domingo, 18 de janeiro de 2009

O doce veneno do... silogismo!

Segundo a Wikipedia, silogismo (do grego antigo, "conexão de ideias", "raciocínio") é um termo filosófico com o qual Aristóteles designou a argumentação lógica perfeita, constituída de três proposições declarativas que se conectam de tal modo que a partir das duas primeiras, chamadas premissas, é possível deduzir uma conclusão. Um exemplo clássico de silogismo é o seguinte:

Todo homem é mortal.
Sócrates é um homem.
Logo, Sócrates é mortal.

Quando Aristóteles apresentou a teoria do silogismo, já tinha previsto que, como a conclusão é claramente dependente das premissas, a coisa tinha vocação para boas piadas. Por isso, tratou logo de delimitar oito regras para que o silogismo seja válido. Uma delas é que "de duas premissas particulares, nada se conclui". Não observando as regras do silogismo (basta seguir o link e ter alguma paciência para ler boa parte do artigo), podemos chegar a conclusões visivelmente absurdas - e ocasionalmente engraçadas. Por exemplo:

O amor é cego.
Deus é amor.
Logo, Deus é cego.

Tomando essa conclusão como premissa de um novo silogismo:

Deus é cego.
Stevie Wonder é cego.
Logo, Stevie Wonder é Deus.

Em outras palavras, partindo-se de premissas inválidas pode-se concluir qualquer coisa. Mas, em geral, a conclusão será um equívoco. Por outro lado, se de duas observações particulares não pudesse surgir uma regra universal, não haveria ciência... Esse é o princípio da indução, também obra do criador do pensamento lógico - mas deixemos isso para uma outra oportunidade.

Milhares de anos depois das ideias de Aristóteles serem divulgadas, acessei, por influência de um amigo, um site que achei muito interessante: o Akinator, o Gênio da Internet. Esse sim é um silogismo melhor até que o agregado José Dias! A proposta do "gênio" é "adivinhar" em que pessoa você está pensando por meio de, no máximo, vinte perguntas. Pode até ser que o personagem no qual você esteja pensando nem exista de verdade. E o "cara" é bom: quando o personagem é famoso, coloca até a foto do sujeito! Algumas de suas vitórias sobre mim: Erwin Schrödinger (físico austríaco, um dos pais da Mecânica Quântica), Rubens Barrichello (a última pergunta foi: "o seu personagem fica sempre em 2º plano?"), Paris Hilton (bastaram 12 perguntas), Mark Knopfler (ex-"dono" do Dire Straits, famoso por seus solos de guitarra e suas roupas "limbo da moda"), Irineu Evangelista de Sousa (visconde de Mauá, provavelmente o maior empresário que o Brasil já conheceu), ninguém (respondi "não" para quase todas as perguntas), Honoré de Balzac (escritor francês, autor de A Comédia Humana), Bruna Surfistinha (não é a toa que este texto tem esse título...), Dodi (personagem de "A Favorita") e o que me deixou mais abismado: Carlos Alberto Bejani (com foto e tudo!). O segredo para vencê-lo é pensar em pessoas ou personagens pouco conhecidos. Por exemplo: ele quase sempre erra quando a personagem em questão é Hilda de Polaris (personagem da série Os Cavaleiros do Zodíaco) e praticamente desconhece Georgia "George" Lass, personagem principal do (extinto e bem pouco conhecido) seriado Dead Like Me - A morte lhe cai bem. A falha acontece porque o Akinator se baseia num enorme banco de dados. Ele faz uma comparação entre as suas respostas (formadoras de suas premissas) e as respostas que seriam esperadas para aquela pergunta. Tolera até uns três erros. E o que é pior para ele: ainda não sabe que resposta esperar para algumas perguntas. Por exemplo, no caso da Georgia Lass, ele errou porque ainda não constava em seu banco de dados a resposta para a pergunta "seu personagem tem pernas?". Com uma ou outra resposta diferente do esperado e algumas indecisões, ele não consegue levantar as premissas necessárias para descobrir seu personagem, leva o jogo até a vigésima pergunta e arrisca a pessoa que melhor se enquadrou naquele conjunto de características. Achei o site bem interessante. Bom para perder alguns minutos...

Ah, não adianta pensar em seus familiares, amigos, professores ou pessoas desconhecidas da mídia - ele acerta do mesmo jeito!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Dura lex, sed lex

"Quem quer casar com a Dona Baratinha,
que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?"

Em tempos de 13º salário, compras de Natal e crise econômica mundial, achei que cabia um texto sobre economia. Mas coisa simples.

Toda a Matemática que se precisa saber para lidar com bancos é: juros. Ou seja, porcentagem. Juro é o dinheiro que se cobra para emprestar dinheiro. Isso quer dizer, basicamente, que se você emprestar dinheiro a alguém à juros, receberá de volta todo o dinheiro emprestado mais os juros. Enfim, uma das lições mais importantes na vida é quando a mãe fala para o filho lavar as mãos toda vez que pega em dinheiro, pois este circula na mão de muita gente. Sim, dinheiro é coisa que troca de mão com enorme facilidade. Os juros são os responsáveis pela acumulação.

Se não houvesse juros - mas todo mundo pagasse as dívidas -, o sistema seria filantrópico. Mas como banco não é instituição de caridade, a tendência é fazer o fluxo de dinheiro sair dos correntistas para o banco. Para tanto, o que se faz é oferecer uma melhor segurança para guardar o dinheiro das pessoas comuns. Sim, isso é bom. Mesmo se levando em conta o fato de que agora a posse do dinheiro é do banco e ele não só pode como vai usá-lo em suas próprias operações, deixar dinheiro no banco vale a pena. Mas se você deixar o dinheiro na conta corrente, é virtualmente como deixá-lo embaixo do colchão - com a diferença que você ainda paga as despesas de manutenção da conta. Uma opção é deixá-lo na poupança. É claro que, para isso, você precisa ter um excedente - poupança é aquele dinheiro no qual você não vai ficar mexendo toda hora. Isso é porque, no fundo, são as contas poupança que garantem liquidez aos bancos, são o que atestam que eles têm dinheiro. Em outras palavras, deixar dinheiro na poupança é como emprestá-lo ao banco. Por isso, o banco te paga juros sobre ele. Funciona sempre assim: quem empresta o dinheiro, recebe os juros.

E assim, esse texto fica muito simples. Tudo o que se precisa fazer é analisar quem está emprestando o dinheiro e qual é a taxa de juros. Na poupança, você empresta o dinheiro. No cheque especial, você é que pega o empréstimo. Por isso, a primeira dica é: fuja do cheque especial. Não é só pelo fato de ter juros, mas principalmente porque a taxa de juros dele é sempre muito alta - algo em torno de 8% ao mês, se não me engano. Parece-me que existem pouquíssimos cenários em que compensa pegar dinheiro do cheque especial. Todos eles obviamente ligados a investimentos com rentabilidade maior que a taxa de juros do cheque especial - enfim, coisas que não fazem parte do cotidiano de um correntista comum. No entanto, discutirei brevemente um desses cenários no próximo parágrafo: as ações. Por enquanto, basta saber que o cheque especial deve ser encarado como terreno proibido: o valor R$0,00 da conta corrente pode ser comparado a uma cerca eletrificada - com areia movediça do outro lado.

Ultimamente, o mercado de ações não tem atraído muito os investidores por causa da crise econômica mundial. Porém, antes disso, certamente era uma maravilha pensar que, comprando ações que se valorizem com o tempo, se conseguiria mais dinheiro do que se tivesse investido o mesmo valor na caderneta de poupança. A diferença é o risco. A poupança é uma tartaruga, mas é garantida pelo governo. As ações são lebres que podem "se cansar", desvalorizar. O interessante nesse mercado é comprar ações a baixo custo e vendê-las a alto preço: o famoso "comprar na baixa e vender na alta". Ou então, comprar ações e "esquecer" que as comprou para receber dividendos por ocasião do balanço, fazendo assim uma caderneta de ações. Tudo depende do seu estilo. Particularmente, não por conta da atual crise, acho Bolsa de Valores uma coisa perigosa para a saúde. Toma tempo ficar investigando que ações estão subindo ou caindo e tomar decisões de compra e venda. E a susceptibilidade a crises pode levar a desesperos que não acontecem na poupança - a não ser que a economia do país comece a caminhar tão mal que, de repente, a Miriam Leitão comece a falar a palavra confisco.

Outra fonte muito comum de sumiço de dinheiro é o cartão de crédito. Embora, como explicado, seja fato que deve-se "gastar dinheiro para fazer dinheiro", o cartão de crédito pode vir a ser um risco. Porque crédito é um dinheiro que você ainda não tem, que ainda não é seu. Logo, você deve pagar por ele. E assim, todo mês aparece a pior coisa relacionada ao cartão de crédito: a fatura. É nela que surge a tentação: a cobrança mínima. Porque imagine que você está com dificuldades para pagar a fatura do cartão: não é tentador poder pagar apenas 10% do valor total e já impedir que seu nome vá parar no SPC e/ou Serasa? A princípio, sim. O problema é que o serviço não é filantrópico. Assim, deixar de pagar alguma coisa equivale a pedir emprestado exatamente aquela quantia. Essa quantia fica acumulada para o mês seguinte e lhe serão acrescidos juros. Ou seja: quanto menos você pagar da fatura do cartão neste mês, mais dinheiro perderá no mês seguinte. Via de regra, os juros do cartão de crédito nunca são tais que se torne interessante encará-los. Portanto, é importante ter dinheiro para quitar a fatura. Por isso, é conveniente que você escolha o dia do vencimento da fatura de forma que este seja próximo ao dia do seu pagamento - dia 9 é um ótimo dia. Só não digo que é aconselhável deixar a fatura em débito automático porque sempre há o risco de, com isso, entrar no cheque especial - e isso seria trocar um problema por outro. Porém, aí é uma situação que vale a pena analisar: qual dos dois tem a taxa de juros mais baixa? Se não há como fugir da dívida, ao menos deva somente a quem cobra a menor taxa de juros. Neste caso, segundo me informou uma amiga que estava estudando o assunto, sai mais em conta dever ao cheque especial - me parece que a taxa de juros mais baixa em cartão de crédito é de 14% ao mês.

Por fim, gostaria de, rapidamente, enunciar três "leis" que resumem tudo que falei aqui, que são um guia para quem deseja levar uma vida tranquila no tocante a dinheiro. Como diz meu orientador, "As Três Leis de Carlinhos" (o ex-orientador dele se chama Carlos Eduardo):

1ª lei: escolha bem com quem você vai se casar. Não precisa ser pessoa rica, mas alguém que também tem vontade de crescer, alguém que também queira trabalhar. Essa é a "lei" mais importante. Pois mais importante que trilhar o caminho é escolher quem vai te acompanhar nesse caminho.

2ª lei: tem que sobrar dinheiro no final do mês; não mês no final do dinheiro. Resumo da economia doméstica. Como fazer isso pode ser um desafio maior ou menor dependendo da personalidade de cada um. Mas, em geral, um bom jeito de ter controle sobre as contas é definir as prioridades. Tudo aquilo que puder se reverter em lucro para você, não é gasto; é investimento. Gasto mesmo é aquele dinheiro que você nunca vai conseguir recuperar. Aluguel, por exemplo, é investimento: se você não tem onde morar, vai ficar difícil conseguir um monte de coisas... Cursos de línguas (principalmente inglês, que já está absolutamente fundamental) e plano de saúde também. Se você não investe nessas coisas, um monte de portas te são fechadas. Todo tipo de diversão é, em essência, um gasto. Logo, só comece a gastar dinheiro depois que tiver cuidado de todos os investimentos. Em tempo: nenhum país do G8 fala espanhol, logo não invente um curso de espanhol "porque é fácil". Só faça se houver a possibilidade gritante de se mudar para a Espanha, porque se não for para lá, é preferível fazer francês, italiano ou alemão e tentar alguma coisa em algum outro país da Europa. Mandarim também é muito bacana, a China vai dominar o mundo, mas você não vai para lá - a lotação daquele país já está esgotada.

3ª lei: tente guardar 20% de tudo o que você ganha. Dá até para colocar isso como um dos investimentos acima. Independente de você ter uma caderneta de ações, aplique esses 20% num fundo de baixo risco, como a poupança. Garanta moradia, alimentação e educação, depois esses 20%. Aí gaste. Diversão também deve fazer parte da vida - cheque especial é que não.

Em adição a essas "leis", podemos falar algo sobre "o sonho da casa própria". Como dito, moradia é fundamental. Logo, é natural pensar que a casa própria é melhor que aluguel. Nem sempre. É bem verdade que uma hora a casa própria se paga pelos aluguéis que você deixou de precisar pagar. Mas até lá, o caminho é longo. De fato, a casa própria só vem depois do cumprimento das "Três Leis de Carlinhos". É muito comum precisar de um financiamento para a compra da casa própria. Nessa hora, compare o IGP-M (controla o reajuste dos aluguéis) com a taxa de juros do empréstimo. Se a taxa de juros do financiamento for menor que o IGP-M (inclusive o previsto para o prazo de pagamento), vale a pena. Nessa situação, é como se você pagasse aluguel para você mesmo. De toda forma, procure reduzir ao máximo o valor do financiamento: é a hora de empregar a poupança...

Não faça "economia de palito". Não vale a pena ficar economizando em coisas pequenas e perder rios de dinheiro na hora de comprar um carro ou uma casa.

sábado, 22 de novembro de 2008

Timetwister

Eu estou em 22 de novembro de 1983. É uma terça-feira, são dez para as cinco da tarde e venta forte na cidade. Um choro de criança corta o ar: garotos também choram.
Eu estou em 24 de fevereiro de 2002. Acabo de encontrar o valor 89/63 como resposta da segunda questão da prova de Matemática do PISM III. São dez horas da manhã e faz calor. Entrego a prova, a fiscal sorri para mim e vou-me embora com uma grande interrogação a me torturar.
Eu estou em algum dia de março de 2009. O rosto de todas as pessoas na sala de cinema fica azul pela fluorescência inventada do Dr. Manhattan. Poucos conseguem ver o tempo da mesma forma.
Eu estou em 1990. Caniggia faz o gol que elimina o Brasil da Copa. A Seleção não era tão boa assim, mas tenho apenas sete anos e não compreendo isso. Desgosto do futebol.
Eu estou em 2000. Num júri simulado, defendo Capitu. Lanço sombras sobre todas as evidências da acusação e reflito que o Direito é, na verdade, sinistro. Descubro-me perdidamente apaixonado pela Verdade.
Eu estou em 1984. Minha primeira experiência com eletricidade: sabe-se lá como, tiro a capinha da tomada e... Bem, meu primeiro contato com elétrons livres é chocante.
Eu estou em 1995, num dia qualquer. Desembarco do Xangai para um Colégio coberto por densa neblina.
Eu estou em 20 de dezembro de 2005. Acabo de ler, pela primeira vez, O Pequeno Príncipe. Corro ao computador e anoto várias passagens em um documento.
Eu estou em 1986. Rolo pelas escadas da casa nova. Paro no último degrau, que é mais largo. Aprendo que toda escada começa no primeiro degrau.
Eu estou em 28 de fevereiro de 2008. São cinco da tarde e meu orientador de mestrado lê a ata da sessão de arguição de minha Dissertação. Sinto-me mais leve ao ouvir as palavras "concluindo pela aprovação".
Eu estou em novembro de 1994. Mergulho na piscina de um hotel fazenda. O doce de leite depois do almoço adquire sabor transcendental.
Eu estou em 18 de agosto de 2000. Ao sair do teatro, decido que os acontecimentos daquela noite não poderiam ser esquecidos. Inicio um diário.
Eu estou em 1993. Aprendo que as pessoas não gostam de apelidos.
Eu estou em fevereiro de 1988. Sentado nos ombros de meu pai, descubro que carnaval é uma palhaçada.
Eu estou em 1º de março de 2006. Estudo Química Orgânica para a prova do mestrado. Nisso descubro que carnaval não é palhaçada.
Eu estou em dezembro de 1993. Assisto ao São Paulo ser campeão mundial pela segunda vez. Redescubro o futebol.
Eu estou em 5 de julho de 2007. Um profundo céu azul brilha atrás do vidro translúcido da única janela do quartinho verde onde estava. Sinto-me feliz por perceber o tempo de maneira desordenada.
Eu estou em 23 de maio de 2002. Patrícia e eu vamos ao cinema ver Homem-Aranha. Surge uma amizade enigmática, mutante e simbiótica.
Eu estou em 1998. Monto um grupo de estudos com dois dos melhores seres humanos que já conheci. São os irmãos que escolhi.
Eu estou em outubro de 2010. O relógio do Parque Halfeld marca 19:00hs. Ao meu lado, rostos conhecidos que não via há muito tempo. Alguns mudaram mais que outros.
Eu estou em 13 de dezembro de 2002. Jogo boliche pela primeira vez. Apaixono-me pelo som do strike (a jogada, não a banda) e vejo o esporte como uma terapia.
Eu estou em 1985. Mamãe me coloca sobre uma cadeira posicionada contra a janela da rua para ver os "meninos grandes" jogarem bola. O jogo acaba quando começa a chover.
Eu estou em 22 de dezembro de 2003. Com O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel, surge o "Cine Alameda VI".
Eu estou em 4 de junho de 1993. Pelo telefone, às nove e meia da noite, recebo a notícia de que tenho um irmão de sangue: seu nome é Lucas.
Eu estou em 22 de novembro de 2008. Estou postando este texto em meu blog. Esta é minha história.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Riddikulus!

*: espero, com este texto, desrespeitar apenas as novas regras gramaticais da Língua Portuguesa.

Escrevo este texto para as pessoas de Juiz de Fora (e aquelas que a vêem como sua casa) que, por uma ou outra razão, não tiveram oportunidade de acompanhar o 1º turno das eleições municipais.

Alguns textos atrás, previ um desastre eleitoral. Felizmente, errei. Contudo, não tão fortemente quanto gostaria. Mas até que isso teve suas compensações tragicômicas...

Depois da saudosa Operação Pasárgada (mais uma operação devastadora e de nome maneiro da Polícia Federal) o não-saudoso ex-prefeito ex-radialista sempre-polêmico Alberto Bejani acabou renunciando e - convenientemente - abrindo mão de concorrer ao cargo de prefeito dessa querida cidade. Isso foi o que aconteceu de melhor.

Mas embora Bejani - famoso por suas campanhas risíveis e incrivelmente bem-sucedidas - não tenha participado do processo, o eleitor juizdeforano não ficou desamparado no quesito "risadas". Entre os candidatos a vereador, tivemos gente quase-literalmente chorando a não-aprovação no "vestibular eleitoral" de quatro anos atrás ("Me ajude! Me ajude! Me ajude!" - detalhe: dessa vez, FOI ELEITO!), sambinhas ("Agora é... Mamão... quinze-meia-dois-zero, o candidato que eu quero... um amigo de bom coração"), "visões celestiais", "uhuhuh", sacudidas na cidade e outras piadas. Mas não consigo ver nada que encarne melhor o espírito tragicômico do processo eleitoral no Brasil que a propaganda do candidato Luiz Carlos Hort Frut. Único candidato de seu partido, mal se dava ao trabalho de falar sobre as suas propostas - usava o tempo para falar do programa de governo do candidato a prefeito que estava apoiando. Tudo bem que quase todo partido pede para o candidato a vereador, no final de sua fala, pedir um voto para o candidato a prefeito da coligação. Mas esse caso foi bizarro. Ficou entre o puxa-saquismo e a inocência. Por quê? Porque o candidato a prefeito em questão foi aquele que praticamente substituiu Bejani na questão da campanha risível com propostas absurdas: Omar Peres. "Sou pobre mas não sou burro! Só trabalho com o que faz bem para a saúde: verduras, frutas... E na câmara não serei diferente. Estarei junto com Omar..." etc.

Acho que agora, passada a eleição, podemos dizer com convicção que a aventura política do dono da TV Panorama acabou. Ou pelo menos deveria acabar - no lugar dele, eu é que não me candidataria novamente. Embora Omar tenha acabado sendo punido por tentar difamar a imagem de outro candidato, seu maior crime foi outro: tentar repetir na "microestrutura" juizdeforana o que Silvio Berlusconi fez na "macroestrutura" italiana, ou seja, eleger-se. Seu castigo foi se tornar motivo de riso para a cidade inteira. Para quem não teve a oportunidade de estar em JF para tomar contato com as propostas "salomônicas" de Omar, enumero algumas. A primeira foi o Cartão Saúde. De maneira geral, parece que o tal cartão funcionaria como qualquer cartão de plano de saúde por aí. Com o detalhe de que as consultas e exames seriam pagos pela Prefeitura... De onde viria o dinheiro, ninguém sabe. Mais que isso: na necessidade de algum medicamento, haveria um convênio entre Prefeitura e Correios para que os mesmos fôssem entregues nas residências dos pacientes. Ainda na área de saúde, ele prometeu o Hospital da Zona Norte. Mas isso é até lugar-comum, pois todos os candidatos fizeram essa promessa - possivelmente, cada um tentando polarizar os votos de uns 25% do eleitorado. E a última promessa realmente "de vulto" feita por Omar foi o trem de superfície. A idéia parecia simples: voltar com o Xangai. "Só que mais moderno", como ele dizia logo antes de entrar a animação tosca de um trem-bala passando em frente ao Parque Halfeld. Juro que nem em meus sonhos mais absurdos isso já havia passado pela minha cabeça! A imagem era tão inusitada que, penso, se Salvador Dalí morasse em JF, ficaria com inveja! Para completar, após essa promessa, Omar disse que, enquanto o trem de superfície não se tornasse uma realidade, a MRS Logística (empresa proprietária da malha ferroviária que passa por Juiz de Fora) teria de compensar a cidade pelos transtornos causados por seus trens. E que isso seria feito cobrando pedágio de cada vagão que cruzasse a cidade. Com esse dinheiro, construiria casas populares - melhor teria sido dizer que financiaria o Cartão Saúde, mas isso é o de menos. Sinceramente, não sei quem Omar quis enganar com a história do pedágio do trem. É óbvio que a malha ferroviária não pertence ao município. Como ele pode querer cobrar pelo uso de algo que não lhe diz respeito? Se Omar alguma vez teve alguma chance nesse pleito, perdeu depois dessa proposta.

Que o trem é um transtorno, isso é verdade. Qualquer um que tem de passar pela rua Benjamim Constant por volta de uma da tarde sabe disso - tão bem quanto aqueles que passam pelo Mariano Procópio à uma e quinze. Proposta interessante para isso veio de Custódio: construir mergulhões e viadutos. Seria uma solução quase tão "salomônica" quanto as de Omar se não fosse pelo fato de Aécio Neves ter aparecido em pessoa na cidade (no alto de um palanque tucano) para dizer que há 43 milhões de reais prontinhos para serem investidos nessas obras - recursos do Governo Estadual. Pessoalmente, acho a notícia ótima! Não me consta que Custódio, como deputado federal, já tenha conseguido verba tão vultosa assim de uma vez. Mas como candidato a prefeito, tem feito um uso desta proposta que não vejo com bons olhos. A todo momento apelando para o fato de que Aécio é seu companheiro de partido, fala do dinheiro como um grande cheque-caução. Isso é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que escapa da inocência de Omar (mostrando a origem dos fundos), passa a impressão de que existe uma panelinha: o dinheiro existe, mas só virá para Juiz de Fora se Custódio vencer a eleição... Que cada um dê o nome que preferir a essa prática!

Tarcísio Delgado deu claros sinais de cansaço ao fazer uma campanha excessivamente emocional. "Eu amo Juiz de Fora" e afins. Além disso, cometeu um erro gravíssimo: pôs em dúvida a capacidade de "novatos" governarem uma cidade como Juiz de Fora. Foi como comer uma banana, jogar a casca no chão e pisar em cima. Tarcísio não esqueceu que um dia também já foi um "novato" como prefeito - embora tenha cuidadosamente omitido que, naquela época, Margarida Salomão fazia parte de sua equipe de governo. O erro maior de Tarcísio foi levar o tema para o debate final, na TV Panorama. Lá, na primeira rodada de temas livres, perguntou a Custódio o que ele achava do "reducionismo" que tinha roubado a cena na campanha. Evidentemente, Tarcísio tinha em mira os slogans de Margarida ("a fila tem que andar"), Omar ("chega de ex, agora é 43") e Rafael Pimenta ("pimenta neles"). Custódio se juntou a Tarcísio como se fizessem parte de uma sociedade secreta. Na réplica, Tarcísio disse que nunca ninguém conseguiu levantar qualquer motivo realmente forte para que ele não voltasse a ser prefeito, que os adversários diziam que ele não podia ser prefeito "porque já tinha sido prefeito" - o que era, como ele mesmo disse, uma atitude "irracional". Na rodada de tema livre seguinte, Margarida fez uma pergunta extremamente capciosa a Omar: perguntou-lhe se a experiência de empresário o credenciaria para ser prefeito. Omar, é claro, disse que "sim" (quase agradeceu a pergunta!) e desfraldou boa parte de seus feitos passados. Margarida, então, concluiu que "toda experiência é válida" e que "tão irracional quanto dizer que alguém não pode ser prefeito por já ter sido prefeito, é dizer que alguém não pode ser prefeito por nunca ter sido prefeito antes". Tarcísio segurou lágrimas de sangue durante o resto do debate. Acabou derrotado nas urnas. No segundo turno, seu filho, Júlio Delgado, conhecido desafeto do PT de Margarida, apoiou Custódio. O PMDB, no entanto, apoiou Margarida. Tarcísio, na última semana de campanha, seguiu o partido e declarou apoio a Margarida - retirou-se da política de forma elegante, afinal.

Rafael Pimenta (do PCB) fez uma campanha discreta. Fez muito menos vista que Victor Pontes, candidato do PSTU. Este, do alto de seus 21 anos de idade, mostrou um talento nato com palavras. Não foram poucas as pessoas que me disseram que apenas não votaram nele por causa do partido - o que certamente é um perigo, sendo ele um sujeito tão jovem.

Segundo turno: Margarida e Custódio. Lula - até então se mantendo afastado por seu enorme respeito a Tarcísio - entra na campanha de Margarida. A opinião das pessoas com quem tenho conversado sobre o assunto é de que Custódio tem baixado muito o nível da campanha. Eu digo, então, que ele se tornou um "bicho papão". E contra "bichos papões", façamos como o Harry Potter: na cara dele, digamos riddikulus!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Momentos

"Lembro-me de levantar certa manhã ao amanhecer. Havia tamanha sensação de possibilidade, sabe essa sensação? Eu me lembro de ter pensado: Este é o início da felicidade. É aqui que começa. E, sem dúvida, sempre haverá mais. Nunca me ocorreu que não era o começo. Era felicidade. Era o momento. Naquele exato momento."
(
As Horas)


Há algum tempo, tenho esbarrado nessa passagem. O filme é bom, o livro que lhe deu origem é super-premiado, há zilhares de passagens memoráveis e tal. Mas essa daí em especial... Na voz de Clarissa Vaughan (personagem de Maryl Streep) assumiu um tom de axioma: felicidade é isso e pronto. No entanto, por mais bela e reconfortante que seja, nunca me senti perfeitamente à vontade com ela. E para explicar a razão disso, peço licença para parafrasear o trecho acima:

Eu me lembro de uma noite em que Fábio, Janaína e eu resolvemos lanchar na esquina da Santo Antônio com a Rei Alberto. A limonada suíça veio terrivelmente amarga. Sabe quando a limonada passa do ponto? E lembro que Fábio e Janaína reclamaram do refresco, pediram mais açúcar e até água para o diluírem. Eu estava conformado. Janaína, então, disse que minha postura era felicidade. Não era o momento, mas o conjunto. A felicidade, afinal, era algo sereno, constante.

Essa foi a primeira vez que pensei na felicidade dessa forma. A outra vez foi em uma conversa que tive com meu orientador de doutorado... Estava ele, basicamente, reclamando da não-constância na velocidade com que meus resultados aparecem. Segundo ele, isso passa a impressão de que há momentos em que eu trabalho mais e momentos em que eu diminuo o ritmo. Cansaço? Sim... Mas poderia ser um certo "marasmo" também, despreocupação. Até seria justificado pelo que passei ano passado. O que realmente, admito, gera uma sensação daquilo que chamo felicidade. "Essas coisas pequenas... Esses probleminhas que não farão grande diferença se forem resolvidos ou não... Nada disso me importa. Só me importo com aquilo que realmente ameaça meu objetivo de vida".

Um momento, por favor, porque apareceram várias palavras-chave no trechinho acima: diferença, importa, objetivo e vida. Tenho escutado, com freqüência, pessoas dizendo coisas como "eu nasci para ser feliz". Não sei se é porque, mesmo sem me considerar religioso, sempre levei o Eclesiastes muito a sério, mas jamais ousei dizer coisa semelhante. Conceitos de felicidade existem aos montes. Cada ser humano mais ou menos "define" suas condições para a felicidade. O que acho muito curioso é que nunca encontrei alguém que se considerasse feliz! Não sabemos o que queremos? Ou será que a felicidade não é mesmo desse mundo?

Entendo a felicidade como um estado de espírito no qual há perfeita harmonia entre o ser humano e o meio que o cerca. Mais uma vez, o problema é o tempo. Se a nossa vida durasse um período de tempo tal que não nos fôsse possível experimentar um infortúnio, um revés, uma tristeza, talvez chegássemos a ser felizes. Como isso não é coisa que se verifique cotidianamente, jamais somos felizes. O nosso riso é, antes, um momento de alegria - essa, sim, a palavra. A vida é, então, constituída de momentos de alegria e tristeza; jamais de felicidade. Felicidade não é um momento!

A princípio, uma solução trivial para viver na felicidade poderia ser pensada como uma seqüência ininterrupta de momentos de alegria. O resultado dificilmente passaria de um filme do tipo Curtindo a Vida Adoidado, algo bem Sessão da Tarde. A pessoa vive um dia de satisfação e depois amarga o famoso comentário: "teve bom". Apenas uma recordação...

Haveria, então, uma solução para essa busca pela felicidade? Bem, desde que querer nunca é poder (se você quer e pode, você faz/tem; se só fica querendo, é porque não pode fazer/ter), acho que não... Mas há, ao menos, uma boa receita para se viver bem, num estado de serenidade quase-perene que eu, particularmente, acho muito bacana. A receita é conhecida da humanidade desde o século IV a.C.: "O sábio procura a ausência da dor, e não o prazer" (Aristóteles). É bacana porque as alegrias não apenas aparecem naturalmente no caminho (sem serem o objeto da busca!) como ainda tendem a ser mais duradouras. E só metade da felicidade, mas já faz um bem...

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Produto do meio

"I don't want to be a product of my environment. I want my environment to be a product of me"

Assim começa Os Infiltrados, um dos melhores filmes de Martin Scorsese. O que Frank Costello (personagem de Jack Nicholson) não sabia era o efeito filosófico arrebatador que a frase teria em mim!

Já perdi a conta das vezes em que ouvi alguém falar que "o homem é produto do meio em que vive". E até ver Os Infiltrados pela primeira vez, nunca tinha questionado isso. Tudo bem: o filme também não questiona! A intenção é meramente mostrar poder e tal... Mas o mais interessante não é o poder; é a inversão dos papéis. Costello queria que o meio em que ele vivia fosse produto seu, de sua personalidade, de suas opiniões, de seus desígnios. E incutido nesse desejo do gângster, apareceu o erro fundamental do "produto do meio": o homem não é produto do meio; mas uma média do meio.

Oh!, meu Deus! Mais um texto chato do Rafael, à base de uma estatística maluca que só ele entende porque só existe na cabeça dele! Não. Realmente não resisti a fazer a ressalva da média, mas o tema de hoje é a inversão de papéis. E nada de matemática!

Bem, a idéia básica de "o homem como produto do meio" é que o meio modifica o homem. Óbvio, mas precisava ser dito. A proposta de Costello é fazer o contrário: o homem modificar o meio. É uma proposta ambiciosa, pois pode chegar a ser até perigoso existir um homem com poder de modificar um meio - quem já viu Cidadão Kane? Quem não viu pode tomar uma boa base pelo que certa emissora faz com a opinião pública de certo país... "Santa ironia, Batman!" "Oops, I did it again..."

Depois de uns dez minutos de filme pausado logo após as "first lines", cheguei a uma conclusão: evolução existe. Acontece de uma maneira muito, muito peculiar. Funciona assim: no começo, existia o Meio e a Vida como coisas distintas. E até hoje são coisas distintas, mas não tão independentes quanto na Criação. A Vida teve de se adaptar ao Meio Físico para se tornar viável. E as espécies foram evoluindo em busca de uma melhor adaptabilidade ao Meio por milênios - Charles Darwin e sua "seleção natural" explicam isso maravilhosamente bem. Até aí, é sempre o Meio que manda na história. Em algum momento da evolução, surgiu um ser capaz de transformar essa via de mão-única numa via de mão-dupla: o tal do ser humano... Quando eu estava na 1ª série do Ensino Fundamental, meu livro de Estudos Sociais dizia que "o homem modifica o meio". Pronto. Taí. Alguém disse. O homem pode modificar o Meio. Mas isso é só a princípio, porque, na prática, modificar o meio ambiente se tornou uma coisa tão corriqueira para o ser humano que, hoje em dia, é difícil fazer alguma coisa que não o modifique.

Mas o ser humano vai além! Sendo, na essência, um ser social, ele naturalmente modifica seu Meio Social. E isso não dá pra evitar! O muito que Os Infiltrados fez foi colocar uma frase de efeito no começo, porque a idéia de "poder supremo" para influir e modificar o Meio, isso todo ser humano tem como conseqüência do fato de existir. É sério: mesmo que você não faça nada (o que é impossível), o simples fato de você existir e não ser completamente isolado do mundo já modifica o meio em que você vive! As outras pessoas te julgam e isso as modifica. E como as opiniões das pessoas modificam o Meio Social, dá até pra inverter o paradigma: o meio é produto do homem!

Mas calma aí! Ainda não acabou. É fato que as opiniões difundidas no meio em que um homem está inserido o modificam. O homem é produto do meio e o meio é produto do homem, portanto. Que paradoxo! Não, não: é só o âmago do processo evolutivo. Que é um processo cíclico e dinâmico. O meio modifica os homens. Os homens reagem e modificam o meio. O meio modificado, por sua vez, modifica os homens... E assim se cria um ciclo. Talvez seja isso que Franz Kafka quis dizer em O Processo... Estaríamos convergindo para algum ponto? Não sei. A resposta dessa pergunta é literalmente uma questão de crença. Sei apenas que as modificações, de parte a parte, acontecem tão rápido que não nos damos conta de todas.

E sei de mais uma coisa também. A capacidade do ser humano de modificar o meio está atrelada a algo que lhe é característico: a consciência. É ela que nos define como humanos. É ela que controla nossos atos, que molda nossa personalidade. E assim, por mais que o meio nos modifique, sempre conservaremos algo essencialmente nosso, próprio, único, conceitual, diferencial, distintivo. Contudo, esse "algo próprio" não é imutável. A diferença é que somente a própria pessoa pode mudá-lo. Para tanto, é preciso conhecer-se e ter a consciência de que se é mutável e mutante. E é somente aí que se tem, de fato, o tal do livre-arbítrio. E com isso, compreende-se que ele só vem ao preço de uma grande responsabilidade. Mas isso é outra história...

Olha, até que, só por essa reflexão, posso dar uma nota 9,0 pr' Os Infiltrados!