sábado, 11 de abril de 2009

Silêncio

"Quando dizem meu nome, não sou mais. Quem sou eu?"

Quando eu era criança e até nos tempos de adolescência, falava pouco. Não tinha sequer o charme de uma voz rouca ou palavras sábias para compensar isso. Em geral, quando reflito sobre o que falei naquela época, percebo que falei para preencher lacunas - e que nada disse que fizesse alguma diferença. No entanto, a despeito da desconfiança velada de que meu silêncio significava falta de opinião, e talvez até de forma meio irônica, fato é que as pessoas me consideravam "gente fina", no sentido de tranquilo, bacana. Mas não exatamente interessante. Era o tipo de cara bom para completar time em peladas, mas não para formar "time" em baladas. Talvez percebendo isso, talvez só incomodados com minha mudez, o povo do Colégio me aconselhava a falar mais, a expor minhas opiniões.

Lembro-me de ter feito isso uma vez. Foi em 1996, na 6ª série, durante uma sessão da S.O.E. (Serviço de Orientação Educacional). Sabe-se lá porque, as psicólogas da futura "Sessão Psicopedagógica" (e sabe-se lá que nome tem hoje) acharam interessante pedir para aquelas crianças de 12-13 anos de idade escreverem em um pedaço de papel uma pergunta no seguinte formato: "você tira o chapéu para 'insira aqui seu assunto polêmico' ?". Quando abri o papelzinho e li "virgindade antes do casamento", fui acometido por uma vontade quase incontrolável de sair correndo da sala. Lembro que as perguntas anteriores tinham sido sobre coisas bem mais simples, que eu me sentiria bem mais à vontade de responder. Por que o Neves tinha que escrever aquela pergunta e por que o papel acabou vindo parar na minha mão após o sorteio, são questões que talvez se encontrem além de qualquer conjectura. Só de ler a pergunta para a turma, sorrisos de excitação e olhos faiscantes se abriram à minha frente: o cara mais fechado do mundo ia dar sua opinião num assunto que envolvia uma coisa misteriosa chamada "sexo" e outra ainda mais misteriosa chamada "casamento". O Rafael de 12 anos de idade disse em alto e bom tom, para quem quisesse ouvir, que até achava bacana "se guardar" para alguém que considerava especial, mas que caso se sentisse confiante para perder a virgindade antes do casamento, que mal haveria? Cabelos se arrepiaram, um autêntico urro de satisfação e incredulidade ecoou por toda a sala. Quem apostaria que aquele garoto caladão - numa época em que ser assim era meio démodée - simplesmente ia dizer, nas entrelinhas, que o casamento (subentendido como uma cerimônia oficial, geradora de um papel em que vem escritas as palavras "certidão de casamento") era uma prova que o amor verdadeiro torna desnecessária? Não me coloquei contra o casamento, no entanto. Acho a cerimônia muito bonita, mas não é - ou não deveria ser - ela que aumenta ou diminui o amor que uma pessoa sente por outra. Só bem depois é que percebi que minha sincera opinião era, por coincidência, justamente o que a turma dos descolados queria ouvir. A psicóloga me lançou um olhar esquisito enquanto eu ria da vibração da turma. Decidi ser mais prudente e conservador ao expor minhas opiniões. Mantive a boca fechada pelos cinco anos seguintes.

Nos tempos de graduação, fui me soltando aos poucos. De toda forma, continuei com a imagem do sujeito caladão, até misterioso. Mas é que aí comecei a adotar uma tática levemente diferente. Comecei a tentar conversar sem falar e ouvir sem escutar - a ideia de perturbar o som do silêncio nunca me agradou muito. O resultado foi desastroso. A dita "percepção feminina" deu mostras seguidas de não passar de uma lenda. Em certo sentido, posso mesmo dizer que meus amigos homens me compreendiam melhor que as minhas amigas.

Já no doutorado, decidi mudar de tática novamente. Comecei a falar, mas não a me explicar. Queria ver se as pessoas faziam como eu e tentavam ver cada situação sob todos os ângulos possíveis antes de formar uma opinião. Não fazem. Ou melhor: poucas fazem. Muito poucas mesmo. O resultado foi catastrófico: as pessoas passaram a formar opiniões quase maldosas de minha pessoa. Boa parte disso se deve, é claro, a estratégia que usei para expor minhas opiniões. Mas acabou-se por formar um maldito rótulo, que levou a preconceitos, desconfianças e conclusões precipitadas - além de revelar orgulhos insuspeitos. Eu podia ter a melhor das intenções que era visto como esnobe e coisas ainda menos nobres.

Estimulado a falar, o sempre quieto e bem quisto Rafael se transformou num desagradável orador. As pessoas reclamavam de eu não falar. E agora reclamavam de como eu falava! A meu ver, aquilo era querer demais. Era como ser "preso por ter cão" e "preso por não ter cão". Ou de forma ainda mais precisa, a situação me lembrava o mito do nó górdio: Alexandre da Macedônia resolveu o intratável problema do nó que ninguém conseguia desatar com o nada convencional expediente de parti-lo ao meio com sua espada.

Enquanto torrava os miolos pensando num meio de desatar o bendito nó que me era apresentado, uma estranha solução preparava sua aparição. Sorrateira, a doença que corroeu meus dias de 2005 a 2007 voltava: o silêncio crescia como um câncer... E agora, à mera menção de um problema tratável, mas potencialmente doloroso, tudo se ajusta novamente. No hay banda!

domingo, 15 de março de 2009

"Who watchs the Watchmen?"

"À meia-noite, os agentes e super-humanos saem
pra prender todos que sabem mais do que eles"
(Bob Dylan, Desolation Row)

No último dia 6, chegou aos cinemas a adaptação da graphic novel tida como a obra-prima do roteirista Alan Moore: Watchmen. A despeito do fato de que aguardava ansiosamente o lançamento desde outubro do ano passado, pus-me a pensar: como tem aparecido filmes baseados em quadrinhos ultimamente! Três filmes do Homem Aranha, dois do Batman (sem contar os quatro "antigos"), dois do Quarteto Fantástico (com direito ao Surfista Prateado pegando uma onda no segundo), um "revival" do Superman, Homem de Ferro, três X-Men e vindo um contando a origem do Wolverine... Nesse meio, como imaginação pouca é bobagem, o Hulk veio parar em plena Favela da Rocinha com direito ao FBI subindo o morro - inveja do BOPE? Claro que isso não podia dar certo: o verdão "Dr. Jekyll and Mr. Hyde" moderno conseguiu a façanha de, duma cena pra outra, saltar do Rio de Janeiro direto pra Guatemala! Não fosse uma tremenda burrada, seria tão genial quanto o famoso corte de Kubrick em 2001: Uma Odisseia no Espaço! Mas o que me chamava a atenção é que eu, em minha quase total ignorância do universo (ou, em alguns casos, multiverso) das HQ, já tinha ouvido falar em praticamente todos esses citados aí em cima. Watchmen, junto com Constantine, A Liga Extraordinária, V de Vingança, Sin City e 300, entra num outro grupo: os menos conhecidos. Ou melhor: conhecidos pelos "iniciados", pelos frequentadores de lojas especializadas.

Quando criança, me deleitava com os gibis da Turma da Mônica e Duck Tales. Na adolescência, escolhi não partir para as óbvias HQ de super-heróis ao recusar solenemente o conselho do jornaleiro para comprar "A Morte do Superman". Então, aceitei que meus heróis ou morreriam de overdose, ou seriam ganhadores do Nobel. Um cara que se veste como morcego? Outro que usa a cueca por cima da calça? Eles não fariam parte da minha vida. Seriam apenas um capítulo vago, uma visão distante. Mas eis que, de repente, surge uma oportunidade de "tirar o atraso": depois de anos de conversa, finalmente ia sair um filme do Homem Aranha... Beleza! Pra que ler aquele montão de revistinhas? Se esse filme desse certo, lançariam mais um monte de filmes de super-herói. E aí, Saga do Clone, A Piada Mortal, Crise nas Infinitas Terras, Marvel vs DC, hã? Fui ao cinema feliz da vida: toda a adolescência que eu teria passado em cima daquelas revistinhas ia ser comprimida em duas horas de ação hollywoodiana!

Só que eu não contava com um detalhe. Meu futuro reservava uma amizade com uma pessoa "do outro lado", alguém que adora HQ, mangás, animê etc: a Fernanda. Depois de não conseguirmos ir ver Homem de Ferro juntos, fomos a'O Incrível Hulk e Batman - O Cavaleiro das Trevas. O escorregão bizarro do Hulk acabou com qualquer chance de uma análise séria do filme. Mas o que me chamava a atenção era a análise que Fernanda fez do Cavaleiro das Trevas: sabe a aclamadíssima atuação de Heath Ledger? Fez muito o gosto dela não... "Funcionou dentro do filme", disse ela, da mesma forma como eu tinha achado que a de Jack Nicholson tinha funcionado no filme de Tim Burton. "É porque você não leu A Piada Mortal. Aí você ia entender o Coringa...". Percebendo o vazio que era meu suposto conhecimento sobre super-heróis, ela decidiu me emprestar um verdadeiro tesouro: todos os doze capítulos da série Watchmen - que, até então, eu simplesmente nem tinha ouvido falar! Li a graphic novel, achei-a brilhante em roteiro e desenho (melhor que muito livro!), mas não sabia que o filme estava sendo preparado. Ela já. E assim, no último dia 12, fui ao cinema para, pela primeira vez, ver um filme de super-herói com conhecimento da história original. Faltou a Fernanda ir junto... Mas isso até teve um lado interessante: não me concentrando tanto no filme, olhei para as pessoas.

E foi aí que eu entendi porque tinha gostado dos outros filmes desse tipo que já tinha visto. Porque quem vai assistir aos filmes de super-herói não é só quem já leu as histórias, mas principalmente quem nunca as leu. É por isso que acontecem mudanças que, muitas vezes, os fãs de HQ consideram imperdoáveis. Às vezes, como no caso de Watchmen, a mudança cria buracos no roteiro e prejudica o filme - a meu ver, o filme não é autocontido, o que eu acho primordial em qualquer obra cinematográfica. Em outros casos, a saída é diferente: trabalhar não a história, mas o personagem, como foi muito bem feito em Homem Aranha 2. O problema é que quem não leu as histórias originais não se dá conta disso. E sai do cinema achando que sabe tanto quanto o "esquisitão" que as lê há anos... Daí, quando pessoas desses dois "mundos" se encontram para discutir o filme, às vezes acontece uma situação parecida com a sugerida pelo Coringa de Heath Ledger: o encontro de uma força que não pode ser parada com um objeto que não pode ser movido. Alguém que usa argumentos de autoridade e alguém que usa argumentos como autoridade... Problema? Bem, se quem já conhecia as histórias assumir que a mera transposição dos quadrinhos para as telas não seria tão interessante quanto algo novo, um problema resolvido. E se quem não conhecia as histórias originais se animar a conhecê-las, então tudo bem. Bom senso, humildade e...

Cada macaco no seu galho
Chô, chuá
Eu não me canso de falar
Chô, chuá
O meu galho é na Bahia
Chô, chuá
O seu é em outro lugar...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Educação Má

Não fiz Licenciatura em Química apenas como salvaguarda para o caso de não conseguir algo interessante com o Bacharelado - coisa que muita gente fez. Porque desde o dia em que Fábio e Márcio me flagraram com um giz na mão "dando aula" em uma das salas do ICE (isso em dezembro de 2002, pouco antes do recesso/férias, eu estava estudando com colegas da turma de Laboratório de Inorgânica I), comecei a cogitar a possibilidade de exercer aquele ofício profissionalmente. Nunca tive, é verdade, a intenção de dar aulas para Ensino Médio, nunca tive paciência com bebês, crianças e adolescentes. No entanto, sempre considerei a falta de didática de vários professores do curso de Química da UFJF um dos pontos chave para a explicação do desempenho dos alunos nas avaliações das diversas disciplinas - e por fim, no ENADE. Por isso, para ser um professor melhor que aqueles com quem tive contato, decidi mergulhar de cabeça nas disciplinas da Licenciatura - foi uma decepção. Na teoria, o behaviorismo é horrível; na prática, é, talvez, o único que funciona! Em tempo: no Brasil.

Sempre me perguntei por que uma teoria tão batida, tão criticada, ainda era amplamente aplicada nas salas de aula brasileiras. A resposta era aquela que explica porque as coisas duram: "porque funciona". Mas... por que funciona? Numa sociedade consciente, uma abordagem puramente comportamental, que coloca alunos em posição semelhante a ratinhos que aceitam levar choques em troca de comida, deveria gerar grande indignação, repúdio - vide o clipe de "The Happiest Days Of Our Lives+Another Brick In The Wall - Part II" e/ou Laranja Mecânica. Tudo, menos funcionar!

A razão de funcionar é porque o Brasil sofre, desde sempre, de um enorme problema educacional. Não, o problema não está só nas escolas! Ele vem de dentro das casas, da educação que os pais dão aos filhos, da educação que a sociedade dá a seus membros. Funciona porque aprendemos desde cedo que a casca é mais importante que a polpa, que o comportamento é mais importante que o ser em si. Não é só um problema de má educação, mas de educação má, que valoriza o errado, o mal, o mau. Nessas condições, nem sei dizer o que aconteceu com a noção de civilidade: se foi a tal ponto deturpada, se nunca chegou a existir de fato, ou se só nunca foi interessante colocá-la em prática.

Lembro-me de um acontecimento do final de 2008. Resolvemos fazer a confraternização de final de ano na área de recreação do prédio de nosso orientador. O churrasco foi caminhando de tal forma que ninguém sentiu falta de música; sem ela, conversávamos mais e melhor. Por volta das quatro da tarde, a churrasqueira ao lado começou a ser ocupada. Os playboys de lá deram uma boa olhada para os nerds de cá e devem ter achado que o clima do nosso grupo estava pesadíssimo. Devem ter pensado que qualquer música iria alegrar o ambiente, que seria quase utilidade pública quebrar o "silêncio". Não demorou cinco minutos para nos levantarmos e irmos embora. O nosso churrasco já estava no final mesmo... O que nos "expulsou" de lá? Diria que nem foi a música (Asa de Águia no último volume), mas a falta de educação e empatia dos brasileiríssimos vizinhos.

De lá para cá, já consegui perceber os efeitos da educação maligna que impera nessas paragens dezenas de vezes, de taxistas cariocas a professores universiotários. E é por isso que gostaria de fechar o texto com uma frase que não é minha, mas que adoraria ter dito: "o pior do Brasil é o brasileiro".


*: Paula Espósito é co-autora deste texto.

domingo, 18 de janeiro de 2009

O doce veneno do... silogismo!

Segundo a Wikipedia, silogismo (do grego antigo, "conexão de ideias", "raciocínio") é um termo filosófico com o qual Aristóteles designou a argumentação lógica perfeita, constituída de três proposições declarativas que se conectam de tal modo que a partir das duas primeiras, chamadas premissas, é possível deduzir uma conclusão. Um exemplo clássico de silogismo é o seguinte:

Todo homem é mortal.
Sócrates é um homem.
Logo, Sócrates é mortal.

Quando Aristóteles apresentou a teoria do silogismo, já tinha previsto que, como a conclusão é claramente dependente das premissas, a coisa tinha vocação para boas piadas. Por isso, tratou logo de delimitar oito regras para que o silogismo seja válido. Uma delas é que "de duas premissas particulares, nada se conclui". Não observando as regras do silogismo (basta seguir o link e ter alguma paciência para ler boa parte do artigo), podemos chegar a conclusões visivelmente absurdas - e ocasionalmente engraçadas. Por exemplo:

O amor é cego.
Deus é amor.
Logo, Deus é cego.

Tomando essa conclusão como premissa de um novo silogismo:

Deus é cego.
Stevie Wonder é cego.
Logo, Stevie Wonder é Deus.

Em outras palavras, partindo-se de premissas inválidas pode-se concluir qualquer coisa. Mas, em geral, a conclusão será um equívoco. Por outro lado, se de duas observações particulares não pudesse surgir uma regra universal, não haveria ciência... Esse é o princípio da indução, também obra do criador do pensamento lógico - mas deixemos isso para uma outra oportunidade.

Milhares de anos depois das ideias de Aristóteles serem divulgadas, acessei, por influência de um amigo, um site que achei muito interessante: o Akinator, o Gênio da Internet. Esse sim é um silogismo melhor até que o agregado José Dias! A proposta do "gênio" é "adivinhar" em que pessoa você está pensando por meio de, no máximo, vinte perguntas. Pode até ser que o personagem no qual você esteja pensando nem exista de verdade. E o "cara" é bom: quando o personagem é famoso, coloca até a foto do sujeito! Algumas de suas vitórias sobre mim: Erwin Schrödinger (físico austríaco, um dos pais da Mecânica Quântica), Rubens Barrichello (a última pergunta foi: "o seu personagem fica sempre em 2º plano?"), Paris Hilton (bastaram 12 perguntas), Mark Knopfler (ex-"dono" do Dire Straits, famoso por seus solos de guitarra e suas roupas "limbo da moda"), Irineu Evangelista de Sousa (visconde de Mauá, provavelmente o maior empresário que o Brasil já conheceu), ninguém (respondi "não" para quase todas as perguntas), Honoré de Balzac (escritor francês, autor de A Comédia Humana), Bruna Surfistinha (não é a toa que este texto tem esse título...), Dodi (personagem de "A Favorita") e o que me deixou mais abismado: Carlos Alberto Bejani (com foto e tudo!). O segredo para vencê-lo é pensar em pessoas ou personagens pouco conhecidos. Por exemplo: ele quase sempre erra quando a personagem em questão é Hilda de Polaris (personagem da série Os Cavaleiros do Zodíaco) e praticamente desconhece Georgia "George" Lass, personagem principal do (extinto e bem pouco conhecido) seriado Dead Like Me - A morte lhe cai bem. A falha acontece porque o Akinator se baseia num enorme banco de dados. Ele faz uma comparação entre as suas respostas (formadoras de suas premissas) e as respostas que seriam esperadas para aquela pergunta. Tolera até uns três erros. E o que é pior para ele: ainda não sabe que resposta esperar para algumas perguntas. Por exemplo, no caso da Georgia Lass, ele errou porque ainda não constava em seu banco de dados a resposta para a pergunta "seu personagem tem pernas?". Com uma ou outra resposta diferente do esperado e algumas indecisões, ele não consegue levantar as premissas necessárias para descobrir seu personagem, leva o jogo até a vigésima pergunta e arrisca a pessoa que melhor se enquadrou naquele conjunto de características. Achei o site bem interessante. Bom para perder alguns minutos...

Ah, não adianta pensar em seus familiares, amigos, professores ou pessoas desconhecidas da mídia - ele acerta do mesmo jeito!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Dura lex, sed lex

"Quem quer casar com a Dona Baratinha,
que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?"

Em tempos de 13º salário, compras de Natal e crise econômica mundial, achei que cabia um texto sobre economia. Mas coisa simples.

Toda a Matemática que se precisa saber para lidar com bancos é: juros. Ou seja, porcentagem. Juro é o dinheiro que se cobra para emprestar dinheiro. Isso quer dizer, basicamente, que se você emprestar dinheiro a alguém à juros, receberá de volta todo o dinheiro emprestado mais os juros. Enfim, uma das lições mais importantes na vida é quando a mãe fala para o filho lavar as mãos toda vez que pega em dinheiro, pois este circula na mão de muita gente. Sim, dinheiro é coisa que troca de mão com enorme facilidade. Os juros são os responsáveis pela acumulação.

Se não houvesse juros - mas todo mundo pagasse as dívidas -, o sistema seria filantrópico. Mas como banco não é instituição de caridade, a tendência é fazer o fluxo de dinheiro sair dos correntistas para o banco. Para tanto, o que se faz é oferecer uma melhor segurança para guardar o dinheiro das pessoas comuns. Sim, isso é bom. Mesmo se levando em conta o fato de que agora a posse do dinheiro é do banco e ele não só pode como vai usá-lo em suas próprias operações, deixar dinheiro no banco vale a pena. Mas se você deixar o dinheiro na conta corrente, é virtualmente como deixá-lo embaixo do colchão - com a diferença que você ainda paga as despesas de manutenção da conta. Uma opção é deixá-lo na poupança. É claro que, para isso, você precisa ter um excedente - poupança é aquele dinheiro no qual você não vai ficar mexendo toda hora. Isso é porque, no fundo, são as contas poupança que garantem liquidez aos bancos, são o que atestam que eles têm dinheiro. Em outras palavras, deixar dinheiro na poupança é como emprestá-lo ao banco. Por isso, o banco te paga juros sobre ele. Funciona sempre assim: quem empresta o dinheiro, recebe os juros.

E assim, esse texto fica muito simples. Tudo o que se precisa fazer é analisar quem está emprestando o dinheiro e qual é a taxa de juros. Na poupança, você empresta o dinheiro. No cheque especial, você é que pega o empréstimo. Por isso, a primeira dica é: fuja do cheque especial. Não é só pelo fato de ter juros, mas principalmente porque a taxa de juros dele é sempre muito alta - algo em torno de 8% ao mês, se não me engano. Parece-me que existem pouquíssimos cenários em que compensa pegar dinheiro do cheque especial. Todos eles obviamente ligados a investimentos com rentabilidade maior que a taxa de juros do cheque especial - enfim, coisas que não fazem parte do cotidiano de um correntista comum. No entanto, discutirei brevemente um desses cenários no próximo parágrafo: as ações. Por enquanto, basta saber que o cheque especial deve ser encarado como terreno proibido: o valor R$0,00 da conta corrente pode ser comparado a uma cerca eletrificada - com areia movediça do outro lado.

Ultimamente, o mercado de ações não tem atraído muito os investidores por causa da crise econômica mundial. Porém, antes disso, certamente era uma maravilha pensar que, comprando ações que se valorizem com o tempo, se conseguiria mais dinheiro do que se tivesse investido o mesmo valor na caderneta de poupança. A diferença é o risco. A poupança é uma tartaruga, mas é garantida pelo governo. As ações são lebres que podem "se cansar", desvalorizar. O interessante nesse mercado é comprar ações a baixo custo e vendê-las a alto preço: o famoso "comprar na baixa e vender na alta". Ou então, comprar ações e "esquecer" que as comprou para receber dividendos por ocasião do balanço, fazendo assim uma caderneta de ações. Tudo depende do seu estilo. Particularmente, não por conta da atual crise, acho Bolsa de Valores uma coisa perigosa para a saúde. Toma tempo ficar investigando que ações estão subindo ou caindo e tomar decisões de compra e venda. E a susceptibilidade a crises pode levar a desesperos que não acontecem na poupança - a não ser que a economia do país comece a caminhar tão mal que, de repente, a Miriam Leitão comece a falar a palavra confisco.

Outra fonte muito comum de sumiço de dinheiro é o cartão de crédito. Embora, como explicado, seja fato que deve-se "gastar dinheiro para fazer dinheiro", o cartão de crédito pode vir a ser um risco. Porque crédito é um dinheiro que você ainda não tem, que ainda não é seu. Logo, você deve pagar por ele. E assim, todo mês aparece a pior coisa relacionada ao cartão de crédito: a fatura. É nela que surge a tentação: a cobrança mínima. Porque imagine que você está com dificuldades para pagar a fatura do cartão: não é tentador poder pagar apenas 10% do valor total e já impedir que seu nome vá parar no SPC e/ou Serasa? A princípio, sim. O problema é que o serviço não é filantrópico. Assim, deixar de pagar alguma coisa equivale a pedir emprestado exatamente aquela quantia. Essa quantia fica acumulada para o mês seguinte e lhe serão acrescidos juros. Ou seja: quanto menos você pagar da fatura do cartão neste mês, mais dinheiro perderá no mês seguinte. Via de regra, os juros do cartão de crédito nunca são tais que se torne interessante encará-los. Portanto, é importante ter dinheiro para quitar a fatura. Por isso, é conveniente que você escolha o dia do vencimento da fatura de forma que este seja próximo ao dia do seu pagamento - dia 9 é um ótimo dia. Só não digo que é aconselhável deixar a fatura em débito automático porque sempre há o risco de, com isso, entrar no cheque especial - e isso seria trocar um problema por outro. Porém, aí é uma situação que vale a pena analisar: qual dos dois tem a taxa de juros mais baixa? Se não há como fugir da dívida, ao menos deva somente a quem cobra a menor taxa de juros. Neste caso, segundo me informou uma amiga que estava estudando o assunto, sai mais em conta dever ao cheque especial - me parece que a taxa de juros mais baixa em cartão de crédito é de 14% ao mês.

Por fim, gostaria de, rapidamente, enunciar três "leis" que resumem tudo que falei aqui, que são um guia para quem deseja levar uma vida tranquila no tocante a dinheiro. Como diz meu orientador, "As Três Leis de Carlinhos" (o ex-orientador dele se chama Carlos Eduardo):

1ª lei: escolha bem com quem você vai se casar. Não precisa ser pessoa rica, mas alguém que também tem vontade de crescer, alguém que também queira trabalhar. Essa é a "lei" mais importante. Pois mais importante que trilhar o caminho é escolher quem vai te acompanhar nesse caminho.

2ª lei: tem que sobrar dinheiro no final do mês; não mês no final do dinheiro. Resumo da economia doméstica. Como fazer isso pode ser um desafio maior ou menor dependendo da personalidade de cada um. Mas, em geral, um bom jeito de ter controle sobre as contas é definir as prioridades. Tudo aquilo que puder se reverter em lucro para você, não é gasto; é investimento. Gasto mesmo é aquele dinheiro que você nunca vai conseguir recuperar. Aluguel, por exemplo, é investimento: se você não tem onde morar, vai ficar difícil conseguir um monte de coisas... Cursos de línguas (principalmente inglês, que já está absolutamente fundamental) e plano de saúde também. Se você não investe nessas coisas, um monte de portas te são fechadas. Todo tipo de diversão é, em essência, um gasto. Logo, só comece a gastar dinheiro depois que tiver cuidado de todos os investimentos. Em tempo: nenhum país do G8 fala espanhol, logo não invente um curso de espanhol "porque é fácil". Só faça se houver a possibilidade gritante de se mudar para a Espanha, porque se não for para lá, é preferível fazer francês, italiano ou alemão e tentar alguma coisa em algum outro país da Europa. Mandarim também é muito bacana, a China vai dominar o mundo, mas você não vai para lá - a lotação daquele país já está esgotada.

3ª lei: tente guardar 20% de tudo o que você ganha. Dá até para colocar isso como um dos investimentos acima. Independente de você ter uma caderneta de ações, aplique esses 20% num fundo de baixo risco, como a poupança. Garanta moradia, alimentação e educação, depois esses 20%. Aí gaste. Diversão também deve fazer parte da vida - cheque especial é que não.

Em adição a essas "leis", podemos falar algo sobre "o sonho da casa própria". Como dito, moradia é fundamental. Logo, é natural pensar que a casa própria é melhor que aluguel. Nem sempre. É bem verdade que uma hora a casa própria se paga pelos aluguéis que você deixou de precisar pagar. Mas até lá, o caminho é longo. De fato, a casa própria só vem depois do cumprimento das "Três Leis de Carlinhos". É muito comum precisar de um financiamento para a compra da casa própria. Nessa hora, compare o IGP-M (controla o reajuste dos aluguéis) com a taxa de juros do empréstimo. Se a taxa de juros do financiamento for menor que o IGP-M (inclusive o previsto para o prazo de pagamento), vale a pena. Nessa situação, é como se você pagasse aluguel para você mesmo. De toda forma, procure reduzir ao máximo o valor do financiamento: é a hora de empregar a poupança...

Não faça "economia de palito". Não vale a pena ficar economizando em coisas pequenas e perder rios de dinheiro na hora de comprar um carro ou uma casa.

sábado, 22 de novembro de 2008

Timetwister

Eu estou em 22 de novembro de 1983. É uma terça-feira, são dez para as cinco da tarde e venta forte na cidade. Um choro de criança corta o ar: garotos também choram.
Eu estou em 24 de fevereiro de 2002. Acabo de encontrar o valor 89/63 como resposta da segunda questão da prova de Matemática do PISM III. São dez horas da manhã e faz calor. Entrego a prova, a fiscal sorri para mim e vou-me embora com uma grande interrogação a me torturar.
Eu estou em algum dia de março de 2009. O rosto de todas as pessoas na sala de cinema fica azul pela fluorescência inventada do Dr. Manhattan. Poucos conseguem ver o tempo da mesma forma.
Eu estou em 1990. Caniggia faz o gol que elimina o Brasil da Copa. A Seleção não era tão boa assim, mas tenho apenas sete anos e não compreendo isso. Desgosto do futebol.
Eu estou em 2000. Num júri simulado, defendo Capitu. Lanço sombras sobre todas as evidências da acusação e reflito que o Direito é, na verdade, sinistro. Descubro-me perdidamente apaixonado pela Verdade.
Eu estou em 1984. Minha primeira experiência com eletricidade: sabe-se lá como, tiro a capinha da tomada e... Bem, meu primeiro contato com elétrons livres é chocante.
Eu estou em 1995, num dia qualquer. Desembarco do Xangai para um Colégio coberto por densa neblina.
Eu estou em 20 de dezembro de 2005. Acabo de ler, pela primeira vez, O Pequeno Príncipe. Corro ao computador e anoto várias passagens em um documento.
Eu estou em 1986. Rolo pelas escadas da casa nova. Paro no último degrau, que é mais largo. Aprendo que toda escada começa no primeiro degrau.
Eu estou em 28 de fevereiro de 2008. São cinco da tarde e meu orientador de mestrado lê a ata da sessão de arguição de minha Dissertação. Sinto-me mais leve ao ouvir as palavras "concluindo pela aprovação".
Eu estou em novembro de 1994. Mergulho na piscina de um hotel fazenda. O doce de leite depois do almoço adquire sabor transcendental.
Eu estou em 18 de agosto de 2000. Ao sair do teatro, decido que os acontecimentos daquela noite não poderiam ser esquecidos. Inicio um diário.
Eu estou em 1993. Aprendo que as pessoas não gostam de apelidos.
Eu estou em fevereiro de 1988. Sentado nos ombros de meu pai, descubro que carnaval é uma palhaçada.
Eu estou em 1º de março de 2006. Estudo Química Orgânica para a prova do mestrado. Nisso descubro que carnaval não é palhaçada.
Eu estou em dezembro de 1993. Assisto ao São Paulo ser campeão mundial pela segunda vez. Redescubro o futebol.
Eu estou em 5 de julho de 2007. Um profundo céu azul brilha atrás do vidro translúcido da única janela do quartinho verde onde estava. Sinto-me feliz por perceber o tempo de maneira desordenada.
Eu estou em 23 de maio de 2002. Patrícia e eu vamos ao cinema ver Homem-Aranha. Surge uma amizade enigmática, mutante e simbiótica.
Eu estou em 1998. Monto um grupo de estudos com dois dos melhores seres humanos que já conheci. São os irmãos que escolhi.
Eu estou em outubro de 2010. O relógio do Parque Halfeld marca 19:00hs. Ao meu lado, rostos conhecidos que não via há muito tempo. Alguns mudaram mais que outros.
Eu estou em 13 de dezembro de 2002. Jogo boliche pela primeira vez. Apaixono-me pelo som do strike (a jogada, não a banda) e vejo o esporte como uma terapia.
Eu estou em 1985. Mamãe me coloca sobre uma cadeira posicionada contra a janela da rua para ver os "meninos grandes" jogarem bola. O jogo acaba quando começa a chover.
Eu estou em 22 de dezembro de 2003. Com O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel, surge o "Cine Alameda VI".
Eu estou em 4 de junho de 1993. Pelo telefone, às nove e meia da noite, recebo a notícia de que tenho um irmão de sangue: seu nome é Lucas.
Eu estou em 22 de novembro de 2008. Estou postando este texto em meu blog. Esta é minha história.