sábado, 22 de novembro de 2008

Timetwister

Eu estou em 22 de novembro de 1983. É uma terça-feira, são dez para as cinco da tarde e venta forte na cidade. Um choro de criança corta o ar: garotos também choram.
Eu estou em 24 de fevereiro de 2002. Acabo de encontrar o valor 89/63 como resposta da segunda questão da prova de Matemática do PISM III. São dez horas da manhã e faz calor. Entrego a prova, a fiscal sorri para mim e vou-me embora com uma grande interrogação a me torturar.
Eu estou em algum dia de março de 2009. O rosto de todas as pessoas na sala de cinema fica azul pela fluorescência inventada do Dr. Manhattan. Poucos conseguem ver o tempo da mesma forma.
Eu estou em 1990. Caniggia faz o gol que elimina o Brasil da Copa. A Seleção não era tão boa assim, mas tenho apenas sete anos e não compreendo isso. Desgosto do futebol.
Eu estou em 2000. Num júri simulado, defendo Capitu. Lanço sombras sobre todas as evidências da acusação e reflito que o Direito é, na verdade, sinistro. Descubro-me perdidamente apaixonado pela Verdade.
Eu estou em 1984. Minha primeira experiência com eletricidade: sabe-se lá como, tiro a capinha da tomada e... Bem, meu primeiro contato com elétrons livres é chocante.
Eu estou em 1995, num dia qualquer. Desembarco do Xangai para um Colégio coberto por densa neblina.
Eu estou em 20 de dezembro de 2005. Acabo de ler, pela primeira vez, O Pequeno Príncipe. Corro ao computador e anoto várias passagens em um documento.
Eu estou em 1986. Rolo pelas escadas da casa nova. Paro no último degrau, que é mais largo. Aprendo que toda escada começa no primeiro degrau.
Eu estou em 28 de fevereiro de 2008. São cinco da tarde e meu orientador de mestrado lê a ata da sessão de arguição de minha Dissertação. Sinto-me mais leve ao ouvir as palavras "concluindo pela aprovação".
Eu estou em novembro de 1994. Mergulho na piscina de um hotel fazenda. O doce de leite depois do almoço adquire sabor transcendental.
Eu estou em 18 de agosto de 2000. Ao sair do teatro, decido que os acontecimentos daquela noite não poderiam ser esquecidos. Inicio um diário.
Eu estou em 1993. Aprendo que as pessoas não gostam de apelidos.
Eu estou em fevereiro de 1988. Sentado nos ombros de meu pai, descubro que carnaval é uma palhaçada.
Eu estou em 1º de março de 2006. Estudo Química Orgânica para a prova do mestrado. Nisso descubro que carnaval não é palhaçada.
Eu estou em dezembro de 1993. Assisto ao São Paulo ser campeão mundial pela segunda vez. Redescubro o futebol.
Eu estou em 5 de julho de 2007. Um profundo céu azul brilha atrás do vidro translúcido da única janela do quartinho verde onde estava. Sinto-me feliz por perceber o tempo de maneira desordenada.
Eu estou em 23 de maio de 2002. Patrícia e eu vamos ao cinema ver Homem-Aranha. Surge uma amizade enigmática, mutante e simbiótica.
Eu estou em 1998. Monto um grupo de estudos com dois dos melhores seres humanos que já conheci. São os irmãos que escolhi.
Eu estou em outubro de 2010. O relógio do Parque Halfeld marca 19:00hs. Ao meu lado, rostos conhecidos que não via há muito tempo. Alguns mudaram mais que outros.
Eu estou em 13 de dezembro de 2002. Jogo boliche pela primeira vez. Apaixono-me pelo som do strike (a jogada, não a banda) e vejo o esporte como uma terapia.
Eu estou em 1985. Mamãe me coloca sobre uma cadeira posicionada contra a janela da rua para ver os "meninos grandes" jogarem bola. O jogo acaba quando começa a chover.
Eu estou em 22 de dezembro de 2003. Com O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel, surge o "Cine Alameda VI".
Eu estou em 4 de junho de 1993. Pelo telefone, às nove e meia da noite, recebo a notícia de que tenho um irmão de sangue: seu nome é Lucas.
Eu estou em 22 de novembro de 2008. Estou postando este texto em meu blog. Esta é minha história.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Riddikulus!

*: espero, com este texto, desrespeitar apenas as novas regras gramaticais da Língua Portuguesa.

Escrevo este texto para as pessoas de Juiz de Fora (e aquelas que a vêem como sua casa) que, por uma ou outra razão, não tiveram oportunidade de acompanhar o 1º turno das eleições municipais.

Alguns textos atrás, previ um desastre eleitoral. Felizmente, errei. Contudo, não tão fortemente quanto gostaria. Mas até que isso teve suas compensações tragicômicas...

Depois da saudosa Operação Pasárgada (mais uma operação devastadora e de nome maneiro da Polícia Federal) o não-saudoso ex-prefeito ex-radialista sempre-polêmico Alberto Bejani acabou renunciando e - convenientemente - abrindo mão de concorrer ao cargo de prefeito dessa querida cidade. Isso foi o que aconteceu de melhor.

Mas embora Bejani - famoso por suas campanhas risíveis e incrivelmente bem-sucedidas - não tenha participado do processo, o eleitor juizdeforano não ficou desamparado no quesito "risadas". Entre os candidatos a vereador, tivemos gente quase-literalmente chorando a não-aprovação no "vestibular eleitoral" de quatro anos atrás ("Me ajude! Me ajude! Me ajude!" - detalhe: dessa vez, FOI ELEITO!), sambinhas ("Agora é... Mamão... quinze-meia-dois-zero, o candidato que eu quero... um amigo de bom coração"), "visões celestiais", "uhuhuh", sacudidas na cidade e outras piadas. Mas não consigo ver nada que encarne melhor o espírito tragicômico do processo eleitoral no Brasil que a propaganda do candidato Luiz Carlos Hort Frut. Único candidato de seu partido, mal se dava ao trabalho de falar sobre as suas propostas - usava o tempo para falar do programa de governo do candidato a prefeito que estava apoiando. Tudo bem que quase todo partido pede para o candidato a vereador, no final de sua fala, pedir um voto para o candidato a prefeito da coligação. Mas esse caso foi bizarro. Ficou entre o puxa-saquismo e a inocência. Por quê? Porque o candidato a prefeito em questão foi aquele que praticamente substituiu Bejani na questão da campanha risível com propostas absurdas: Omar Peres. "Sou pobre mas não sou burro! Só trabalho com o que faz bem para a saúde: verduras, frutas... E na câmara não serei diferente. Estarei junto com Omar..." etc.

Acho que agora, passada a eleição, podemos dizer com convicção que a aventura política do dono da TV Panorama acabou. Ou pelo menos deveria acabar - no lugar dele, eu é que não me candidataria novamente. Embora Omar tenha acabado sendo punido por tentar difamar a imagem de outro candidato, seu maior crime foi outro: tentar repetir na "microestrutura" juizdeforana o que Silvio Berlusconi fez na "macroestrutura" italiana, ou seja, eleger-se. Seu castigo foi se tornar motivo de riso para a cidade inteira. Para quem não teve a oportunidade de estar em JF para tomar contato com as propostas "salomônicas" de Omar, enumero algumas. A primeira foi o Cartão Saúde. De maneira geral, parece que o tal cartão funcionaria como qualquer cartão de plano de saúde por aí. Com o detalhe de que as consultas e exames seriam pagos pela Prefeitura... De onde viria o dinheiro, ninguém sabe. Mais que isso: na necessidade de algum medicamento, haveria um convênio entre Prefeitura e Correios para que os mesmos fôssem entregues nas residências dos pacientes. Ainda na área de saúde, ele prometeu o Hospital da Zona Norte. Mas isso é até lugar-comum, pois todos os candidatos fizeram essa promessa - possivelmente, cada um tentando polarizar os votos de uns 25% do eleitorado. E a última promessa realmente "de vulto" feita por Omar foi o trem de superfície. A idéia parecia simples: voltar com o Xangai. "Só que mais moderno", como ele dizia logo antes de entrar a animação tosca de um trem-bala passando em frente ao Parque Halfeld. Juro que nem em meus sonhos mais absurdos isso já havia passado pela minha cabeça! A imagem era tão inusitada que, penso, se Salvador Dalí morasse em JF, ficaria com inveja! Para completar, após essa promessa, Omar disse que, enquanto o trem de superfície não se tornasse uma realidade, a MRS Logística (empresa proprietária da malha ferroviária que passa por Juiz de Fora) teria de compensar a cidade pelos transtornos causados por seus trens. E que isso seria feito cobrando pedágio de cada vagão que cruzasse a cidade. Com esse dinheiro, construiria casas populares - melhor teria sido dizer que financiaria o Cartão Saúde, mas isso é o de menos. Sinceramente, não sei quem Omar quis enganar com a história do pedágio do trem. É óbvio que a malha ferroviária não pertence ao município. Como ele pode querer cobrar pelo uso de algo que não lhe diz respeito? Se Omar alguma vez teve alguma chance nesse pleito, perdeu depois dessa proposta.

Que o trem é um transtorno, isso é verdade. Qualquer um que tem de passar pela rua Benjamim Constant por volta de uma da tarde sabe disso - tão bem quanto aqueles que passam pelo Mariano Procópio à uma e quinze. Proposta interessante para isso veio de Custódio: construir mergulhões e viadutos. Seria uma solução quase tão "salomônica" quanto as de Omar se não fosse pelo fato de Aécio Neves ter aparecido em pessoa na cidade (no alto de um palanque tucano) para dizer que há 43 milhões de reais prontinhos para serem investidos nessas obras - recursos do Governo Estadual. Pessoalmente, acho a notícia ótima! Não me consta que Custódio, como deputado federal, já tenha conseguido verba tão vultosa assim de uma vez. Mas como candidato a prefeito, tem feito um uso desta proposta que não vejo com bons olhos. A todo momento apelando para o fato de que Aécio é seu companheiro de partido, fala do dinheiro como um grande cheque-caução. Isso é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que escapa da inocência de Omar (mostrando a origem dos fundos), passa a impressão de que existe uma panelinha: o dinheiro existe, mas só virá para Juiz de Fora se Custódio vencer a eleição... Que cada um dê o nome que preferir a essa prática!

Tarcísio Delgado deu claros sinais de cansaço ao fazer uma campanha excessivamente emocional. "Eu amo Juiz de Fora" e afins. Além disso, cometeu um erro gravíssimo: pôs em dúvida a capacidade de "novatos" governarem uma cidade como Juiz de Fora. Foi como comer uma banana, jogar a casca no chão e pisar em cima. Tarcísio não esqueceu que um dia também já foi um "novato" como prefeito - embora tenha cuidadosamente omitido que, naquela época, Margarida Salomão fazia parte de sua equipe de governo. O erro maior de Tarcísio foi levar o tema para o debate final, na TV Panorama. Lá, na primeira rodada de temas livres, perguntou a Custódio o que ele achava do "reducionismo" que tinha roubado a cena na campanha. Evidentemente, Tarcísio tinha em mira os slogans de Margarida ("a fila tem que andar"), Omar ("chega de ex, agora é 43") e Rafael Pimenta ("pimenta neles"). Custódio se juntou a Tarcísio como se fizessem parte de uma sociedade secreta. Na réplica, Tarcísio disse que nunca ninguém conseguiu levantar qualquer motivo realmente forte para que ele não voltasse a ser prefeito, que os adversários diziam que ele não podia ser prefeito "porque já tinha sido prefeito" - o que era, como ele mesmo disse, uma atitude "irracional". Na rodada de tema livre seguinte, Margarida fez uma pergunta extremamente capciosa a Omar: perguntou-lhe se a experiência de empresário o credenciaria para ser prefeito. Omar, é claro, disse que "sim" (quase agradeceu a pergunta!) e desfraldou boa parte de seus feitos passados. Margarida, então, concluiu que "toda experiência é válida" e que "tão irracional quanto dizer que alguém não pode ser prefeito por já ter sido prefeito, é dizer que alguém não pode ser prefeito por nunca ter sido prefeito antes". Tarcísio segurou lágrimas de sangue durante o resto do debate. Acabou derrotado nas urnas. No segundo turno, seu filho, Júlio Delgado, conhecido desafeto do PT de Margarida, apoiou Custódio. O PMDB, no entanto, apoiou Margarida. Tarcísio, na última semana de campanha, seguiu o partido e declarou apoio a Margarida - retirou-se da política de forma elegante, afinal.

Rafael Pimenta (do PCB) fez uma campanha discreta. Fez muito menos vista que Victor Pontes, candidato do PSTU. Este, do alto de seus 21 anos de idade, mostrou um talento nato com palavras. Não foram poucas as pessoas que me disseram que apenas não votaram nele por causa do partido - o que certamente é um perigo, sendo ele um sujeito tão jovem.

Segundo turno: Margarida e Custódio. Lula - até então se mantendo afastado por seu enorme respeito a Tarcísio - entra na campanha de Margarida. A opinião das pessoas com quem tenho conversado sobre o assunto é de que Custódio tem baixado muito o nível da campanha. Eu digo, então, que ele se tornou um "bicho papão". E contra "bichos papões", façamos como o Harry Potter: na cara dele, digamos riddikulus!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Momentos

"Lembro-me de levantar certa manhã ao amanhecer. Havia tamanha sensação de possibilidade, sabe essa sensação? Eu me lembro de ter pensado: Este é o início da felicidade. É aqui que começa. E, sem dúvida, sempre haverá mais. Nunca me ocorreu que não era o começo. Era felicidade. Era o momento. Naquele exato momento."
(
As Horas)


Há algum tempo, tenho esbarrado nessa passagem. O filme é bom, o livro que lhe deu origem é super-premiado, há zilhares de passagens memoráveis e tal. Mas essa daí em especial... Na voz de Clarissa Vaughan (personagem de Maryl Streep) assumiu um tom de axioma: felicidade é isso e pronto. No entanto, por mais bela e reconfortante que seja, nunca me senti perfeitamente à vontade com ela. E para explicar a razão disso, peço licença para parafrasear o trecho acima:

Eu me lembro de uma noite em que Fábio, Janaína e eu resolvemos lanchar na esquina da Santo Antônio com a Rei Alberto. A limonada suíça veio terrivelmente amarga. Sabe quando a limonada passa do ponto? E lembro que Fábio e Janaína reclamaram do refresco, pediram mais açúcar e até água para o diluírem. Eu estava conformado. Janaína, então, disse que minha postura era felicidade. Não era o momento, mas o conjunto. A felicidade, afinal, era algo sereno, constante.

Essa foi a primeira vez que pensei na felicidade dessa forma. A outra vez foi em uma conversa que tive com meu orientador de doutorado... Estava ele, basicamente, reclamando da não-constância na velocidade com que meus resultados aparecem. Segundo ele, isso passa a impressão de que há momentos em que eu trabalho mais e momentos em que eu diminuo o ritmo. Cansaço? Sim... Mas poderia ser um certo "marasmo" também, despreocupação. Até seria justificado pelo que passei ano passado. O que realmente, admito, gera uma sensação daquilo que chamo felicidade. "Essas coisas pequenas... Esses probleminhas que não farão grande diferença se forem resolvidos ou não... Nada disso me importa. Só me importo com aquilo que realmente ameaça meu objetivo de vida".

Um momento, por favor, porque apareceram várias palavras-chave no trechinho acima: diferença, importa, objetivo e vida. Tenho escutado, com freqüência, pessoas dizendo coisas como "eu nasci para ser feliz". Não sei se é porque, mesmo sem me considerar religioso, sempre levei o Eclesiastes muito a sério, mas jamais ousei dizer coisa semelhante. Conceitos de felicidade existem aos montes. Cada ser humano mais ou menos "define" suas condições para a felicidade. O que acho muito curioso é que nunca encontrei alguém que se considerasse feliz! Não sabemos o que queremos? Ou será que a felicidade não é mesmo desse mundo?

Entendo a felicidade como um estado de espírito no qual há perfeita harmonia entre o ser humano e o meio que o cerca. Mais uma vez, o problema é o tempo. Se a nossa vida durasse um período de tempo tal que não nos fôsse possível experimentar um infortúnio, um revés, uma tristeza, talvez chegássemos a ser felizes. Como isso não é coisa que se verifique cotidianamente, jamais somos felizes. O nosso riso é, antes, um momento de alegria - essa, sim, a palavra. A vida é, então, constituída de momentos de alegria e tristeza; jamais de felicidade. Felicidade não é um momento!

A princípio, uma solução trivial para viver na felicidade poderia ser pensada como uma seqüência ininterrupta de momentos de alegria. O resultado dificilmente passaria de um filme do tipo Curtindo a Vida Adoidado, algo bem Sessão da Tarde. A pessoa vive um dia de satisfação e depois amarga o famoso comentário: "teve bom". Apenas uma recordação...

Haveria, então, uma solução para essa busca pela felicidade? Bem, desde que querer nunca é poder (se você quer e pode, você faz/tem; se só fica querendo, é porque não pode fazer/ter), acho que não... Mas há, ao menos, uma boa receita para se viver bem, num estado de serenidade quase-perene que eu, particularmente, acho muito bacana. A receita é conhecida da humanidade desde o século IV a.C.: "O sábio procura a ausência da dor, e não o prazer" (Aristóteles). É bacana porque as alegrias não apenas aparecem naturalmente no caminho (sem serem o objeto da busca!) como ainda tendem a ser mais duradouras. E só metade da felicidade, mas já faz um bem...

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Produto do meio

"I don't want to be a product of my environment. I want my environment to be a product of me"

Assim começa Os Infiltrados, um dos melhores filmes de Martin Scorsese. O que Frank Costello (personagem de Jack Nicholson) não sabia era o efeito filosófico arrebatador que a frase teria em mim!

Já perdi a conta das vezes em que ouvi alguém falar que "o homem é produto do meio em que vive". E até ver Os Infiltrados pela primeira vez, nunca tinha questionado isso. Tudo bem: o filme também não questiona! A intenção é meramente mostrar poder e tal... Mas o mais interessante não é o poder; é a inversão dos papéis. Costello queria que o meio em que ele vivia fosse produto seu, de sua personalidade, de suas opiniões, de seus desígnios. E incutido nesse desejo do gângster, apareceu o erro fundamental do "produto do meio": o homem não é produto do meio; mas uma média do meio.

Oh!, meu Deus! Mais um texto chato do Rafael, à base de uma estatística maluca que só ele entende porque só existe na cabeça dele! Não. Realmente não resisti a fazer a ressalva da média, mas o tema de hoje é a inversão de papéis. E nada de matemática!

Bem, a idéia básica de "o homem como produto do meio" é que o meio modifica o homem. Óbvio, mas precisava ser dito. A proposta de Costello é fazer o contrário: o homem modificar o meio. É uma proposta ambiciosa, pois pode chegar a ser até perigoso existir um homem com poder de modificar um meio - quem já viu Cidadão Kane? Quem não viu pode tomar uma boa base pelo que certa emissora faz com a opinião pública de certo país... "Santa ironia, Batman!" "Oops, I did it again..."

Depois de uns dez minutos de filme pausado logo após as "first lines", cheguei a uma conclusão: evolução existe. Acontece de uma maneira muito, muito peculiar. Funciona assim: no começo, existia o Meio e a Vida como coisas distintas. E até hoje são coisas distintas, mas não tão independentes quanto na Criação. A Vida teve de se adaptar ao Meio Físico para se tornar viável. E as espécies foram evoluindo em busca de uma melhor adaptabilidade ao Meio por milênios - Charles Darwin e sua "seleção natural" explicam isso maravilhosamente bem. Até aí, é sempre o Meio que manda na história. Em algum momento da evolução, surgiu um ser capaz de transformar essa via de mão-única numa via de mão-dupla: o tal do ser humano... Quando eu estava na 1ª série do Ensino Fundamental, meu livro de Estudos Sociais dizia que "o homem modifica o meio". Pronto. Taí. Alguém disse. O homem pode modificar o Meio. Mas isso é só a princípio, porque, na prática, modificar o meio ambiente se tornou uma coisa tão corriqueira para o ser humano que, hoje em dia, é difícil fazer alguma coisa que não o modifique.

Mas o ser humano vai além! Sendo, na essência, um ser social, ele naturalmente modifica seu Meio Social. E isso não dá pra evitar! O muito que Os Infiltrados fez foi colocar uma frase de efeito no começo, porque a idéia de "poder supremo" para influir e modificar o Meio, isso todo ser humano tem como conseqüência do fato de existir. É sério: mesmo que você não faça nada (o que é impossível), o simples fato de você existir e não ser completamente isolado do mundo já modifica o meio em que você vive! As outras pessoas te julgam e isso as modifica. E como as opiniões das pessoas modificam o Meio Social, dá até pra inverter o paradigma: o meio é produto do homem!

Mas calma aí! Ainda não acabou. É fato que as opiniões difundidas no meio em que um homem está inserido o modificam. O homem é produto do meio e o meio é produto do homem, portanto. Que paradoxo! Não, não: é só o âmago do processo evolutivo. Que é um processo cíclico e dinâmico. O meio modifica os homens. Os homens reagem e modificam o meio. O meio modificado, por sua vez, modifica os homens... E assim se cria um ciclo. Talvez seja isso que Franz Kafka quis dizer em O Processo... Estaríamos convergindo para algum ponto? Não sei. A resposta dessa pergunta é literalmente uma questão de crença. Sei apenas que as modificações, de parte a parte, acontecem tão rápido que não nos damos conta de todas.

E sei de mais uma coisa também. A capacidade do ser humano de modificar o meio está atrelada a algo que lhe é característico: a consciência. É ela que nos define como humanos. É ela que controla nossos atos, que molda nossa personalidade. E assim, por mais que o meio nos modifique, sempre conservaremos algo essencialmente nosso, próprio, único, conceitual, diferencial, distintivo. Contudo, esse "algo próprio" não é imutável. A diferença é que somente a própria pessoa pode mudá-lo. Para tanto, é preciso conhecer-se e ter a consciência de que se é mutável e mutante. E é somente aí que se tem, de fato, o tal do livre-arbítrio. E com isso, compreende-se que ele só vem ao preço de uma grande responsabilidade. Mas isso é outra história...

Olha, até que, só por essa reflexão, posso dar uma nota 9,0 pr' Os Infiltrados!

domingo, 27 de julho de 2008

Explicando "Lei de Murphy"

Quando escrevi o texto Lei de Murphy, tinha uma intenção: fazer (mais uma) piada sobre a Lei de Murphy. E escrevi apostando que qualquer pessoa, já na primeira leitura, entenderia minha intenção. Evidentemente, havia a possibilidade (hehe) de que algum romântico/carente/apaixonado não entendesse e me atacasse com paus, pedras e, dependendo do estilo da pessoa, flores.

É para os meus queridos leitores que não entenderam minha intenção (ou minha piada) que escrevo este texto: a explicação da mesma. Farei isso através da mensagem que uma amiga me mandou ao lê-lo. Disse ela:

" Esse texto é seu né..... espero mto que vc viva um desastre probabilístico, que ainda te tire do eixo e te faça ver a contradição.... e te faça escrever exatamente o oposto do que disseste... Porque..... a grande magia da coisa está exatamente aí.... todos podem definí-lo, mas ninguem o definiu melhor até hj do q como sua própria contradição..... Desejo, que vc tenha a quem amar.... e qdo estiver bem cansado.... ainda exista amor pra recomeçar....."

Bem, a primeira frase me fez lembrar da razão fundamental pela qual a Lei de Murphy é tida como a perseguidora implacável das 283.545 pessoas participantes da comunidade homônima no orkut: a gente sempre tende a lembrar mais dos momentos que consideramos ruins para nós, aqueles em que nos sentimos ridículos ou coisa assim. Pois bem: eu, como todo mundo, já paguei um baita mico. Foi em 2001, em um horário de almoço no Colégio Militar. Estávamos na sala: eu, Fábio Fortes, Márcio Maffili, Juliana e alguém mais. De repente, Juliana catou um toco de giz e começou a escrever versos no quadro negro. No final, apareceu um soneto. Não colocou título nem nada - só o soneto mesmo. E eu, que, naquela época, também arriscava uns versos e estava até recebendo alguns elogios da profª de literatura (a "Tixa", para quem se lembra), arrisquei uma de crítico literário. E como crítico raramente diz alguma coisa que presta, logo fulminei dois versos: "esses aqui são vazios". Juliana deixou que fizesse minhas críticas, mas depois, com um sorriso malicioso, desenhou um parêntese abaixo do soneto e escreveu "Vinícius de Morais"... Logo ficaria sabendo que aquele soneto que tinha tomado como sendo dela era, na verdade, o Soneto do Amor Total, um dos melhores sonetos de Vinícius de Morais... Daquele dia em diante, nunca mais me atrevi a falar nada sobre qualquer coisa cuja origem eu desconhecesse. E jamais criticar algo que não pudesse fazer melhor. Daí a estranheza que a frase "esse texto é seu né..." me causou: então, se não fosse meu, minha amiga não diria nada?

Embora reconheça que, de longe, a frase que mais chama a atenção em Lei de Murphy é "o amor é um desastre probabilístico", esta não é a frase fundamental do texto - esta é só a piada. A frase fundamental é: "É somente à luz das probabilidades que o amor adquire seu significado sublime", bem no começo do parágrafo da análise. A idéia era mostrar que o amor verdadeiro é uma coisa rara, difícil de ser encontrada - e até por isso, digna de admiração. Como mostrei no decorrer do último parágrafo, os números não favorecem o encontro dos amantes - no fundo, há muito mais modos de um relacionamento dar errado do que dar certo! E é essa a maravilha do amor: ele é uma catástrofe para as probabilidades. Se eu tivesse que apostar se um relacionamento qualquer daria certo ou errado, à luz das probabilidades, logicamente apostaria que daria errado. A maravilha é quando, apesar dos números "jogarem contra", o relacionamento dá certo! Ao se dar conta disso, você provavelmente pára, olha para a pessoa amada, reflete que nunca houve, não há e jamais haverá outra como ela, dá o maior valor a ela e aos momentos que já passaram juntos e, provavelmente, lhe chapa um beijo na boca muito mais consciente da sorte que deu. É nesse momento - em que a razão finalmente dá as caras e não consegue causar destruição - que o amor fica completo.

Mas, afinal, o que é o amor? Pediram-me uma definição. Todo mundo já tentou e ninguém conseguiu definí-lo de forma satisfatória. São tantas as suas facetas que muita coisa acaba podendo ser chamada de amor. Confesso que, certa vez, tentando definir essa coisa indefinível, pensei que a humanidade tinha "convencionado" não saber definir o que é amor simplesmente para poder dizer que muita coisa o é... Definição de amor? Gosto da de Machado de Assis: "a melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada...". Assim como também tenho a maior estima pela que, anos atrás, fiz em pleno auge de uma paixão:

O Amor não é definível. O Amor é calor, é calafrio, é admiração, é medo, é insegurança, é timidez, é dúvida, é atrapalho, é vontade, é receio. Amor não se define, se sente. E se sabe quando se sente. "Ninguém lhe diz que está apaixonado, mas você sabe que está". Então, estar apaixonado deve ser algo como uma crença: eu acredito que estou apaixonado e pronto. Eu me convenço que amo alguém. O Amor preexiste ao Amor. Nunca nos damos conta do momento em que começamos a amar. É um momento tão sublime que desligamos do mundo, esquecemos do tempo e queremos simplesmente ver, ouvir, cheirar, tocar, falar... pensar não! Somente depois, relembrando o bom momento, pensamos e nos damos conta, por força do hábito, de que nos apaixonamos. O Amor é construção.

Convenhamos que só alguém que estava vivendo um "desastre probabilístico" de "tirar do eixo" poderia escrever uma coisa dessas! É óbvio que, nesse contexto, o correto seria definir o amor como um "milagre probabilístico", mas aí não tinha piada... A conta ia ser exatamente a mesma, mas ninguém ia abrir um sorrisinho sequer...

Moça-que-me-mandou-a-mensagem: lembre-se de Oswald de Andrade:


Amor

humor

terça-feira, 22 de julho de 2008

Lei de Murphy

Outro dia, estava vendo o episódio piloto do seriado Dead Like Me - A morte lhe cai bem e me deparei com uma passagem muito interessante, em perfeita harmonia com o que estava pensando desde que acordei. A personagem principal, Georgia, fazia uma reflexão: "A vida me ensinou que interesse gera expectativa, e que expectativa gera decepção. Então a chave para evitar a decepção é evitar o interesse. A é igual a B, que é igual a C, que é igual a A, sei lá... Também não tenho interesse em ser uma pessoa boa ou má. Pelo que eu vejo, de qualquer jeito, você está ferrado. As pessoas más são punidas pela Lei da sociedade (cena de um ladrão sendo fuzilado pela polícia). E as pessoas boas (cena de uma mulher caindo da cerca onde tinha subido para tirar um gato da árvore) são punidas pela Lei de Murphy".

Momentos antes, estava pensando em algo que achei curioso. A Teoria da Relatividade tem seus limites de validade. A Física Quântica também. Não são completamente compatíveis uma com a outra. Existem situações que devem ser tratadas sob o ponto de vista relativístico e existem situações que devem ser tratadas sob o ponto de vista quântico. O que se sabe é que nenhuma das duas descreve a natureza perfeitamente. Chega uma hora em que não dá mais para aceitar uma delas e deve-se partir para a outra. Bem, o ponto é: são teorias extremamente abrangentes, mas nem de longe são incontestáveis. Coisa que a Lei de Murphy parece ser... E talvez esse seja seu aspecto mais sinistro: pior que as máximas "se existe a possibilidade de algo dar errado, dará" e "nada está tão ruim que não possa ser piorado" é a noção de que isso vale sempre, independente das peculiaridades da situação, da casca de banana no chão às balas "perdidas" nas favelas cariocas.

A Lei de Murphy é, essencialmente, uma lei probabilística. Ou melhor: é a Lei das Probabilidades. É ela que determina a probabilidade de um evento ocorrer ou não. E como a natureza se comporta dessa forma - ponto comum entre Relatividade e Quântica - é, no fundo, a Lei de Murphy que melhor a descreve. As piadas relacionadas decorrem do egocentrismo humano. Infortúnios cotidianos normalmente atribuídos à ação nefasta da Lei de Murphy são facilmente explicados quando observados do ponto de vista das probabilidades. "Ah, entrei na fila lenta no supermercado". Bem, quantas filas existem em um supermercado? Normalmente, várias. E somente uma pode ser a mais rápida. Logo, todas as outras são, comparativamente, filas lentas... Azar mesmo seria entrar na fila mais lenta! Mas é claro que só um cego vai achar que a fila rápida será aquela em que o típico "tiozão do churrasco" - aquele senhor de cabelos grisalhos, com uns "quilinhos" a mais extremamente mal-distribuídos, que, especialmente às vésperas de feriado, enche o carrinho de picanha, cerveja e demais apetrechos para churrasco; e "x" vezes em dez, para a compra com várias notas de R$10,00, frutos óbvios do rateio dos custos com vários amigos, todos quase tão folclóricos quanto ele próprio - segue o jovem pai-de-família fazendo as compras do mês com a esposa e o filho pequeno.

Mas se o problema fosse apenas essas situações que a Matemática tão gentilmente estampa nos exercícios de seus livros ("se um hotel tem três portas de entrada e dois elevadores, de quantas formas diferentes um hóspede pode chegar a seu quarto?"), nem estaria tão ruim assim. O problema é que a Lei de Murphy consegue o quase impossível: atribuir números para coisas que, normalmente, não são quantificadas. Tomemos, por exemplo, o amor.

É somente à luz das probabilidades que o amor adquire seu significado sublime. Para começo de análise, deve-se focar em um indivíduo qualquer. Esse perfeito fulano tem seus gostos próprios, suas preferências. Assim, é natural que se sinta atraído por determinado tipo de pessoa. Ora: assim como ele, as outras pessoas também têm seus gostos. Há uma probabilidade - e apenas isso - de que, entre as pessoas que atraem nosso fulano, exista uma beltrana que se sente atraída pelo tipo de pessoa que ele é. Calcular isso é, a priori, muito simples: o universo é o conjunto das pessoas pelas quais ele se sente atraído e o numerador é o número de indivíduos desse conjunto que se sentem atraídas pelo tipo de pessoa que o fulano é. O problema, é claro, é saber o numerador e o denominador. Por dois motivos. Primeiro porque, para não usar nenhuma aproximação, o conjunto universo do problema deve contemplar todo e qualquer ser humano que reúne as características pré-definidas como atrativas ao nosso fulano - sim, a menos que você tenha algo contra as asiáticas, a China é um problema. Isso pode ser solucionado assumindo que, para efeitos práticos, pode-se simplesmente fazer uma amostragem séria - e não tendenciosa, como as pesquisas eleitorais divulgadas por alguns periódicos de qualidade duvidosa... O segundo problema é conhecer suficientemente bem os indivíduos da amostragem para saber que tipo de pessoa os atrai. Além disso tudo, há ainda o patente problema de duas pessoas com esses gostos em comum encontrarem um ao outro, se conhecerem melhor e não descobrirem nada que considerem repugnante no outro. Então, as probabilidades do problema são três: primeiro, a probabilidade de encontrar um ser humano que atraia o nosso fulano; depois, a probabilidade de, entre os seres humanos pelos quais ele se sente atraído, existir um que se sinta atraído por ele; e por fim, a probabilidade de esses dois sujeitos se encontrarem e etc. Como os eventos são dependentes um do outro, a probabilidade total é o produto das probabilidades individuais. Ou seja: encontrar o "amor da sua vida" é quase como ter a Lei de Murphy agindo sobre si mesma, provocando um desastre em suas próprias probabilidades. Meu Deus: o amor é um desastre probabilístico! É mais fácil topar com um raio que com sua alma-gêmea! "Jogue suas mãos para o céu/ Agradeça se acaso tiver/ Alguém que você gostaria que/ Estivesse sempre com você/ Na rua, na chuva, na fazenda/ Ou numa casinha de sapê"!