terça-feira, 19 de agosto de 2008

Produto do meio

"I don't want to be a product of my environment. I want my environment to be a product of me"

Assim começa Os Infiltrados, um dos melhores filmes de Martin Scorsese. O que Frank Costello (personagem de Jack Nicholson) não sabia era o efeito filosófico arrebatador que a frase teria em mim!

Já perdi a conta das vezes em que ouvi alguém falar que "o homem é produto do meio em que vive". E até ver Os Infiltrados pela primeira vez, nunca tinha questionado isso. Tudo bem: o filme também não questiona! A intenção é meramente mostrar poder e tal... Mas o mais interessante não é o poder; é a inversão dos papéis. Costello queria que o meio em que ele vivia fosse produto seu, de sua personalidade, de suas opiniões, de seus desígnios. E incutido nesse desejo do gângster, apareceu o erro fundamental do "produto do meio": o homem não é produto do meio; mas uma média do meio.

Oh!, meu Deus! Mais um texto chato do Rafael, à base de uma estatística maluca que só ele entende porque só existe na cabeça dele! Não. Realmente não resisti a fazer a ressalva da média, mas o tema de hoje é a inversão de papéis. E nada de matemática!

Bem, a idéia básica de "o homem como produto do meio" é que o meio modifica o homem. Óbvio, mas precisava ser dito. A proposta de Costello é fazer o contrário: o homem modificar o meio. É uma proposta ambiciosa, pois pode chegar a ser até perigoso existir um homem com poder de modificar um meio - quem já viu Cidadão Kane? Quem não viu pode tomar uma boa base pelo que certa emissora faz com a opinião pública de certo país... "Santa ironia, Batman!" "Oops, I did it again..."

Depois de uns dez minutos de filme pausado logo após as "first lines", cheguei a uma conclusão: evolução existe. Acontece de uma maneira muito, muito peculiar. Funciona assim: no começo, existia o Meio e a Vida como coisas distintas. E até hoje são coisas distintas, mas não tão independentes quanto na Criação. A Vida teve de se adaptar ao Meio Físico para se tornar viável. E as espécies foram evoluindo em busca de uma melhor adaptabilidade ao Meio por milênios - Charles Darwin e sua "seleção natural" explicam isso maravilhosamente bem. Até aí, é sempre o Meio que manda na história. Em algum momento da evolução, surgiu um ser capaz de transformar essa via de mão-única numa via de mão-dupla: o tal do ser humano... Quando eu estava na 1ª série do Ensino Fundamental, meu livro de Estudos Sociais dizia que "o homem modifica o meio". Pronto. Taí. Alguém disse. O homem pode modificar o Meio. Mas isso é só a princípio, porque, na prática, modificar o meio ambiente se tornou uma coisa tão corriqueira para o ser humano que, hoje em dia, é difícil fazer alguma coisa que não o modifique.

Mas o ser humano vai além! Sendo, na essência, um ser social, ele naturalmente modifica seu Meio Social. E isso não dá pra evitar! O muito que Os Infiltrados fez foi colocar uma frase de efeito no começo, porque a idéia de "poder supremo" para influir e modificar o Meio, isso todo ser humano tem como conseqüência do fato de existir. É sério: mesmo que você não faça nada (o que é impossível), o simples fato de você existir e não ser completamente isolado do mundo já modifica o meio em que você vive! As outras pessoas te julgam e isso as modifica. E como as opiniões das pessoas modificam o Meio Social, dá até pra inverter o paradigma: o meio é produto do homem!

Mas calma aí! Ainda não acabou. É fato que as opiniões difundidas no meio em que um homem está inserido o modificam. O homem é produto do meio e o meio é produto do homem, portanto. Que paradoxo! Não, não: é só o âmago do processo evolutivo. Que é um processo cíclico e dinâmico. O meio modifica os homens. Os homens reagem e modificam o meio. O meio modificado, por sua vez, modifica os homens... E assim se cria um ciclo. Talvez seja isso que Franz Kafka quis dizer em O Processo... Estaríamos convergindo para algum ponto? Não sei. A resposta dessa pergunta é literalmente uma questão de crença. Sei apenas que as modificações, de parte a parte, acontecem tão rápido que não nos damos conta de todas.

E sei de mais uma coisa também. A capacidade do ser humano de modificar o meio está atrelada a algo que lhe é característico: a consciência. É ela que nos define como humanos. É ela que controla nossos atos, que molda nossa personalidade. E assim, por mais que o meio nos modifique, sempre conservaremos algo essencialmente nosso, próprio, único, conceitual, diferencial, distintivo. Contudo, esse "algo próprio" não é imutável. A diferença é que somente a própria pessoa pode mudá-lo. Para tanto, é preciso conhecer-se e ter a consciência de que se é mutável e mutante. E é somente aí que se tem, de fato, o tal do livre-arbítrio. E com isso, compreende-se que ele só vem ao preço de uma grande responsabilidade. Mas isso é outra história...

Olha, até que, só por essa reflexão, posso dar uma nota 9,0 pr' Os Infiltrados!

domingo, 27 de julho de 2008

Explicando "Lei de Murphy"

Quando escrevi o texto Lei de Murphy, tinha uma intenção: fazer (mais uma) piada sobre a Lei de Murphy. E escrevi apostando que qualquer pessoa, já na primeira leitura, entenderia minha intenção. Evidentemente, havia a possibilidade (hehe) de que algum romântico/carente/apaixonado não entendesse e me atacasse com paus, pedras e, dependendo do estilo da pessoa, flores.

É para os meus queridos leitores que não entenderam minha intenção (ou minha piada) que escrevo este texto: a explicação da mesma. Farei isso através da mensagem que uma amiga me mandou ao lê-lo. Disse ela:

" Esse texto é seu né..... espero mto que vc viva um desastre probabilístico, que ainda te tire do eixo e te faça ver a contradição.... e te faça escrever exatamente o oposto do que disseste... Porque..... a grande magia da coisa está exatamente aí.... todos podem definí-lo, mas ninguem o definiu melhor até hj do q como sua própria contradição..... Desejo, que vc tenha a quem amar.... e qdo estiver bem cansado.... ainda exista amor pra recomeçar....."

Bem, a primeira frase me fez lembrar da razão fundamental pela qual a Lei de Murphy é tida como a perseguidora implacável das 283.545 pessoas participantes da comunidade homônima no orkut: a gente sempre tende a lembrar mais dos momentos que consideramos ruins para nós, aqueles em que nos sentimos ridículos ou coisa assim. Pois bem: eu, como todo mundo, já paguei um baita mico. Foi em 2001, em um horário de almoço no Colégio Militar. Estávamos na sala: eu, Fábio Fortes, Márcio Maffili, Juliana e alguém mais. De repente, Juliana catou um toco de giz e começou a escrever versos no quadro negro. No final, apareceu um soneto. Não colocou título nem nada - só o soneto mesmo. E eu, que, naquela época, também arriscava uns versos e estava até recebendo alguns elogios da profª de literatura (a "Tixa", para quem se lembra), arrisquei uma de crítico literário. E como crítico raramente diz alguma coisa que presta, logo fulminei dois versos: "esses aqui são vazios". Juliana deixou que fizesse minhas críticas, mas depois, com um sorriso malicioso, desenhou um parêntese abaixo do soneto e escreveu "Vinícius de Morais"... Logo ficaria sabendo que aquele soneto que tinha tomado como sendo dela era, na verdade, o Soneto do Amor Total, um dos melhores sonetos de Vinícius de Morais... Daquele dia em diante, nunca mais me atrevi a falar nada sobre qualquer coisa cuja origem eu desconhecesse. E jamais criticar algo que não pudesse fazer melhor. Daí a estranheza que a frase "esse texto é seu né..." me causou: então, se não fosse meu, minha amiga não diria nada?

Embora reconheça que, de longe, a frase que mais chama a atenção em Lei de Murphy é "o amor é um desastre probabilístico", esta não é a frase fundamental do texto - esta é só a piada. A frase fundamental é: "É somente à luz das probabilidades que o amor adquire seu significado sublime", bem no começo do parágrafo da análise. A idéia era mostrar que o amor verdadeiro é uma coisa rara, difícil de ser encontrada - e até por isso, digna de admiração. Como mostrei no decorrer do último parágrafo, os números não favorecem o encontro dos amantes - no fundo, há muito mais modos de um relacionamento dar errado do que dar certo! E é essa a maravilha do amor: ele é uma catástrofe para as probabilidades. Se eu tivesse que apostar se um relacionamento qualquer daria certo ou errado, à luz das probabilidades, logicamente apostaria que daria errado. A maravilha é quando, apesar dos números "jogarem contra", o relacionamento dá certo! Ao se dar conta disso, você provavelmente pára, olha para a pessoa amada, reflete que nunca houve, não há e jamais haverá outra como ela, dá o maior valor a ela e aos momentos que já passaram juntos e, provavelmente, lhe chapa um beijo na boca muito mais consciente da sorte que deu. É nesse momento - em que a razão finalmente dá as caras e não consegue causar destruição - que o amor fica completo.

Mas, afinal, o que é o amor? Pediram-me uma definição. Todo mundo já tentou e ninguém conseguiu definí-lo de forma satisfatória. São tantas as suas facetas que muita coisa acaba podendo ser chamada de amor. Confesso que, certa vez, tentando definir essa coisa indefinível, pensei que a humanidade tinha "convencionado" não saber definir o que é amor simplesmente para poder dizer que muita coisa o é... Definição de amor? Gosto da de Machado de Assis: "a melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada...". Assim como também tenho a maior estima pela que, anos atrás, fiz em pleno auge de uma paixão:

O Amor não é definível. O Amor é calor, é calafrio, é admiração, é medo, é insegurança, é timidez, é dúvida, é atrapalho, é vontade, é receio. Amor não se define, se sente. E se sabe quando se sente. "Ninguém lhe diz que está apaixonado, mas você sabe que está". Então, estar apaixonado deve ser algo como uma crença: eu acredito que estou apaixonado e pronto. Eu me convenço que amo alguém. O Amor preexiste ao Amor. Nunca nos damos conta do momento em que começamos a amar. É um momento tão sublime que desligamos do mundo, esquecemos do tempo e queremos simplesmente ver, ouvir, cheirar, tocar, falar... pensar não! Somente depois, relembrando o bom momento, pensamos e nos damos conta, por força do hábito, de que nos apaixonamos. O Amor é construção.

Convenhamos que só alguém que estava vivendo um "desastre probabilístico" de "tirar do eixo" poderia escrever uma coisa dessas! É óbvio que, nesse contexto, o correto seria definir o amor como um "milagre probabilístico", mas aí não tinha piada... A conta ia ser exatamente a mesma, mas ninguém ia abrir um sorrisinho sequer...

Moça-que-me-mandou-a-mensagem: lembre-se de Oswald de Andrade:


Amor

humor

terça-feira, 22 de julho de 2008

Lei de Murphy

Outro dia, estava vendo o episódio piloto do seriado Dead Like Me - A morte lhe cai bem e me deparei com uma passagem muito interessante, em perfeita harmonia com o que estava pensando desde que acordei. A personagem principal, Georgia, fazia uma reflexão: "A vida me ensinou que interesse gera expectativa, e que expectativa gera decepção. Então a chave para evitar a decepção é evitar o interesse. A é igual a B, que é igual a C, que é igual a A, sei lá... Também não tenho interesse em ser uma pessoa boa ou má. Pelo que eu vejo, de qualquer jeito, você está ferrado. As pessoas más são punidas pela Lei da sociedade (cena de um ladrão sendo fuzilado pela polícia). E as pessoas boas (cena de uma mulher caindo da cerca onde tinha subido para tirar um gato da árvore) são punidas pela Lei de Murphy".

Momentos antes, estava pensando em algo que achei curioso. A Teoria da Relatividade tem seus limites de validade. A Física Quântica também. Não são completamente compatíveis uma com a outra. Existem situações que devem ser tratadas sob o ponto de vista relativístico e existem situações que devem ser tratadas sob o ponto de vista quântico. O que se sabe é que nenhuma das duas descreve a natureza perfeitamente. Chega uma hora em que não dá mais para aceitar uma delas e deve-se partir para a outra. Bem, o ponto é: são teorias extremamente abrangentes, mas nem de longe são incontestáveis. Coisa que a Lei de Murphy parece ser... E talvez esse seja seu aspecto mais sinistro: pior que as máximas "se existe a possibilidade de algo dar errado, dará" e "nada está tão ruim que não possa ser piorado" é a noção de que isso vale sempre, independente das peculiaridades da situação, da casca de banana no chão às balas "perdidas" nas favelas cariocas.

A Lei de Murphy é, essencialmente, uma lei probabilística. Ou melhor: é a Lei das Probabilidades. É ela que determina a probabilidade de um evento ocorrer ou não. E como a natureza se comporta dessa forma - ponto comum entre Relatividade e Quântica - é, no fundo, a Lei de Murphy que melhor a descreve. As piadas relacionadas decorrem do egocentrismo humano. Infortúnios cotidianos normalmente atribuídos à ação nefasta da Lei de Murphy são facilmente explicados quando observados do ponto de vista das probabilidades. "Ah, entrei na fila lenta no supermercado". Bem, quantas filas existem em um supermercado? Normalmente, várias. E somente uma pode ser a mais rápida. Logo, todas as outras são, comparativamente, filas lentas... Azar mesmo seria entrar na fila mais lenta! Mas é claro que só um cego vai achar que a fila rápida será aquela em que o típico "tiozão do churrasco" - aquele senhor de cabelos grisalhos, com uns "quilinhos" a mais extremamente mal-distribuídos, que, especialmente às vésperas de feriado, enche o carrinho de picanha, cerveja e demais apetrechos para churrasco; e "x" vezes em dez, para a compra com várias notas de R$10,00, frutos óbvios do rateio dos custos com vários amigos, todos quase tão folclóricos quanto ele próprio - segue o jovem pai-de-família fazendo as compras do mês com a esposa e o filho pequeno.

Mas se o problema fosse apenas essas situações que a Matemática tão gentilmente estampa nos exercícios de seus livros ("se um hotel tem três portas de entrada e dois elevadores, de quantas formas diferentes um hóspede pode chegar a seu quarto?"), nem estaria tão ruim assim. O problema é que a Lei de Murphy consegue o quase impossível: atribuir números para coisas que, normalmente, não são quantificadas. Tomemos, por exemplo, o amor.

É somente à luz das probabilidades que o amor adquire seu significado sublime. Para começo de análise, deve-se focar em um indivíduo qualquer. Esse perfeito fulano tem seus gostos próprios, suas preferências. Assim, é natural que se sinta atraído por determinado tipo de pessoa. Ora: assim como ele, as outras pessoas também têm seus gostos. Há uma probabilidade - e apenas isso - de que, entre as pessoas que atraem nosso fulano, exista uma beltrana que se sente atraída pelo tipo de pessoa que ele é. Calcular isso é, a priori, muito simples: o universo é o conjunto das pessoas pelas quais ele se sente atraído e o numerador é o número de indivíduos desse conjunto que se sentem atraídas pelo tipo de pessoa que o fulano é. O problema, é claro, é saber o numerador e o denominador. Por dois motivos. Primeiro porque, para não usar nenhuma aproximação, o conjunto universo do problema deve contemplar todo e qualquer ser humano que reúne as características pré-definidas como atrativas ao nosso fulano - sim, a menos que você tenha algo contra as asiáticas, a China é um problema. Isso pode ser solucionado assumindo que, para efeitos práticos, pode-se simplesmente fazer uma amostragem séria - e não tendenciosa, como as pesquisas eleitorais divulgadas por alguns periódicos de qualidade duvidosa... O segundo problema é conhecer suficientemente bem os indivíduos da amostragem para saber que tipo de pessoa os atrai. Além disso tudo, há ainda o patente problema de duas pessoas com esses gostos em comum encontrarem um ao outro, se conhecerem melhor e não descobrirem nada que considerem repugnante no outro. Então, as probabilidades do problema são três: primeiro, a probabilidade de encontrar um ser humano que atraia o nosso fulano; depois, a probabilidade de, entre os seres humanos pelos quais ele se sente atraído, existir um que se sinta atraído por ele; e por fim, a probabilidade de esses dois sujeitos se encontrarem e etc. Como os eventos são dependentes um do outro, a probabilidade total é o produto das probabilidades individuais. Ou seja: encontrar o "amor da sua vida" é quase como ter a Lei de Murphy agindo sobre si mesma, provocando um desastre em suas próprias probabilidades. Meu Deus: o amor é um desastre probabilístico! É mais fácil topar com um raio que com sua alma-gêmea! "Jogue suas mãos para o céu/ Agradeça se acaso tiver/ Alguém que você gostaria que/ Estivesse sempre com você/ Na rua, na chuva, na fazenda/ Ou numa casinha de sapê"!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Síndromes curiosas

Há alguns anos, li no blog da Paulinha um interessante texto sobre o que ela chamou de Síndrome Nacional do "Menos Pior". Talvez seja a aproximação de uma nova eleição, ou o pressentimento de um novo desastre eleitoral, ou simplesmente um desejo irriquieto do meu gúliver, não sei, mas deu vontade de escrever sobre síndromes curiosas que acometem o ser humano e, em particular, os brasileiros.

  • Síndrome do segundo lugar

A melhor hora para se evidenciar essa síndrome é durante a apuração do desfile das escolas de samba.
Escola de samba é que nem time de futebol: tem torcida. Mas nem todo mundo torce para alguma escola em especial... Assim, quando a apuração vai ao ar na Quarta-Feira de Cinzas, um monte de gente liga casualmente a TV e desencadeia aquilo que chamo de síndrome do segundo lugar. Na indiferença sobre qual escola deve ganhar o carnaval, parece que tendemos a criar um enredo próprio para a apuração. A história do evento passa a ser mais importante que seu resultado. Queremos que ela seja a mais emocionante possível. E quem não se empolga diante da possibilidade de uma virada na classificação? Isso nos leva a "torcer" pela escola que, naquele momento, está em segundo lugar. É só pelo prazer de ver uma reviravolta, choro e ranger de dentes naqueles rostos que ainda há pouco cantavam vitória. Afinal de contas, pimenta, nos olhos dos outros, é colírio! Não se cria nenhuma simpatia pela escola "escolhida" e nem se dará alguma importância ao resultado depois, não importando qual seja.
Também é possível perceber tal síndrome em corridas de Fórmula 1 e praticamente qualquer outra disputa insossa que passe na TV em sábados, domingos e feriados.


  • Síndrome da festa infantil
É a síndrome que acomete a política brasileira. No Brasil, há três tipos de políticos: os que gostam de pizza, os que gostam de bolo e os que gostam de refrigerante. A associação é, respectivamente: governistas, oposição e resto. O curioso é que embora as pessoas e os partidos variem com o tempo, as posturas não. A oposição sempre vai fazer mil denúncias sobre pessoas ligadas ao governo, criando um "bolo" - curioso como é difícil ver o contrário... O governo, por sua vez, sempre vai querer defender sua própria imagem e levar o caso para a famosa "pizza". Nesse bolo, sempre há uma tendência ao exagero no fermento, com a instauração de CPIs e convocações de ministros da base governista. Se alguém cair, é vitória. E no meio dessa história, há aqueles que nunca são governistas e estão sempre dispostos a criar alguma efervecência em nome da ética: a turma do "refrigerante", que, hoje em dia, tem sua representação mais expressiva no PSOL. Sim, isso foi uma ironia: tanto governo quanto oposição desprezam a turma do refri. A criança mesmo não é importante - só a festa. E neste país em que se trabalha duro para que nada seja feito, reina uma democracia gorda, preguiçosa e desajeitada.


  • Síndrome do Salmo 91
Essa vale só para o Presidente da República e só quando a Globo gosta do sujeito: "mil cairão a tua esquerda e dez mil a tua direita, mas tu não serás atingido". Curioso é que a proporção é mais ou menos essa mesma... Lula tem demonstrado bem isso: divide um "mar vermelho" e é mais atingido nas peladinhas na Granja do Torto que na cena política.


Por hora, é isso. Se alguém souber ou detectar mais alguma síndrome curiosa, por favor, me comunique!

terça-feira, 8 de abril de 2008

O almoço

Há certas coisas que mudam a gente. Naquela manhã, acordei diferente e me comportei como de costume. Levantei, tomei um banho, desci as escadas, tomei o desjejum, voltei ao meu quarto e troquei de roupa. Até aí, tudo mecânico. Foi na hora de calçar o tênis que as mudanças começaram a se manisfestar. Olhei para a calça verde levemente desbotada (de propósito) e decidi que não usaria o tênis de sempre. Peguei emprestado o All-Star de meu pai: sim, meu pai tem um! E o clássico ainda por cima, preto! Camisa preta com detalhes verdes, um sujeito "fashion", só faltando óculos escuros e Sweet Child O' Mine nos fones de ouvido, lá fui eu pra universidade.

Na hora do almoço, indo para o RU, me vi diante de uma cena vivida dois anos e meio atrás. O mundo não era mais o mesmo porque eu, para variar, sabia o que não devia: os mistérios da vida e da morte. Novamente eu sabia que alguém tinha morrido. Dessa vez, porém, não era surpresa. Da outra vez, tinha sido absolutamente chocante constatar o fato porque nem de longe o esperava. Depois, acabou parecendo plausível... Como o de agora. Ninguém ligado à universidade, dessa vez. O nome dele é Felipe. Mas antes fosse aquele Felipe de alguns textos atrás. Esse é de carne e osso. Carne, osso e sangue. O ser cuja existência parecia ter como único propósito me dar um puxão-de-orelha. Rafael, é feio criar um alter-ego. As pessoas não aceitam bem isso... Deus o moldou à perfeição, como Lhe é peculiar. Começou pelo nome. Depois, o resto. Felipe tinha exatamente a mesma doença que eu. Tratava com a mesma médica, inclusive. Os pormenores do caso diferem muito pouco para serem apreciáveis. Como o Felipe detetive, convenientemente quatro anos mais velho, também... Em uma das consultas de controle, minha médica comentou sobre ele e pediu que minha mãe e eu "déssemos uma força" a ele. Fui à casa dele. Quando ele veio atender a porta, quase caí duro: Felipe era um homem! Tinha corpo, falava, andava, pensava... Felipe vivia! Quero dizer: o Felipe que eu criei! Estava ali, parado na minha frente, sem tirar nem pôr, e passando pelo mesmo problema que eu - com o mero atraso de alguns meses. Era como se a parte de mim a que chamo "Felipe" tivesse saído do meu corpo como um vapor, se condensado e virado outro ser humano. Obviamente, ao que pude constatar durante a conversa, a personalidade do personagem e do homem eram completamente diferentes. Enquanto um esbanjava uma auto-confiança até irritante (a famosa "marra"), o outro segurava a tensão como uma pessoa com Mal de Parkinson segura um copo d'água. Naquele momento, soube que Felipe tinha uma postura potencialmente perigosa para quem ia se submeter a um transplante de medula óssea. Duas semanas depois de sua internação, ele veio a falecer. Já tinha passado a fase da quimioterapia e até o transplante em si. Mas o perigo é constante naquele tratamento: mesmo uma semana depois, os quimioterápicos ainda estão lá, ativos e perigosos. Na verdade, eles ficam agindo por alguns meses, mas é melhor nem falar disso... Resultado: o coração de Felipe não agüentou.

Como da outra vez, minha tristeza fazia os sorrisos alheios parecerem insultos. Novamente pensei no jejum de carne. Entrei no RU. Havia outras quatro pessoas comigo e me sentia sozinho. Felipe não me saía da cabeça: como era possível? Um rapaz aparentemente tão forte... Seria assim tão decisivo o fator psicológico? Eu custava a acreditar...

Coloquei a bandeja sobre a mesa e me sentei. O mundo sumiu e apenas vi meu prato. Temperei a carne com pimenta vermelha e ataquei-a como um canibal. Quando por mim rezaram e me salvaram, quando alguém foi embora (mas não) para sempre, ou percebi o que de melhor me restava, ou quando soube que essa era a única forma de não morrer eu como. Não sou ainda esta potência, esta construção, esta ruína. Puxo o prato, aceito a carne e seu sangue.*

*: recomendo a leitura do conto "O jantar", de Clarice Lispector.

terça-feira, 11 de março de 2008

Leaving Neverland

Certa tarde eu estava no terraço de casa e vi uma pipa voando. O sol estava se pondo atrás de um morro em sua eterna rotina. A pipa era de um vermelho vivo feito sangue arterial e riscava o céu avermelhado de inverno em improváveis acrobacias. Olhei em volta: ninguém à vista. Nem em casa, nem em qualquer lugar das redondezas. Permiti-me deitar no chão e ficar observando a pipa.
Pensei na magia por trás daquele objeto tão simples e - paradoxalmente - tão complexo. Durante todo o período que, até então, tinha chamado de infância, nunca tive muita vontade de soltar pipa. Afinal de contas, que graça há? Foi somente aí, ao me fazer, pela primeira vez, essa pergunta de forma explícita, que percebi o que havia de tão mágico em uma pipa. A graça não está em soltar, em empinar a pipa; mas em fazer a pipa. A escolha do papel, a armação das varetas, a colagem, a rabiola... Só as crianças sabem fazer pipas de verdade. Porque uma pipa é, antes de tudo, o mais perfeito retrato da alma da criança que a fez. Talvez tenha sido por isso que nunca consegui ver graça na brincadeira: nunca tinha sido eu mesmo que tinha feito a pipa. Mas isso, por si só, não explicava minha comoção.
Aquela pipa não estava solta. Amarrado nela havia um cordão, uma linha. E na outra extremidade daquela linha, havia, certamente, a mão de uma criança. Essa era a mágica! Embora não pudesse ver a criança, percebi a linha como um prolongamento de seu braço. E sendo a pipa o retrato de sua alma, aquilo era voar. Naquele momento eu atinei para a verdadeira graça de soltar pipa. Até então, pensava que somente a pipa se divertia, pois somente ela voava. Mas não! Fazer a pipa dançar no céu era soltar a própria alma, era liberdade! As improváveis piruetas que a pipa descrevia não eram nada senão a própria imagem das revoluções da alma da criança que a segurava do outro lado da linha. E pensei que nunca tinha sido criança realmente.
Depois daquele dia, vieram primaveras e bichos de goiaba. Ambos me mostraram que ainda tenho muito em que pensar. E que, por sorte, de algum modo, ainda conservava algo de essencialmente infantil em mim. Um certo prazer por coisas que ninguém mais entendia, por assim dizer. Ainda conseguia me surpreender com o mundo à minha volta. Por alguns instantes, conseguia mesmo deixar de ser sério. Talvez seja por isso que todos me julguem esse "quadradão", "nerd" e o que mais se queira. Porque pouca gente ainda tem os ouvidos necessários para ouvir as gargalhadas de minha alma.
Mas tudo isso mudou. Depois de minha defesa de mestrado, não tive um único dia inocente mais. Se antes eu dormia às duas da manhã e levantava correndo no dia seguinte, hoje durmo cedo para acordar cedo, para não me atrasar para meu compromisso com a rotina. Ser adulto é saber não-viver e ter a consciência de que não se vive.
Outro dia estive vendo um trecho de Peter Pan. Sempre foi minha história infantil favorita - uma das poucas coisas que me fazem acreditar que fui criança quando deveria ter sido. Depois, como não consegui ver o filme todo, apelei para a melhor aproximação que dispunha: Em Busca da Terra do Nunca. Bem, falando como crítico de cinema, chega até ser melhor ver o filme do Johnny Depp. Parece ter sido o único filme que, de fato, captou a quintessência da história. Quando crianças, não queremos dormir com medo de ficarmos velhos. Mas o tempo, implacável, nos persegue. E quando ficamos velhos e podemos ficar acordados até tarde, sentimos vontade de dormir, na esperança de voltarmos a ser crianças por um piscar de olhos que chamamos sonho...