Não era um retrato comum. Sobre ele, pairava um feitiço. Tá, eu sei que você não acredita nessas coisas, mas ouça porque o importante é a idéia! O retrato de Dorian Gray ficou absolutamente perfeito e havia uma razão para isso. E a razão era que, de certa forma, o retrato era Dorian Gray... Quer dizer, o homem e o retrato partilhavam uma relação única, mágica. Sabe aquela expressão "vão-se os dedos; ficam os anéis"? Não é o que acontece com a gente quando vê uma foto da nossa infância? Ou então quando ficamos velhos... É a mesma coisa! A nossa juventude é roubada pelo tempo, mas a juventude de uma figura num retrato, não... Imagine, então, como seria interessante se o retrato tivesse vida... Se o retrato pudesse ver, andar, pensar... Seria um ser imortal! E é exatamente isso que acontece no livro. Dorian conserva sua juventude enquanto o retrato envelhece em seu lugar! Assim, Dorian se torna imortal. Bem, só li até aí. Mas pense nas possibilidades de ser imortal. Não tendo mais que se preocupar com o tempo, você pode, simplesmente, "virar uma biblioteca". Essa eu tenho certeza que você conhece: a música do Raul Seixas que se chama "Eu nasci há 10000 anos atrás". Um pedaço do refrão é "e não há nada nesse mundo que eu não saiba demais". É essa a questão, Felipe: saber! Certa vez, um filósofo inglês chamado Francis Bacon disse: "Saber é poder". Quando se está livre do tempo, você se torna mais e mais poderoso à medida que adquire conhecimento, experiência. A gente tem um vislumbre disso mesmo em nossas curtas vidas. Quantas vezes você já resolveu um caso "por comparação" com outro? Aposto que algumas... Sabe, as pessoas "pensam igual" em alguns pontos fundamentais... A gente vai ficando mais maduro com o tempo e começa a fazer nosso trabalho com mais destreza, "percorrendo os atalhos", por assim dizer. E se o seu trabalho é pensar, descobrir, então eu acho que quanto mais se dedica a isso, mais viciado você fica em desvendar tudo o que lhe dá a mínima sensação de mistério. Estou certo?
- Nem tanto, Rafael. Sabe, às vezes a gente cansa...
- Pois é... Não somos imortais como o Dorian...
- Mas não dá pra negar que o que você disse sobre a experiência nos tornar mais ágeis é verdade.
- Sim, isso eu já sabia. Mas a minha questão, no fundo, é a seguinte: eu acho que todo detetive deve, antes de ser um bom analisador, ser um excelente observador. Porque, afinal de contas, como ele vai analisar se não consegue ver, não é mesmo?
- Desculpe te interromper, Rafael, mas tem jeito sim. A Virgínia é a pessoa pra te falar sobre isso. Mas devo dizer que essa habilidade de analisar sem ver só é possível para quem tem muita experiência.
- Sim, a Virgínia é excepcional mesmo... Mas, enfim, o que eu queria dizer é que você precisa estar atento para o que está acontecendo. Sabe, ver as coisas... Ou melhor, reparar nelas. Você já viu O Fabuloso Destino de Amélie Poulain?
- Não.
- Jura? Em que planeta você vive, Felipe? Depois me lembre de te emprestar esse filme... Talvez você não goste muito, mas tenho certeza que a Virgínia vai amar. Ela vai se identificar muito com a Amélie... Bem, o importante é que a Amélie Poulain diz que gosta de reparar em pequenos detalhes que ninguém mais vê. Sabe, uma coisa que chamaria a atenção dela seria se ela estivesse assistindo a um filme e de repente aparecesse uma mosca voando na tela. Não, não no cinema, mas no filme. Seria um pequeno defeito do filme: enquanto a cena era filmada, uma minúscula mosca resolveu dar uma de atriz... Sendo muito pequenininha, passou despercebida a toda equipe de produção e foi parar na telona sem ao menos receber algum crédito... Mas mesmo uma mosquinha de nada fica grande o suficiente para ser vista numa tela de cinema... O caso é que como a nossa atenção está desviada para a ação, para as personagens, para a história, a gente nem repara naquela pequena mosca fazendo uma pontinha. Enfim, há certas pessoas com essa capacidade de reparar em pequenos detalhes extremamente apurada. E isso dá uma outra visão de mundo para elas...
- Você é uma dessas pessoas, certo?
- Creio que sim... Lógico que um monte de coisa me passa despercebida num primeiro momento. Mas se tenho a oportunidade de olhar novamente... É difícil eu não encontrar algo curioso e até meio poético!
- Poético?
- É, poético, por assim dizer.
- Como o quê?
- Quer ver, hoje mesmo me aconteceu uma coisa dessas. Você sabe que eu tenho um blog, não sabe? Então, uma coisa que eu tenho pensado em fazer é "me tirar" do blog, parar de falar de mim. É meio difícil e até um pouco sem sentido se você considerar que a coisa chama "Jarro de memórias"... Mas, enfim, estou pensando em escrever crônicas sobre o que tenho visto na rua. Tudo bem que é exatamente isso que tenho feito, mas queria fazer de uma forma diferente. Até agora, tenho sido, salvo raras exceções que não foram percebidas pelos meus poucos leitores, personagem das minhas crônicas. E não quero mais isso. Acho que me exponho demais procedendo assim... Quero simplesmente testemunhar uma cena qualquer e descrevê-la artisticamente, como quem pinta um quadro. E de preferência, impressionista. Hoje eu estava descendo o Morro da Glória, indo para a Cultura Inglesa. Estava passando em frente a uma lanchonete quando a moça jogou água no chão para lavar o piso. Só que a água escorreu para a calçada e foi correndo em direção à rua. Bacana foi como ela fez isso. A água não chegou até a calçada como uma onda, mas em pequenas ondinhas, e foi se espalhando de forma desigual... Em algumas regiões, formava um pequeno "rio", uma protuberância da poça maior. Não sei porque, mas aquilo me lembrou cobras rastejando. E logo pensei em como descreveria aquela cena no blog: e a água se espalhou pela calçada feito serpentes na areia quente.
- É, tem um quê de poesia...
- Você já leu Hemingway? Não? Tá, tudo bem, eu também não... Mas você já viu o filme Cidade dos Anjos?
- Você sabe que detesto esses filmes melosos...
- Eu também não sou muito chegado... Vi só um pedaço, há muito tempo, porque coloquei num canal de TV a cabo e estava passando. Daí, como parecia ser o filme mais comum de se encontrar nos perfis das mulheres que eu conhecia, fiquei vendo. Além do que, a música-tema do filme é "Iris", do Goo Goo Dolls. Nem é tão boa assim, mas chama "Iris". E você sabe que eu tenho a maior queda por esse nome... É o nome que daria a minha filha se algum dia fosse ser pai.
- Nada te impede de ser pai.
- Não é recomendável depois da quimioterapia do transplante.
- Adote.
- É, confesso que já pensei nessa possibilidade. Mas só vou me arriscar a isso depois de estar devidamente casado.
- Entendo, mas sobre o filme...
- Ah, sim, é um filme sobre um anjo (o Nicholas Cage) que vem à Terra para ajudar uma médica (a Meg Ryan). O filme é ruim, mas tem um pedaço que fiz questão de não varrer da memória, um pedaço em que os dois estão em uma biblioteca e o Nicholas Cage pega um livro do Ernest Hemingway e chama a atenção dela para a forma como o Hemingway descrevia as coisas. Ele tinha uma preocupação toda especial em descrever o gosto das coisas, o formato das coisas. Era minucioso. O tipo de cara que esqueceria a Marilyn Monroe se visse uma mosca voando do outro lado da tela... Bem, o importante é que o Hemingway era um cara que abusava dos adjetivos. E isso é uma coisa que eu tenho a maior dificuldade de fazer! Se você gravasse essa nossa conversa e depois a visse transcrita, poderia perceber que é muito difícil eu usar um adjetivo. É justamente por isso, por perceber que tenho dificuldade para usar adjetivos, que fico pensando neles quando escrevo para o blog. Você pode reparar que não disse "como serpentes na areia", mas "como serpentes na areia quente". Eu poderia ter ficado só com "como serpentes na areia", mas achei que a combinação do adjetivo com a metáfora daria um tom mais poético à coisa.
- E deu mesmo...
- Mas por que a gente estava falando disso?
- Você estava dizendo que as pessoas observadoras vêem o mundo de forma diferente.
- Ah, sim! É verdade! A gente vê "ângulos em uma estrela e Deus no infinito"...
- Depois dessa, Rafael, só com uma frase do Jonas mesmo: "Humanos"...